Cuidar da saúde feminina significa lidar com dúvidas que mudam conforme a idade, mas também com medos, expectativas e decisões que nem sempre aparecem nos exames. É nesse encontro entre conhecimento médico e compreensão da realidade de cada paciente que Márcia Teresinha Giacobe constrói sua trajetória como ginecologista e obstetra, acompanhando mulheres da adolescência à maternidade, ao climatério e à menopausa.
Natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, ela é a primeira médica da família. Cresceu como a mais velha de três irmãos, estudou em escola estadual e começou a trabalhar aos 16 anos. O pai, contador, permanece profissionalmente ativo aos 83.
A escolha da profissão, porém, não aconteceu de imediato. Márcia pensava inicialmente em cursar Administração de Empresas. Uma conversa com o pai e testes vocacionais voltados às ciências biológicas fizeram com que resgatasse uma curiosidade presente desde menina, quando brincava de médica e se interessava por consultórios e hospitais.
“Eu sempre quis entender o que acontecia naquele ambiente. Gostava de examinar as pessoas nas brincadeiras e tinha curiosidade sobre o corpo humano. Quando comecei a pensar no meu futuro, percebi que aquele interesse da infância continuava presente”, relembra.
Mais lidas
Da escola pública à formação médica
Sem condições de custear uma faculdade particular de Medicina, Márcia precisava conquistar uma vaga em uma universidade pública. Enquanto trabalhava, prestou vestibular algumas vezes e percebeu que seria necessário ampliar a preparação.
Economizou dinheiro para pagar um curso pré-vestibular e dedicou um ano aos estudos. Foi aprovada em Medicina na Universidade Federal de Pelotas.
Durante a graduação, contou com bolsa de alimentação, participou de monitorias e estágios remunerados e estudou com livros da biblioteca e cópias de materiais acadêmicos.
“Eu fui muito feliz na faculdade. Gostava de estudar e queria aprender o máximo possível. Não olho para aquela época pensando apenas nas dificuldades, porque foi ali que percebi que tinha encontrado o meu caminho”, conta.
No início do curso, a Psiquiatria despertou seu interesse. Depois, a passagem pela Cirurgia trouxe o desejo de trabalhar também com procedimentos. Foi na Ginecologia e Obstetrícia que encontrou a combinação entre essas duas dimensões.
Após a graduação, realizou residência médica em Ginecologia e Obstetrícia em Porto Alegre. Possui especialização em patologia do trato genital inferior e atua em consultório e ambiente hospitalar. Também é preceptora de residência médica na instituição em que realizou sua formação na especialidade.
“Na Ginecologia, muitas vezes a mulher não chega apenas com uma queixa física. Falamos sobre sexualidade, maternidade, relacionamentos, medo e envelhecimento. A escuta que me atraía na Psiquiatria permanece muito presente na minha prática”, explica.
Cuidado que acompanha diferentes fases
A rotina coloca Márcia diante de mulheres em momentos distintos da vida. Com adolescentes, surgem dúvidas sobre ciclo menstrual, métodos contraceptivos e infecções sexualmente transmissíveis. Na Obstetrícia, aparecem questões relacionadas à gestação, ao parto e ao puerpério. No climatério e na menopausa, outras mudanças entram em pauta.
Mesmo com o amplo acesso a conteúdos sobre saúde, ela observa que informação não significa necessariamente compreensão. Algumas adolescentes ainda têm dificuldade para conversar em casa sobre sexualidade, enquanto mulheres adultas chegam ao consultório com dúvidas construídas a partir das redes sociais.
“Hoje existe muito conteúdo disponível, mas isso não significa que ele tenha sido compreendido. É preciso ouvir as dúvidas, conhecer as crenças daquela mulher e explicar de uma maneira que faça sentido para a realidade dela”, afirma.
Márcia também defende uma educação mais consistente sobre saúde sexual, com temas como funcionamento do corpo, planejamento familiar, contracepção, prevenção de infecções sexualmente transmissíveis e vacinação contra o HPV abordados de forma adequada nas escolas.

O cuidado continua depois do parto
Na Obstetrícia, Márcia procura preparar a mulher não apenas para o nascimento, mas também para a vida depois dele. Entre mães de primeira viagem, considera importante conversar sobre a adaptação a uma rotina em que o bebê passa a depender integralmente da família.
“Preparamos muito a mulher para o parto, mas também precisamos prepará-la para chegar em casa com aquele bebê. Falar sobre cansaço, medo, adaptação e rede de apoio durante a gestação ajuda a tornar esse momento mais real”, observa.
No puerpério, destaca que a atenção não deve se concentrar apenas no recém-nascido. A mãe também atravessa mudanças hormonais, privação de sono e uma profunda reorganização da vida pessoal e afetiva.
A maternidade atravessa sua história de forma particular. Obstetra, Márcia não tem filhos. Não descreve essa trajetória como uma decisão tomada desde cedo nem como uma frustração. As circunstâncias pessoais seguiram outros caminhos.
“Não foi uma escolha feita no início da vida dizendo que eu nunca seria mãe. Simplesmente aconteceu dessa maneira e estou em paz com a minha história. Quando acompanho um nascimento, sinto que existem diferentes maneiras de exercer o cuidado e, de certa forma, também de maternar”, reflete.
Tecnologia sem substituir a presença
Depois de manter o perfil nas redes sociais fechado por anos, Márcia decidiu produzir conteúdo ao perceber que informações sobre saúde feminina nem sempre eram compreendidas corretamente.
A experiência reforçou uma percepção que já estava presente no consultório: a tecnologia amplia o acesso ao conhecimento, mas não substitui a análise individual. Essa ideia também orienta sua visão sobre a inteligência artificial.
“O maior receio não deveria ser a inteligência artificial tornar-se mais humana. Precisamos cuidar para que o profissional de saúde não se torne mais tecnológico do que humano. O contato visual, a atenção e a capacidade de ouvir continuam sendo fundamentais”, ressalta.
Como preceptora no serviço público, Márcia também convive com pacientes que apresentam diferentes níveis de acesso à informação. Para ela, adaptar a comunicação é fundamental para que cada mulher compreenda e participe das decisões sobre o próprio cuidado.
Uma carreira que segue em movimento
Depois de manter consultório também no litoral do Rio Grande do Sul durante anos, Márcia concentra atualmente sua rotina em Porto Alegre. Atua em ambiente hospitalar e na Clínica Lotus, além de seguir na preceptoria de médicos residentes.
Por enquanto, não planeja deixar a Obstetrícia. Também pretende permanecer no consultório e na formação de novos profissionais. Ao pensar sobre essa continuidade, lembra do pai, que permanece trabalhando aos 83 anos.
“As mulheres precisam respeitar o que sentem e buscar esclarecimento sempre que existe sofrimento físico ou emocional. Não é preciso se conformar com situações que retiram qualidade de vida. Conhecer o próprio corpo, procurar informação séria e pedir ajuda quando necessário também são formas de cuidado.”
CRM/RS 25268-RQE/RS 16116-TEGO 0432/2003
Instagram: @dramarciagiacobe

O conteúdo dessa publicação é de responsabilidade da TV Notícias Assessoria de Imprensa / Brasil News