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Médico Diler Silva aponta os sinais que diferenciam cólica comum de alerta clínico

Entre endometriose e menopausa, profissional de saúde detalha sinais de alerta, caminhos de diagnóstico e escolhas de cuidado que priorizam qualidade de vida.

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A dor que volta todo mês e vai ocupando espaço na rotina costuma ser empurrada para a prateleira das normalidades. Quando isso acontece, o corpo aprende a resistir e a vida, a se adaptar. Para Diler Silva, o início do cuidado é menos sobre “provar” a dor e mais sobre reconhecê-la. “A gente tem que ter respeito pela dor das pacientes. Não é achar que é coisa da cabeça.”

Entre Petrópolis (RJ) e o Rio de Janeiro, ele estruturou a prática em torno de dois temas que se misturam na realidade: endometriose e menopausa. O fio condutor, como descreve, é enxergar a mulher inteira, sem reduzir sintomas a um único órgão e sem aceitar que o sofrimento vire rotina. “A gente não trata só o útero, só o ovário, a gente trata a mulher como um todo”, diz. Na consulta, isso se traduz em escuta cuidadosa, exame clínico bem-feito e um plano que combine técnica com acompanhamento.

Filho de mãe professora da rede estadual e pai funcionário público, Diler conta que a vontade de cursar medicina apareceu por volta dos 13 anos, ainda na escola, estimulada por professores que viam dedicação, desempenho acadêmico e facilidade de relação com pessoas. Sem tradição médica na família, descreve um caminho pioneiro dentro de casa. “Sou o primeiro médico da família.” Depois da graduação, ele voltou a Petrópolis e dedicou sua atenção à saúde da mulher.

Tecnologia no cuidado da mulher

Quando fala em mudança de prática, o médico aponta menos o fascínio pela tecnologia e mais o que ela muda para a paciente. A ideia é evitar, sempre que possível, cirurgias associadas a grandes incisões quando há alternativas menos agressivas, com recuperação mais rápida e menor risco de complicações. “Hoje é incabível você falar para uma paciente que tem que cortar a barriga para operar um útero, operar um ovário”, destaca.

Na rotina, ele descreve a cirurgia minimamente invasiva como um recurso que amplia a precisão em casos complexos e reduz a morbidade. A tecnologia, nesse cenário, entra como ferramenta para enxergar melhor, dissecar com mais cuidado e preservar estruturas delicadas. “A tecnologia está a cada dia mais presente e oferecendo o melhor para as nossas pacientes.” Para ele, o amadurecimento passa por equilibrar três pontos difíceis: diagnosticar sem atrasos, decidir o tempo certo de intervir e sustentar acompanhamento ao longo do tempo, especialmente quando endometriose e menopausa atravessam a mesma história clínica.

Uma das dúvidas mais frequentes no consultório, é a razão de sintomas intensos coexistirem com um ultrassom rotineiro sem alterações. A explicação começa pelo início da doença. “A primeira fase da doença é uma doença inflamatória.” Nessa etapa, segundo descreve, ainda não existe fibrose ou lesão evidente que “apareça” com facilidade em exames comuns, o que ajuda a entender por que o diagnóstico costuma ser tardio. “Todos os trabalhos mostram para a gente, de 7 a 9 anos para se fazer o diagnóstico”, afirma.

Ele chama atenção para um efeito colateral desse atraso: a dor vira objeto de disputa, como se só pudesse ser reconhecida depois que o exame confirma. Para ele, a escuta clínica não pode depender da imagem para ganhar legitimidade. “O diagnóstico da endometriose é clínico.” Exames mais direcionados, como ressonância ou ultrassom com preparo, entram para mapear extensão e locais acometidos, ajudando a planejar tratamento e mensurar risco, não para desqualificar o quadro quando a história e o exame físico já são consistentes.

Na anamnese, Dilei organiza perguntas decisivas em quatro termos que começam com D. “Dismenorreia, que é a cólica menstrual, disúria, que é a dor para urinar, disquezia, que é a dor para evacuar e dispareunia, que é a dor para transar.” O ponto, como ele reforça, é o padrão. Quando os sintomas pioram de forma cíclica, principalmente no período menstrual, a atenção precisa aumentar. “A endometriose é a única doença onde a dor e seus sintomas pioram no período menstrual”, diz.

Esse alerta, para ele, esbarra em uma cultura antiga, repetida desde a adolescência. “Aquela banalização que muitas vezes a gente escuta, como por exemplo, ter que sair do colégio por conta de cólica, desmaiar na enfermaria do colégio por causa de cólica, isso não é normal.”

Quando a inflamação se torna crônica, ele descreve efeitos que escapam do eixo ginecológico e atingem energia, humor e rotina. “É como se sugasse realmente a energia dessa mulher.” O metabolismo, como ele narra, passa a trabalhar o tempo inteiro tentando “abafar” a inflamação, gerando desgaste contínuo, fadiga intensa e alteração do sono. Ele também relaciona esse quadro a ansiedade, angústia e impacto na vida sexual, inclusive por dor recorrente e perda de desejo em um corpo que vive em alerta.

No intestino, ele compara a sensação à síndrome do intestino irritado, com variações entre constipação e diarreia, dependendo do organismo. A constipação, segundo ele, aparece com frequência e pode ser reforçada por um mecanismo de defesa diante da dor. “Muitas vezes é tida constipação, porque além da inflamação, tem a dor na hora da evacuação e inconscientemente a mulher prende para não sentir a dor.”

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Tratamento, fertilidade e cirurgia

Diler não promete a cura, no entanto, o compromisso declarado é com a qualidade de vida e a preservação de funções. Isso inclui manter, quando possível, fertilidade e integridade intestinal e urinária, além de reduzir o sofrimento no dia a dia.

Fertilidade aparece como tema recorrente, quase sempre acompanhado de medo. Ele cita a endometriose como causa importante nos quadros de infertilidade e menciona um dado que usa para contextualizar. “A endometriose é responsável por 50% dos quadros de infertilidade”, afirma. Ao mesmo tempo, evita transformar o diagnóstico em sentença. “Você, com a endometriose, você consegue engravidar.” Para ele, a dificuldade tende a ficar mais evidente quando a doença está avançada a ponto de distorcer a anatomia pélvica, com alterações de trompas, aderências e comprometimento de estruturas que impactam diretamente a chance de gestação.

Por isso, ele descreve uma investigação que não coloca tudo na conta da endometriose. “A causa pra botar na conta da endometriose é um diagnóstico de exclusão”, explica. Segundo ele, a avaliação inclui o casal, com espermograma, investigação hormonal, reserva ovariana e permeabilidade tubária. Em pacientes com desejo reprodutivo que podem passar por cirurgia, ele diz orientar congelamento de óvulos como estratégia de segurança. “Uma poupança, vamos dizer assim, da sua fertilidade.”

Sobre o tratamento, ele reforça que não existe receita única, mas há pilares que sustentam um plano bem conduzido. “O bloqueio hormonal é mandatório.” Ele também descreve uma base que busca reduzir inflamação e melhorar a resposta do corpo, com ajustes de alimentação, incentivo a exercícios e, conforme o caso, suplementações. A visão, como ele narra, é multidisciplinar, com suporte psicológico, nutrição, atividade física orientada e fisioterapia pélvica em pacientes com dor importante. Em alguns casos, ele diz que a acupuntura pode entrar como apoio.

A cirurgia, no entanto, não aparece como atalho. “Só indico a cirurgia de endometriose em três casos”, destaca. São eles: falha do tratamento clínico com manutenção de baixa qualidade de vida, risco a órgãos e funções, como intestino, aparelho urinário, nervos ou ovários, e infertilidade atribuída à doença em quem deseja engravidar.

Em casos complexos, ele defende a via minimamente invasiva como um caminho que permite visualizar melhor cavidade, vascularização e inervação, além de favorecer recuperação mais rápida. “Pacientes com cirurgias enormes, depois de 15 dias trabalhando normalmente.” Diler também liga complexidade a um ponto que, para ele, deveria ser evitado: recirurgias sucessivas. “O que mais complica nessas pacientes de cirurgias enormes, são pacientes que a gente pega com 6, 7 cirurgias prévias”, diz. Nesse cenário, ele descreve risco maior de fístulas, lesões nervosas e aumento da morbidade, reforçando a importância de indicação cuidadosa, retirada completa das lesões quando possível e equipe entrosada.

E volta ao que considera um dado essencial para alinhar expectativa. “Mesmo que essa cirurgia seja muito bem realizada, a gente não tem como garantir a essa paciente que ela não vai ter uma recidiva”, afirma. Para ele, acompanhamento e rebloqueio hormonal após a cirurgia podem ser determinantes na redução de recorrência, especialmente em pacientes mais jovens e em situações em que estruturas são preservadas.

Menopausa, reposição hormonal e desinformação

Ao entrar em menopausa, o médico combate a ideia de que a fase encerraria a endometriose por si só. “Isso, na verdade, é um mito.” A queda hormonal tende a reduzir evolução, ele explica, mas não autoriza promessas de cura, já que ainda existe estrogênio circulante e, em muitas mulheres, existe indicação de terapia hormonal para sintomas e saúde global.

Ele relata que, por muitos anos, a reposição hormonal foi tratada como vilã por medo disseminado após a divulgação de um grande estudo do início dos anos 2000, que associou terapia hormonal a riscos e gerou insegurança em pacientes e profissionais. “Deu um temor muito grande nas pacientes.”

Evidências posteriores ajudaram a reposicionar a conversa, lembrando que, para a maioria das mulheres, a reposição bem indicada pode ser parte importante de uma longevidade mais saudável, especialmente quando combinada com sono, alimentação e atividade física.

Na consulta, ele diz considerar como perguntas centrais o histórico familiar de câncer de mama, eventos de trombose ou tromboembolia, sintomas e objetivos, além do tempo desde o início da menopausa. Ele também explica a chamada janela de oportunidade como um período em que benefícios tendem a ser mais amplos, sem transformar isso em proibição para quem chegou depois. “A mulher vai manter todos os benefícios da reposição hormonal, da sua qualidade de vida, mas tem que saber que não vai estar totalmente protegida quanto aquela que começou logo no início.”

Ao falar de desinformação, ele faz um contraste entre cuidado criterioso e atalhos vendidos como solução rápida. Ele critica a banalização de hormônios como “cura de tudo” e rejeita implantes hormonais sem base robusta. “Eu sou totalmente contrário a chips de testosterona, chips de gestrinona”, destaca. Sobre a testosterona, ele descreve um limite claro: uso em baixas doses para desejo sexual hipoativo, sem buscar masculinização. E chama atenção para outra confusão comum, que chega ao consultório com frequência: tratar DIU hormonal como tratamento isolado para endometriose profunda. “Ele pode ser usado de uma forma adjuvante, mas não pode ser encarado como um tratamento único.”

Planos para o futuro

Ao falar do que vem pela frente, ele descreve um esforço contínuo de difundir técnicas minimamente invasivas e ampliar a compreensão do cuidado integral, unindo cirurgia, acompanhamento clínico e suporte multidisciplinar. O objetivo é criar rotas mais organizadas para pacientes que chegam com dor, cansaço e histórico de descrédito, de forma que entendam o caminho e saibam o que esperar em cada etapa.

Ele também descreve um trabalho em equipe que considera decisivo nos casos complexos, sobretudo para reduzir improvisos e manter padrão técnico em procedimentos longos. A imagem que usa é a de uma orquestra, na qual o entrosamento não é detalhe. “É como se fosse uma filarmônica.” E explica que, embora o plano clínico respeite escolhas da paciente, como personal trainer ou nutricionista de confiança, ele valoriza a troca de informações com profissionais que acompanham o caso para manter consistência no cuidado.

Ao citar compromisso com formação e aprimoramento, ele integra esse ponto à prática do dia a dia e à responsabilidade de manter critérios em um cenário de excesso de informação e atalhos fáceis. Ele é membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Minimamente Invasiva e Robótica e do Colégio Brasileiro de Cirurgiões.

Há uma linha que atravessa todos os temas, do diagnóstico ao pós-operatório, do medo à tomada de decisão. Para ele, o vínculo clínico precisa ser previsível, honesto e sustentado por presença, não por promessa. “É fundamental a paciente saber sempre dos seus riscos, do caminho a percorrer e, principalmente, que um bom profissional estará ao lado dela percorrendo esse caminho.”

CRM: 5268024-9/RJ

Instagram: @dr_diler
Site: http://www.drdiler.com.br

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