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Neuropediatra Luiza Mattos esclarece TDAH e autismo

Sinais discretos, seletividade alimentar e dúvidas escolares recebem avaliação cuidadosa, metas realistas e apoio contínuo com famílias e docentes

Fotos: Carol França

Criada na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro (RJ), Luiza Mattos é neuropediatra com atuação na capital fluminense. Na formação médica, ela se aproximou da Pediatria e, depois, da Neuropediatria. Fez residência em Pediatria na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e viveu um período em Niterói (RJ) para a formação em Neuropediatria na Universidade Federal Fluminense (UFF).

A decisão pela especialidade nasceu menos de um “chamado” idealizado e mais do contato diário com crianças e famílias. “A minha pergunta inicial é sempre a mesma: qual é a história? Antes de hipótese e exame, eu preciso entender o contexto”, explica.

No hospital universitário, o convívio com casos complexos — convulsões e encefalopatia crônica não progressiva — mostra um campo em que rotina e prevenção pesam tanto quanto a tecnologia. Luiza conta que, na residência, uma paciente com zika congênita permanecia internada com frequência e tinha traqueostomia. A equipe, inicialmente, enxergava mais a gravidade do quadro do que a comunicação possível.

“Quando a equipe começa a enxergar o que aquela criança comunica, tudo muda”, recorda. A fonoaudióloga indicou uma válvula para a traqueostomia, permitindo emissão de som. Com interação diária, sorrisos e respostas ficaram mais evidentes. “A tecnologia ajuda, mas a atitude clínica somada à escuta é o que orienta o caminho”, resume.

Esse olhar atravessa a prática atual. No consultório, ela acolhe a ansiedade de quem chega em busca de respostas e organiza uma anamnese que prioriza a dinâmica cotidiana da criança em casa e na escola. “As pessoas chegam tensas e com medo de julgamento. Um sorriso e uma conversa sincera já ajudam a organizar o que realmente importa”, diz. A família sai com registros por escrito, hipóteses, prioridades e próximos passos — sempre com foco funcional e espaço para revisões a cada retorno.

Escuta, observação e direção

No consultório, tudo comunica: como a criança entra, com quem se ancora, como reage ao ambiente, se aceita brincar, como mantém atenção e de que modo negocia mudanças de atividade. Ao longo de toda a consulta, em interação constante com a família e com a própria criança, a médica observa e testa hipóteses — desde os primeiros minutos até o fechamento, porque esses sinais, somados ao relato de casa e da escola, ajudam a diferenciar fases esperadas do desenvolvimento de algo que está, de fato, gerando prejuízo.

Em seguida, Luiza organiza o raciocínio clínico com base no cotidiano possível daquela família. Quando indicado, exames e avaliações complementares entram no planejamento. “Eu entrego por escrito o que vimos e o que faremos a seguir, para ninguém depender da memória. Plano claro reduz angústia e dá direção”, afirma.

Na prática, o registro também evita ruídos entre cuidadores e escola: quem lê entende prioridades, combinações e metas funcionais — o que deve acontecer primeiro, o que pode esperar e o que precisa ser monitorado no próximo retorno. Isso sustenta a continuidade do cuidado sem promessas fáceis e com expectativas realistas.

TDAH na infância com critérios claros

Luiza contesta a noção de “moda” que ronda o debate público. “O TDAH começa na infância. É menos sobre um teste único e mais sobre um padrão de comportamento que persiste e causa prejuízo em diferentes ambientes”, explica. A alfabetização costuma revelar diferenças: entre quatro e seis anos, a maioria desacelera. Já quando a inquietude segue intensa, com impactos em sala, em casa e nas relações, a investigação ganha força. “A escola é aliada. A professora observa demanda cognitiva e compara crianças da mesma faixa etária, o que evidencia aquilo que foge do esperado”, diz.

Pelos relatos, Luiza diferencia variabilidade do desenvolvimento de sinais de alerta por faixa etária, sempre em linha com a entrevista. Em crianças pequenas, a atenção naturalmente flutua. Desta forma, o que liga o alarme é a persistência de prejuízos e a desproporção do comportamento em comparação aos pares. “Não é o episódio isolado. É o conjunto: desatenção, inquietude e impulsividade que prejudicam banho, tarefas, convivência e aprendizado”, resume. Nesse ponto, a documentação de rotinas e de contextos ajuda a separar ansiedade, sobrecarga e efeitos de telas de um transtorno que pede manejo específico.

Decisão terapêutica compartilhada e metas funcionais

A condução não é padronizada, nem centrada em um recurso único. “É raro tratar só com remédio. O cérebro funciona de outro jeito e a família precisa de estratégias para o cotidiano”, afirma. Intervenções comportamentais, ajustes ambientais, psicoterapia e, quando indicado, medicações entram em mosaico, sem promessas fáceis. A baliza é funcional: sono de qualidade, rendimento escolar possível, autoestima preservada e relações menos conflituosas.

A introdução de medicamento é discutida com franqueza, benefícios e efeitos adversos na mesa. “Se eu prescrevo e a família não se sente segura, não funciona. Decidimos juntos, pesando custo-benefício e alinhando expectativas”, reforça. Em paralelo, ajustes concretos — rotinas previsíveis, combinados sobre telas e sono, além de apoio escolar individualizado — costumam reduzir desgaste diário e ampliar a margem de aprendizagem.

Rotina, previsibilidade e sono como alicerces

Luiza insiste na previsibilidade como antídoto para conflitos repetitivos. Acordos simples – horários de tela, exceções negociadas (um jogo de futebol à noite), combinações sobre alimentos preferidos em dias específicos — diminuem choros e discussões. “Regras claras não são rigidez, são coerência. A família deixa de discutir o tempo todo e a criança entende o que esperar”, explica.

O sono é fundamental porque impacta humor, atenção e autorregulação. “O cérebro que não descansa não será capaz de aprender e regular. Higiene do sono, por mais básica que pareça, muda o dia a dia de muita gente”, afirma. Na prática, a orientação cruza higiene do sono com a realidade da casa, evitando receitas genéricas e privilegiando mudanças possíveis.

Fotos: Carol França

Autismo e sinais sutis que pedem atenção

Nos quadros com linguagem preservada e socialização aparente, as nuances exigem escuta fina. Evitar interações o tempo todo, sofrer com mudanças, recusar contato visual e apresentar desconfortos sensoriais podem indicar que há algo além da personalidade tímida. “Diagnóstico não é rótulo de identidade. É ferramenta de cuidado que ajusta o nível de suporte no tempo certo”, defende. Essa distinção permite evitar tanto a banalização quanto o excesso de intervenção.

A seletividade alimentar aparece frequentemente e pede investigação de origem. “Forçar ingestão aumenta trauma e rejeição. Fono, nutrição e psicologia ajudam a mapear a origem — sensorial ou comportamental — e a reintroduzir alimentos com segurança”, orienta. Estratégias graduais, como brincar com texturas, cheirar e participar do preparo constroem caminhos sem violência alimentar. O objetivo não é “comer de tudo”, mas ampliar repertório e reduzir sofrimento.

Organização terapêutica e priorização sem culpa

Quando a família chega exausta, com múltiplas terapias e pouco resultado, a médica reorganiza prioridades. Os relatos da escola e da casa, aliados ao exame clínico, funcionam como matriz de decisão: o que gera mais prejuízo imediato, o que é seguro esperar e o que depende de outras áreas (sono, alergias, visão). “Esperar com segurança às vezes é o melhor cuidado. O checklist inclui impacto, risco e capacidade daquela família de sustentar o plano”, explica.

A parceria com a escola aparece como vetor de suporte não estigmatizante, isto é, ajustes simples em sala, instruções claras, intervalos planejados e comunicação com a família. “Alinho com a escola sem rotular. Combinações práticas fazem diferença”, comenta. A cada retorno, as metas são reavaliadas, reduzindo o peso emocional da jornada.

Pediatria, rede e o básico que abre caminho

Luiza garante: a neuropediatra não substitui o pediatra. “Corrigir o básico abre caminho para tratar o que é do neurodesenvolvimento”, afirma. Rinite e alergias interferem no sono, erros de refração dificultam leitura e escrita, disfunções da tireoide alteram humor e atenção etc. “Se a criança não enxerga direito, sofre mais e aprende menos. Trato uma coisa sem descuidar da outra”, completa.

A rede se estende a fonoaudiologia, terapia ocupacional, neuropsicologia e psicopedagogia. O plano depende do impacto funcional e da capacidade da família de sustentar frequência e custos. Não há pacote fixo, mas sim uma orquestração que respeita limites materiais e emocionais.

O atendimento virtual é possível em situações específicas – sobretudo com adolescentes e quando há material prévio robusto -, após triagem com a secretária. “Na primeira consulta, a observação clínica faz diferença. Quando dá para ajudar à distância com segurança, a gente ajuda, mas quando não dá, priorizo o encontro presencial”, diz. A decisão considera idade, queixa principal e possibilidade real de observar interações pela tela.

Comunicação com calma e responsabilidade

Nas redes, a médica traduz temas complexos sem prometer soluções instantâneas ou caras. Começa perguntando o que a família sabe e o que teme. A partir daí, orienta para fontes confiáveis e desaconselha atalhos milagrosos. “Meu objetivo é trazer calma. Culpa não cuida de ninguém”, afirma.

Na formação de profissionais de saúde e educação, ela defende encaminhamentos responsáveis e a redução de filas desnecessárias.

Sem “grandes anúncios”, Luiza concentra energia em sedimentar o consultório, acompanhar seus pacientes e acolher quem chega. “Quero uma comunidade de famílias que entendem o meu jeito de trabalhar e levam isso para a vida”, diz. O horizonte próximo combina consistência, informação clara e parceria contínua.

“Procurem profissionais confiáveis. Consulta não é lugar de julgamento, é para construir um caminho possível para o seu filho. Se não se sentirem acolhidos, busquem outra opinião. Confiança faz parte do tratamento.”

CRM:52-111173-6 | RQE:40141

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Fotos: Carol França

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