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Medicina fetal orienta decisões na gestação, afirma Leonardo Ferraz Salgado

Entre exames, riscos e comunicação cuidadosa, o médico detalha o papel do ultrassom e da escuta no acompanhamento da gravidez

FOTO: The Pic Company

Antes de qualquer imagem ganhar forma na tela, o exame já carrega uma expectativa silenciosa. A gestante chega com perguntas, muitas vezes com ansiedade, e o ultrassom passa a ser o primeiro contato concreto com algo que, até então, existia apenas como ideia. Para Leonardo Ferraz Salgado, médico especializado em medicina fetal, esse momento exige mais do que domínio técnico. Exige clareza, responsabilidade e a capacidade de traduzir o que aparece no exame sem transformar risco em medo.

Leonardo nasceu e cresceu em São Paulo, filho de pais de outros estados do país. A medicina não foi um plano imediato. Durante a juventude, o interesse estava voltado à atividade física e ao esporte, até que, no fim da adolescência, decidiu migrar para a área da saúde, pensando em afinidade pessoal e trajetória profissional.

Formou-se em medicina, fez residência em ginecologia e obstetrícia e, em seguida, residência em medicina fetal, com toda a formação realizada na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Após alguns anos atuando em São Paulo, viveu uma experiência fora do país que marcou sua visão profissional. Entre 2015 e 2019, trabalhou na Austrália, em hospitais com forte vínculo acadêmico, como o Royal Prince Alfred Hospital e o Nepean Hospital, onde atuou tanto na assistência obstétrica quanto na medicina fetal.

O retorno ao Brasil aconteceu em 2019. Na volta, optou por se estabelecer fora da capital paulista e passou a atuar em consultório particular em São José dos Campos (SP), concentrando sua prática na medicina fetal.

O primeiro exame e a base de toda a gestação

Na rotina de Leonardo, a medicina fetal começa antes mesmo da avaliação detalhada do feto. O exame obstétrico inicial, realizado preferencialmente entre sete e nove semanas de gestação, tem objetivos bem definidos. “A primeira coisa é confirmar que a gravidez está dentro do útero. Depois, identificar se é uma gestação única ou múltipla e confirmar idade gestacional e viabilidade. Essas informações influenciam cada etapa seguinte do pré-natal”, explica.

Esse momento é decisivo para evitar diagnósticos precipitados e ansiedade desnecessária. Segundo ele, exames feitos muito precocemente podem não mostrar todas as estruturas esperadas, enquanto exames tardios podem atrasar decisões importantes. “Com menos de seis semanas, muitas vezes a gente não consegue ver tudo o que precisa. Por outro lado, esperar demais pode fazer a gente perder o momento certo de identificar um problema”, afirma.

Rastreamento precoce e risco genético

No morfológico do primeiro trimestre, realizado entre 11 e 14 semanas, o foco se amplia. Além de ajustar com precisão a idade gestacional, o exame permite uma avaliação inicial da anatomia e a realização de rastreamentos importantes. Leonardo reforça que esse momento não é diagnóstico definitivo, mas um cálculo de risco. “A medicina fetal trabalha com probabilidade. Mesmo com um exame tecnicamente perfeito, a gente não fala em certeza”, explica.

Nesse exame, são avaliados marcadores ultrassonográficos, como a translucência nucal, além de outros parâmetros que ajudam a estimar o risco de alterações genéticas. “A translucência é importante, mas ela não pode ser analisada sozinha. O exame precisa ser interpretado como um conjunto de informações”, diz.

Esses dados podem ser associados a exames laboratoriais do primeiro trimestre e às características clínicas da gestante, permitindo estratificar riscos e orientar, quando necessário, investigações complementares. “O rastreamento não define o futuro da gestação, ele orienta decisões”, resume.

Com o avanço da gestação, a avaliação do feto se torna mais detalhada. No morfológico do segundo trimestre, o exame se concentra na análise das estruturas fetais, como coração, sistema nervoso, rins e membros. “É o momento em que mais alterações podem ser identificadas”, explica Leonardo, ressaltando que algumas condições só se manifestam mais tarde e exigem acompanhamento contínuo.

Doppler e o que não aparece na imagem do bebê

Nem tudo o que importa na gestação está diretamente ligado à imagem do feto. Parte relevante da medicina fetal envolve a avaliação de estruturas maternas que influenciam o desenvolvimento da gravidez. O Doppler permite analisar o fluxo de sangue nas artérias uterinas e faz parte do rastreamento de condições que podem levar a complicações mais adiante. “Não faz sentido fazer um morfológico de primeiro trimestre sem incluir essa avaliação”, afirma.

Esses dados ajudam a entender como a placenta está se formando e como a circulação materna pode impactar o crescimento fetal ao longo dos meses.

FOTO: The Pic Company

Pré-eclâmpsia e os riscos silenciosos da gestação

Entre as condições acompanhadas de perto pela medicina fetal está a pré-eclâmpsia, um distúrbio da gestação associado a alterações da pressão arterial e ao funcionamento inadequado da placenta. Trata-se de uma condição que pode se desenvolver de forma silenciosa e trazer riscos importantes tanto para a mãe quanto para o bebê.

“Às vezes a paciente se sente bem, não tem sintomas claros, e a doença já está se instalando”, explica Leonardo. Quando não identificada e acompanhada adequadamente, a pré-eclâmpsia pode evoluir com comprometimento de órgãos maternos, necessidade de interrupção precoce da gestação, restrição de crescimento fetal e parto prematuro.

O rastreamento dessa condição começa ainda no primeiro trimestre e combina dados clínicos da gestante, medidas da pressão arterial e informações obtidas no ultrassom, especialmente pelo Doppler das artérias uterinas. “O Doppler ajuda a entender como a circulação materna está se adaptando à gestação. Alterações nesse fluxo podem indicar maior risco de complicações mais à frente”, afirma.

Identificar esse risco precocemente permite adotar medidas profiláticas e organizar um acompanhamento mais atento ao longo da gravidez. O objetivo não é gerar alarme, mas antecipar cuidados e reduzir a chance de desfechos graves.

Colo uterino e o desafio da prematuridade

Outro eixo técnico central da prática de Leonardo é a avaliação do colo uterino. A prematuridade é um dos maiores desafios da obstetrícia e, segundo ele, muitas vezes surge sem sinais prévios evidentes. “A maioria dos partos prematuros acontece em mulheres sem fatores de risco claros”, explica.

Por isso, a medida do colo uterino se tornou uma ferramenta fundamental. “Hoje, a medida do colo é o melhor marcador independente que a gente tem para estimar o risco de parto prematuro”, afirma. Essa avaliação ajuda a identificar situações que exigem acompanhamento mais próximo e ajustes na condução do pré-natal.

Transmitir informações é uma das partes mais sensíveis do trabalho. “Quando você fala que algo está fora do esperado, você quebra um pouco do encanto daquele momento”, diz. Para ele, o cuidado passa por explicar, dimensionar riscos reais e abrir espaço para dúvidas. Muitas vezes, mais de uma conversa é necessária para que a família compreenda plenamente a situação.

O papel do médico fetal e o trabalho em conjunto

Leonardo faz questão de esclarecer que o médico fetal não substitui o obstetra e não assume o pré-natal. “Eu não faço o pré-natal. O meu papel é fornecer informações para que o obstetra conduza a gestação com mais segurança”, explica.

O acompanhamento em medicina fetal é especialmente importante porque muitas alterações relevantes não produzem sintomas evidentes no início. Quando a avaliação é tardia, pode-se perder o momento ideal de intervenção. “Grande parte dos problemas que impactam a gestação não dá sinais claros no começo. Quando a gente perde o timing, as opções ficam mais limitadas”, afirma.

Por isso, ele descreve a medicina fetal como uma camada adicional de segurança no pré-natal. “Ela não concorre com o obstetra. Ela agrega informação e caminha junto”, resume.

Tecnologia e intervenções intrauterinas

Além do rastreamento e do acompanhamento, a medicina fetal avançou na possibilidade de intervenções ainda durante a gestação. Em situações específicas, é possível tratar algumas condições antes mesmo do nascimento do bebê, por meio de técnicas minimamente invasivas.

“Hoje existem casos em que a gente consegue intervir dentro do útero, atuando na placenta ou até mesmo no feto”, explica Leonardo. Entre os exemplos estão complicações de gestações gemelares que compartilham a mesma placenta, nas quais a intervenção oportuna pode reduzir riscos importantes para os bebês.

Essas abordagens exigem diagnóstico preciso e momento adequado. Quando a alteração é identificada no tempo certo, o tratamento intrauterino pode mudar significativamente o desfecho da gestação, reforçando a importância da integração entre medicina fetal, obstetrícia e centros especializados.

Visão de futuro e impacto ampliado

Ao olhar para frente, Leonardo demonstra interesse em ampliar o impacto da medicina fetal para além do atendimento individual. Ele vê valor na criação de protocolos e na educação em saúde para médicos e pacientes. “Quando você melhora o rastreamento e a assistência em nível populacional, você consegue impactar muitas famílias”, afirma.

“A gestação precisa continuar sendo um momento possível de ser vivido com leveza. Mesmo quando aparece alguma alteração, a paciente precisa saber que está fazendo tudo o que pode, com as informações e os recursos disponíveis naquele momento.”

CRM/SP: 128933 – RQE: 82691

Instagram: @dr.leonardosalgado

Site: https://www.doctoralia.com.br/leonardo-ferraz-salgado

FOTO: The Pic Company

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