Marcos Suehara faz da escuta uma parte essencial do cuidado com o joelho
Ortopedista especialista em joelho explica por que tratar a dor também exige escuta, autonomia, contexto e decisões mais conscientes

Em uma especialidade acostumada a medir desgaste, corrigir desvios e planejar cirurgias, Marcos Suehara foi ampliando o próprio olhar. Com o tempo, o ortopedista passou a entender que tratar o joelho não significa cuidar apenas de uma articulação, mas compreender o que a perda de mobilidade provoca na vida de alguém, seja na autonomia, na confiança no corpo ou na forma como cada paciente passa a imaginar o próprio futuro.
Da medicina ao joelho, uma escolha guiada por movimento e propósito
A medicina entrou cedo em sua vida. Ainda criança, Marcos viu familiares médicos atenderem pessoas próximas em momentos delicados, e aquela presença deixou marca. Havia ali um senso de responsabilidade que o acompanhou e que, mais tarde, encontrou eco em uma formação guiada por disciplina, constância e valorização do estudo.
A ortopedia veio depois, impulsionada também por uma relação antiga com o esporte. Tênis, surfe e a vivência intensa em atividades esportivas durante a faculdade o aproximaram de uma especialidade em que movimento, independência e qualidade de vida ocupam o palco principal.
Formado em Medicina pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (FAMERP), seguiu para a residência em Ortopedia e Traumatologia e, posteriormente, para a especialização em Cirurgia do Joelho e Artroscopia pela Santa Casa de São Paulo, área em que concentrou sua prática. Hoje, atua com foco no joelho, acompanhando pacientes em diferentes fases da perda de mobilidade, da reabilitação ao momento em que a cirurgia passa a ser considerada.
“A ortopedia me permitiu unir duas frentes que sempre fizeram sentido para mim: a ligação com o esporte e o interesse por cuidar de pessoas que estavam perdendo mobilidade e qualidade de vida.”
Tratar o joelho passou a significar escutar a vida do paciente
Com o tempo, a formação técnica deixou de ser suficiente para explicar tudo o que via no consultório. Marcos percebeu que muitos pacientes não chegavam apenas com uma queixa ortopédica, mas também com medo, frustração, sedentarismo, insegurança e expectativas difíceis de organizar. A partir daí, sua prática começou a mudar.
“Muitas vezes, o joelho é apenas a parte visível do problema. A dor pode estar ligada ao desgaste articular, mas também ao sono ruim, ao sedentarismo, à perda de força, ao contexto emocional e à forma como essa pessoa vem vivendo. Se observo apenas a articulação, posso deixar escapar uma parte importante da história.”
Essa percepção o levou a valorizar ainda mais o tempo de consulta e a construção de vínculos. Para ele, não basta acertar o diagnóstico do ponto de vista técnico, é preciso entender que vida o paciente deseja retomar, o peso do medo diante de uma cirurgia e o quanto ele consegue sustentar ao longo do processo de reabilitação.
“Quem está do outro lado da mesa não traz apenas um exame. Traz receios, limites, objetivos e uma experiência própria com a dor. Quando o paciente compreende o que está acontecendo e participa ativamente do tratamento, a resposta tende a ser mais consistente.”
Nesse amadurecimento, também mudou sua percepção sobre o papel do médico. Mais do que definir uma conduta, ele passou a enxergar a consulta como um espaço de organização, clareza e orientação.

Dor no joelho, artrose e mobilidade: o cuidado que vai além do exame
Hoje, sua atuação se concentra no joelho, com atenção a quadros degenerativos, lesões ligamentares, lesões meniscais, instabilidade patelar e cirurgias de substituição articular. Ainda assim, a forma como conduz esse cuidado passa menos pela pressa do laudo e mais pela tentativa de compreender o impacto real da dor na vida de cada paciente.
No caso da artrose, por exemplo, o médico evita tratá-la como uma sentença simples da idade. Prefere explicá-la como um processo de envelhecimento articular, que pode se manifestar de maneiras muito diferentes.
“Nem sempre o grau de desgaste que aparece no exame corresponde ao tamanho da limitação. Há pacientes com imagens avançadas que ainda mantêm a função, enquanto outros, com alterações menores, sofrem bastante. O exame é importante, mas precisa ser interpretado dentro do contexto clínico.”
É justamente nesse ponto que se apoia uma de suas principais convicções: mobilidade não pode ser tratada como detalhe. Para ele, joelho, quadril e coluna sustentam mais do que o corpo em pé, sustentam deslocamento, autonomia e segurança para o paciente..
“Preservar a mobilidade é preservar a independência. Quando a pessoa começa a ter dificuldade para caminhar, atravessar uma rua, subir uma escada ou simplesmente se deslocar com segurança, a perda deixa de ser apenas ortopédica e passa a afetar a vida como um todo.”
Essa visão se amplia ao abordar o envelhecimento. Viver mais, por si só, não significa viver melhor. Sem mobilidade, a longevidade pode vir acompanhada de restrição e insegurança.
“A grande questão não é apenas aumentar o tempo de vida, mas entender como essa pessoa vai envelhecer. Se envelhece com dificuldade de deslocamento e cada vez mais insegura, a qualidade de vida se reduz de forma drástica.”
Por isso, o tratamento quase sempre começa com uma abordagem conservadora, baseada em reabilitação, fortalecimento muscular, controle do peso e ajustes na prática de atividade física.
“A atividade física orientada é parte essencial do tratamento. O que precisa ser ajustado é a carga, o momento e a forma de execução. Reduzir o impacto, em alguns casos, não significa interromper o movimento, mas conduzi-lo com mais critério. ”
Quando a perda funcional avança e a rotina já está comprometida, a cirurgia pode entrar como possibilidade. Ainda assim, ele evita decisões automáticas e reforça que a indicação precisa considerar mais do que a imagem.
“A decisão cirúrgica não nasce apenas do exame. Ela depende da limitação, da qualidade de vida, das expectativas e da condição global do paciente. Em alguns casos, operar no momento certo significa evitar um sofrimento prolongado e devolver autonomia em uma fase mais favorável de recuperação. ”
Cirurgia, medo e decisões difíceis
Entre as dúvidas mais frequentes, ele destaca justamente o momento de operar, ou não. Muitos pacientes chegam convencidos de que a cirurgia é inevitável. Outros adiam a busca por ajuda até que a limitação já tenha alterado completamente a rotina. Nesse cenário, Marcos identifica erros silenciosos, como naturalizar a perda de mobilidade, subestimar a reabilitação e esperar soluções rápidas para processos que exigem tempo, clareza e participação ativa.
Por isso, a comunicação tornou-se parte central de sua prática. Em um contexto em que o paciente chega mais informado, mas também mais exposto a conteúdos desencontrados, explicar bem deixou de ser um detalhe.
“Hoje, orientar com clareza é parte do tratamento. Não se trata apenas de indicar uma conduta, mas de traduzir a medicina para que o paciente consiga tomar decisões conscientes e seguras, sem medo desnecessário e sem falsas expectativas.”
Tecnologia, personalização e o futuro do tratamento do joelho
Ao falar do futuro, ele destaca o avanço das abordagens personalizadas e das tecnologias aplicadas às cirurgias. Ainda assim, sua visão retorna sempre ao mesmo ponto: a medicina não se sustenta apenas na execução técnica.
“A dor no joelho nem sempre representa apenas um problema estrutural. Uma boa investigação clínica e um entendimento aprofundado da história do paciente melhoram não só o diagnóstico, mas também o tratamento. No fim, o que faz diferença é não olhar apenas para o joelho. ”
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