Iriana Bertin olha com cuidado para dores que muitas mulheres silenciam

Ginecologista e obstetra aborda menopausa, sexualidade e saúde íntima feminina com escuta e atenção à história de cada paciente

Fotos: Greyce L. R. da Rosa

Há dores que não aparecem à primeira vista, mas atravessam a rotina, a autoestima e a forma como uma mulher se reconhece no próprio corpo. Muitas chegam ao consultório em voz baixa, depois de anos de constrangimento, de respostas apressadas ou da sensação de que determinados incômodos deveriam simplesmente ser suportados. Na prática de Iriana Maria Lorandi Bertin, esses temas deixaram de ser secundários. Sua atuação parte da ideia de que saúde íntima, sexualidade, menopausa e bem-estar não podem ser tratados como assuntos menores, mas como dimensões legítimas da experiência feminina.

Origens e formação

Nascida em Caxias do Sul (RS), Iriana cresceu sem médicos na família, mas com uma referência muito próxima do cuidado. A mãe, enfermeira, foi a primeira inspiração para a escolha da Medicina. A afinidade com a ginecologia surgiu cedo, ainda na graduação, quando teve contato com a especialidade desde os primeiros semestres e encontrou ali um campo que unia escuta, continuidade e vínculo.

“A ginecologia apareceu muito cedo para mim. Ainda no início da faculdade, percebi que era ali que eu queria estar, cuidando de mulheres, acompanhando fases diferentes da vida e construindo uma relação de confiança que vai além da consulta.”

Formada em Medicina pela Universidade do Planalto Catarinense, com residência em Ginecologia e Obstetrícia no Hospital Geral de Caxias do Sul, ela seguiu aprofundando a própria atuação com fellow em cirurgia íntima e formação em andamento em Sexualidade Humana. Mais do que ampliar currículo, esse percurso ajudou a consolidar um olhar cada vez mais atento para queixas que misturam corpo, autoestima, conforto e qualidade de vida.

A virada profissional e o amadurecimento da prática

Foi no consultório que sua prática ganhou contornos mais definidos. Aos poucos, Iriana percebeu que muitas pacientes, sobretudo a partir dos 35 e 40 anos, chegavam com sintomas pouco valorizados, inclusive por já terem ouvido que certas mudanças eram “normais”. Em vez de acolhimento, encontravam resignação. Em vez de investigação, escutavam que precisariam conviver com aquilo.

Esse movimento fez com que sua atuação passasse a olhar com mais profundidade para temas ligados à saúde íntima feminina, à menopausa, à sexualidade e às tecnologias aplicadas à região íntima. “Muitas mulheres chegavam com queixas que tinham sido minimizadas. Faziam os exames de rotina, mas saíam sem espaço para falar de desconfortos, de autoestima, de mudanças no desejo, de sintomas da menopausa. E eu percebi que era justamente ali que havia uma lacuna importante de cuidado.”

Ao longo dos anos, a experiência clínica também transformou a forma como ela entende o próprio papel. Se a formação médica trouxe a base técnica, o contato diário com as histórias das pacientes aprofundou uma dimensão mais humana da profissão. “Com o tempo, fui me tornando uma médica mais acolhedora, porque a prática ensina que não basta identificar um sintoma. É preciso compreender a história daquela mulher, o momento que ela vive e a maneira como aquilo repercute em sua vida.”

O que acontece no consultório

Na condução do atendimento, Iriana parte de um princípio simples: antes de pensar em qualquer conduta, é preciso entender o que levou aquela paciente até ali. Isso significa escutar queixas, contexto, expectativas e até os silêncios. Para ela, não basta nomear sintomas; é necessário explicar por que eles surgem e em que fase da vida se inserem.

“Quando a paciente entende por que começou a sentir algo que antes não sentia, ela deixa de se ver como alguém perdida dentro do próprio corpo. Essa compreensão muda a forma como ela participa do cuidado e das decisões sobre a própria saúde.”

A própria configuração do consultório foi pensada para favorecer essa abertura. Em uma área ainda atravessada por tabus, o ambiente também comunica. A intenção é reduzir a distância simbólica que, tantas vezes, faz a mulher esconder justamente aquilo que mais precisa ser dito. “Muitas pacientes dizem que vão contar algo que nunca disseram a ninguém. Isso mostra o quanto ainda existe vergonha em torno de temas íntimos e como o acolhimento precisa fazer parte da conduta, não apenas do discurso.”

Sua noção de qualidade de vida também passa por essa escuta individualizada. Em vez de impor uma fórmula rígida, ela procura compreender a realidade de cada paciente, da rotina de trabalho às relações, do sono aos hábitos, da sexualidade às possibilidades concretas de mudança. O cuidado, nesse sentido, não nasce de um modelo idealizado, mas de uma conversa honesta sobre o que é possível construir.

Menopausa, sexualidade e dúvidas que persistem

Entre os temas mais frequentes em sua rotina estão os sintomas da transição menopausal e da pós-menopausa. Para Iriana, ainda existe uma tendência a tratar essas mudanças como se fossem apenas o preço natural do envelhecimento feminino, mesmo quando afetam sono, humor, libido, conforto íntimo e vida sexual.

“Há sintomas que podem ser comuns nessa fase, mas não devem ser naturalizados quando causam sofrimento. Hoje, a mulher vive muito mais, e isso exige um olhar diferente para a menopausa. Não faz sentido atravessar décadas de desconforto como se não houvesse nada a ser feito.”

A sexualidade feminina também ocupa um lugar central nessa escuta. Segundo a médica, ainda há um apagamento silencioso da vida sexual da mulher depois dos 40 anos, como se, passada certa fase, esse aspecto deixasse de importar. Na prática, o que ela vê é o contrário: mulheres tentando entender mudanças no desejo, no conforto e na relação com o próprio corpo, muitas vezes sem encontrar linguagem para nomear o que sentem.

“A saúde sexual da mulher ainda é pouco validada. Muitas pacientes chegam sem saber como falar sobre dor, ressecamento, perda de libido ou desconforto. E, quando isso não é acolhido, elas passam a acreditar que precisam suportar tudo em silêncio.”

Entre as dúvidas recorrentes, estão dor na relação sexual, corrimento, odor íntimo e alterações corporais que geram insegurança. Parte importante do atendimento, segundo ela, está em distinguir o que faz parte da fisiologia do que merece investigação, sem alimentar culpa nem exigências irreais sobre o corpo feminino.

Tecnologia, cirurgia íntima e visão de futuro

Na prática clínica, tecnologias e procedimentos podem entrar como possibilidades de cuidado, sempre após avaliação individual. Iriana faz questão de afastar leituras simplificadas que reduzem esse campo à estética. Em sua rotina, recursos como o laser íntimo aparecem com frequência ligados a queixas funcionais, como ressecamento, desconforto e perda urinária. O mesmo vale para a cirurgia íntima, que, em sua visão, deve partir do incômodo real da paciente, nunca de comparação ou pressão externa.

“Cada mulher tem sua anatomia, sua história e suas razões. Nenhuma decisão deve nascer de um padrão imposto. O ponto de partida precisa ser sempre aquilo que, de fato, a incomoda e impacta sua vida.”

Ao olhar para o futuro, ela fala em ampliar o acesso a esse tipo de abordagem e tornar a saúde íntima feminina menos cercada por medo, vergonha e silêncio. No centro dessa visão permanece uma convicção que sustenta toda a sua prática.

“A medicina na qual eu acredito precisa unir ciência e cuidado para olhar a mulher por inteiro, respeitando sua história, acolhendo suas queixas e contribuindo para que ela se sinta mais saudável, mais segura e mais confiante consigo mesma.”

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