Marília Maroneze Brun une ciência e sensibilidade na cardiologia fetal e pediátrica
De Londrina a São José do Rio Preto, a médica construiu uma carreira dedicada ao cuidado do coração de bebês

A cada batimento, uma história. É assim que a médica cardiologista pediátrica e fetal Marília Maroneze Brun descreve o sentido de seu trabalho. Nascida no norte do Paraná e hoje atuando em São José do Rio Preto (SP), ela dedica a carreira a compreender o coração humano desde o primeiro compasso, ainda dentro do útero. Em suas palavras, cuidar do coração é também cuidar da história, do ambiente e das emoções que o cercam.
Formada em Medicina pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Marília se apaixonou pela profissão aos 13 anos, durante uma visita escolar ao centro de anatomia da instituição. A curiosidade científica e o encantamento pela vida se transformaram, anos depois, em vocação. “Desde então, eu nunca mudei de ideia. Sempre foi medicina.”
Durante a graduação, acreditava que seguiria a clínica voltada a adultos. Mas, no penúltimo ano, o contato com crianças hospitalizadas mudou tudo. “Me apaixonei pela pediatria. Foi quando percebi que era isso que fazia sentido pra mim.” Após concluir a residência em Pediatria na UEL, decidiu seguir para São José do Rio Preto, onde se especializou em cardiologia pediátrica no Hospital da Criança e Maternidade, do Complexo Funfarme.
A escolha pela cardiologia veio acompanhada de novos desafios. “Foi aqui que eu me apaixonei pela cardiologia pediátrica.” A mudança também marcou uma virada pessoal. “Foi quando eu mudei radicalmente minha vida. Me divorciei, mudei de cidade e estado. Foi um período de intenso autoconhecimento”, conta.
Hoje, Marília é cardiologista pediátrica e fetal, atende em consultório próprio, é professora universitária na Faceres (Faculdade Ceres) e chefe da Cardiologia Pediátrica da Santa Casa de São José do Rio Preto. Atua também no Ambulatório Médico de Especialidades (AME) de Votuporanga (SP), onde realiza consultas e ecocardiogramas fetais, e integra a equipe de uma empresa de educação médica de São Paulo.
A cardiologia fetal e o poder do diagnóstico precoce
O coração é o primeiro órgão a se formar e o último a parar. Ele começa a bater ainda nas primeiras semanas de gestação, mas é entre 24 e 28 semanas que o exame de ecocardiograma fetal pode ser realizado com precisão. É nesse período que a cardiologia fetal atua, avaliando em detalhes a formação e o funcionamento do coração do bebê ainda dentro do útero.
“O ecocardiograma fetal é o estudo morfológico do coração do bebê. Do mesmo jeito que existe o ultrassom morfológico geral, nós fazemos o morfológico do coração”, explica. O exame permite identificar malformações cardíacas e arritmias antes do nascimento, o que contribui para o planejamento do parto e o cuidado com o recém-nascido.
Uma em cada cem crianças nasce com algum problema cardíaco, e cerca de 90% desses casos aparecem em gestações sem histórico de risco. “É muita gente. Por isso o ecocardiograma fetal passou a ser obrigatório por lei em 2023. Ele auxilia no diagnóstico, dá tranquilidade, segurança e melhor cuidado para o recém nascido”, afirma a médica.
O período ideal para a realização é entre 24 e 28 semanas de gestação, quando o coração já está bem formado e as imagens são mais nítidas. Mas o exame pode ser feito até o fim da gravidez. “Mesmo que a gestante tenha passado da data, vale fazer. Se não realizou, faça o quanto antes. O exame é importante, mesmo que seja realizado mais tardiamente.”
Na prática, o exame permite detectar anomalias estruturais, acompanhar o ritmo cardíaco do feto e observar o fluxo sanguíneo. Quando uma alteração é descoberta, é possível planejar a equipe, o local do parto e os cuidados neonatais com antecedência. “Saber antes do parto que existe uma cardiopatia muda tudo. Podemos escolher o hospital certo, reunir a equipe adequada e garantir um cuidado imediato ao nascer”, diz.
A cardiologia fetal também avança com tecnologias capazes de oferecer novas perspectivas, como o ultrassom tridimensional e os procedimentos intraútero. “Hoje já conseguimos intervir em algumas cardiopatias ainda dentro do útero, reduzindo a gravidade da doença e melhorando o prognóstico do bebê.”
A cardiologia pediátrica e o cuidado contínuo
O acompanhamento cardíaco não termina com o nascimento. Mesmo que o ecocardiograma fetal tenha resultado normal, o bebê deve ser reavaliado após nascer. “O exame intraútero tem limitações, porque a circulação do bebê dentro da barriga é diferente da que ele tem fora. Por isso, o eco pós-natal é essencial.”
A médica recomenda consultas em três fases principais: no primeiro ano de vida, entre três e quatro anos, quando a criança começa a ter mais demanda física, e no início da adolescência, fase em que mudanças hormonais podem desencadear arritmias antes silenciosas. “Mesmo sem sintomas, vale consultar. A prevenção é sempre o melhor caminho”, reforça Marília.
Alguns sinais merecem atenção imediata: cansaço fácil, falta de ar, suor excessivo, dificuldade para ganhar peso, coloração arroxeada nos lábios, desmaios ou dor no peito. “Muitas vezes o coração dá sinais sutis. Um simples desmaio durante o esporte, por exemplo, é um alerta importante”, afirma.
Ela lembra ainda que crianças em uso de medicamentos de controle neurológico ou emocional devem passar por avaliação cardiológica ao menos uma vez por ano. “Esses medicamentos podem impactar o coração e precisam de acompanhamento. O mesmo vale para pacientes obesos, porque o coração do obeso é diferente. Existe uma cardiopatia específica da obesidade, mesmo sem pressão alta ou diabetes.”
Além disso, o check-up cardíaco antes de atividades esportivas é indispensável. Alterações elétricas silenciosas podem se manifestar em momentos de esforço intenso. “Não é sobre limitar o movimento, é sobre fazer com segurança. Cuidar do coração antes do esporte pode mudar destinos”, explica.

O método de atendimento e o olhar integral
O consultório localizado na Vila São João, em São José do Rio Preto, foi pensado para acolher. Não há mesa entre médica e paciente, e a sala é equipada para consultas e exames no mesmo ambiente. “Quis criar um espaço sem barreiras. É lúdico, com brinquedos e objetos acessíveis para a criança não sentir a pressão médica.”
Durante a consulta, Marília investiga não só o coração, mas o contexto completo do paciente: gestação, ambiente familiar, sono, alimentação, rotina e até aspectos emocionais. “Muitas vezes a queixa é um sopro, mas o que afeta a qualidade de vida é ansiedade, insônia ou até sintomas depressivos. Meu papel é entender a criança como um todo e direcionar os cuidados. Não é sobre tratar a doença, mas cuidar da pessoa e do ambiente em que ela está inserida”, diz.
O resultado é um atendimento longo, detalhado e profundamente humano. “Já tive pacientes que saíram do consultório direto para uma internação. O cuidado começa ali e continua depois. É ciência com presença.”
O lado humano da medicina
Lidar com diagnósticos delicados e acompanhar famílias em momentos de incerteza exige preparo emocional. Marília aprendeu a equilibrar razão e sensibilidade sem perder o envolvimento. “A empatia é se colocar no lugar do outro, e isso pode paralisar. Eu prefiro falar em compaixão, porque ela me permite agir. Eu me compadeço do meu paciente para agir por ele, em benefício dele.”
Desmistificando mitos e fortalecendo a prevenção
Um dos equívocos que a médica mais ouve é o de que “cardiopata não tem vida normal”. Segundo ela, com acompanhamento adequado, a maioria das crianças pode ter uma infância ativa e saudável. “Cardiopata não tem cara. Pode correr, brincar e até ser atleta. O que define é o cuidado, não a limitação.”
A observação familiar também é essencial. “Os pais precisam olhar para a criança no convívio com as outras. Se ela se cansa mais, se para toda hora, se evita brincadeiras, vale investigar”, reforça.
Ela destaca ainda o impacto da vida moderna na saúde cardiovascular infantil. “Reduzir o tempo de tela é fundamental. A criança precisa se mover, brincar, gastar energia. Isso melhora a saúde do coração, o sono, a alimentação e até o equilíbrio emocional da família.”
Prevenção, para Marília, é uma forma de amor. “A alimentação equilibrada, as refeições em família, o ambiente afetivo estável, tudo isso protege o coração. O coração reage ao que a gente vive”, diz.
Planos e visão de futuro
Com atuação sólida na medicina, na docência e na saúde pública, Marília segue expandindo horizontes. “Quero ampliar o cuidado e atender mais pessoas, formando uma equipe multidisciplinar de cardiologistas, psicólogos e nutricionistas, pensando na criança de forma integral.”
Além do consultório e da chefia hospitalar, ela encontra na docência uma de suas maiores fontes de realização. “Descobri que gosto muito de ser professora. A medicina e o ensino sempre andaram juntos pra mim. Dar aula me faz rever conceitos e manter viva a curiosidade que me trouxe até aqui.”
Ela também acompanha de perto a integração entre medicina e tecnologia. “A inteligência artificial é uma ferramenta excelente, mas precisa do olhar do especialista. Não vejo o médico saindo de cena, e sim estudando mais para usar a tecnologia com consciência”, afirma.
Entre aulas, atendimentos e projetos, a médica reafirma o princípio que orienta toda sua trajetória: o cuidado começa antes mesmo do nascimento. “A prevenção é mais importante que o tratamento. Quanto mais pudermos nos preparar e prevenir, melhor do que correr atrás do prejuízo depois.”
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