Quando a mulher já não se reconhece, Danielle Beran escuta
Ginecologista fala sobre menopausa, rotina intensa, autoestima e a importância de compreender a mulher além dos sintomas

Há mulheres que chegam ao consultório sem saber exatamente o que sentem. Não falam apenas de um sintoma, mas de uma sensação difusa de estranhamento. O corpo mudou, a energia já não é a mesma, o desejo oscilou, o espelho parece devolver outra imagem. Foi nesse território, onde saúde, autoestima, rotina e envelhecimento se cruzam, que Danielle Beran foi desenhando a própria prática. Hoje, a ginecologista concentra sua atuação sobretudo em mulheres a partir dos 40 anos, reunindo climatério, menopausa, saúde hormonal, emagrecimento, cuidados íntimos e, mais recentemente, saúde capilar, sempre a partir de uma ideia que atravessa sua fala: não existe resposta pronta quando se trata da vida de uma mulher.
Origens e formação
Carioca, filha de pai e mãe médicos, Danielle conta que decidiu seguir a medicina ainda na adolescência, embora esse não fosse um caminho imposto pela família. “Eu tinha 15 anos quando decidi ser médica. A princípio, queria ser aeromoça, queria conhecer o mundo todo. Depois entendi que seria medicina”, lembra. A escolha pela ginecologia também veio cedo. Já no terceiro ano da faculdade, sabia que queria uma especialidade com dimensão cirúrgica e seguiu para a ginecologia e obstetrícia.
Formada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), após a residência, voltou-se para a medicina fetal e passou seis anos na França aprofundando os estudos nessa área. O retorno ao Brasil, porém, coincidiu com uma fase em que a vida pessoal também exigia acomodações. Com um filho pequeno e morando em Resende (RJ), entre Rio de Janeiro e São Paulo, percebeu que manter aquela subespecialidade exigiria deslocamentos constantes e outra dinâmica de vida. Escolheu, então, a ultrassonografia, área próxima da medicina fetal, e abriu a própria clínica. “Eu sempre quis ter o meu negócio. Nunca quis ter um emprego público. Como a minha vida mudou muitas vezes, eu também precisava de uma especialidade que me desse mobilidade”, afirma.
A virada profissional
Durante anos, Danielle trabalhou com ultrassom e resistiu à ideia de abrir consultório. Foram as próprias pacientes que começaram a deslocá-la desse lugar, repetindo uma pergunta simples sobre a possibilidade de acompanhamento para além do exame. A resposta era não, até deixar de ser. Em 2018, quando começou a se aproximar da ginecologia regenerativa e do cuidado íntimo, encontrou um eixo que dialogava com as queixas que mais ouvia de mulheres maduras. “Quando comecei a estudar essa área, percebi que poderia abrir consultório já focada nessas mulheres 40+, que precisavam de muito mais do que uma consulta básica”, diz.
A partir dali, sua atuação se ampliou de forma orgânica. Ao acompanhar mulheres no climatério e na menopausa, percebeu que muitas também precisavam de suporte em emagrecimento e metabolismo. Mais tarde, identificou o mesmo em relação à queda de cabelo. Em vez de tratar essas demandas como temas isolados, passou a reuni-las dentro de um cuidado mais amplo. “Tudo está conectado. Dentro da medicina da mulher, fui entendendo que não adiantava olhar só uma parte. Cada paciente precisa de um tratamento dentro da sua própria realidade”, resume.
O que faz na prática
Danielle diz que a frase que mais escuta no consultório é direta e reveladora: “’Eu não estou me reconhecendo’.” Para ela, esse relato sintetiza uma fase da vida em que as mulheres lidam, ao mesmo tempo, com alterações hormonais, cansaço, ganho de peso, queda de libido, mudanças no cabelo e um acúmulo de funções que torna tudo mais confuso. Seu trabalho, afirma, começa por entender a vida concreta de quem está à sua frente.
“Para atender bem uma paciente, preciso entender a vida dela. Não adianta dizer para alguém fazer algo se ela trabalha demais, dorme pouco, cuida da casa, da família e não consegue encaixar aquilo na rotina. Cada paciente é uma paciente”, afirma. É por isso que as consultas costumam ser longas. Mais do que definir uma conduta, ela busca criar compreensão sobre o que está acontecendo. Isso aparece com força, sobretudo, quando se fala de menopausa e reposição hormonal. “Eu digo para as pacientes que a gente só tem medo daquilo que não entende. Primeiro, eu explico. Depois que ela entende, pode escolher”, conta.
Ao falar de envelhecimento feminino, Danielle evita a ideia de solução mágica e prefere uma abordagem mais cuidadosa, sem excessos. “Eu tento colocar a paciente no mínimo necessário para que ela fique bem. Não trabalho com exageros. O objetivo não é devolver 30 anos a ninguém, mas buscar mais qualidade de vida, clareza e bem-estar em uma fase em que muitas mulheres acham que precisam simplesmente suportar tudo”, afirma.

O lado humano do cuidado
Se a parte clínica exige estudo, a parte humana exige escuta. Danielle descreve essa etapa da vida como um período em que muitas mulheres se veem divididas entre várias exigências ao mesmo tempo. “A mulher é casa, é família, é trabalho, é mãe, é tudo. A cabeça dela não é uma coisa só, são várias abas abertas. E, muitas vezes, ela não sabe se olha para os filhos, para o casamento, para o trabalho ou para ela mesma”, diz.
Essa leitura aparece também quando trata de autoestima, sexualidade e das inseguranças que cercam a saúde íntima. Sem transformar o tema em centro absoluto da narrativa, ela reconhece o peso do silêncio e do tabu. “Muitas pacientes me dizem que sempre se incomodaram, mas nunca ninguém perguntou. E, quando alguém perguntava, ouvia que era assim mesmo. O que vejo é que, muitas vezes, o sofrimento não está só no sintoma, mas no fato de a mulher ter aprendido a se calar sobre ele”, afirma.
No consultório, ela diz tentar construir um espaço em que a paciente compreenda o próprio corpo antes de tomar qualquer decisão. Isso vale para hormônios, metabolismo, autoestima e as mudanças do envelhecimento. “Não existe receita de bolo. Existe escuta, entendimento e escolha. Quando a mulher entende o que está acontecendo, sai do medo e consegue decidir de forma mais consciente”, resume.
Planos e visão de futuro
Para os próximos passos, Danielle pretende ampliar a estrutura física do espaço onde atende e consolidar uma frente voltada ao cuidado capilar, nascida da observação recorrente de pacientes que sofriam com queda de cabelo em meio às mudanças hormonais e ao próprio envelhecimento. Também começa a olhar para uma atuação mais ampla, com palestras e trocas fora do consultório, a partir da experiência acumulada ao longo dos anos.
Ainda assim, sua fala retorna sempre ao mesmo ponto: a necessidade de olhar para a mulher de forma integral, sem fragmentar aquilo que, na vida real, aparece misturado. O que a move parece estar menos em multiplicar frentes e mais em dar contorno ao que tantas pacientes sentem, mas nem sempre conseguem explicar.
“Procurem entender mais do que ter medo. Procurem profissionais que possam explicar o que vocês estão vivendo, para que possam sair desse lugar de insegurança e escolher, de forma livre e consciente, o que querem para si.”
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