Karen Lemos encontra no nascimento o sentido mais humano da medicina

Entre a neonatologia, a maternidade e o cuidado individualizado, médica constrói uma trajetória em que técnica e acolhimento caminham lado a lado.

Fotos: Erika Tavares

Antes de ser choro, colo e adaptação, o nascimento também é travessia. É nesse território delicado, em que a vida começa e a vulnerabilidade se impõe, que Karen Lemos constrói sua atuação. Pediatra e neonatologista, ela une a precisão exigida pelos primeiros minutos de vida à escuta que tantas famílias procuram quando tudo ainda é muito novo. Seu trabalho parte da técnica, mas ganha profundidade na forma como escolhe permanecer ao lado de mães, pais e bebês desde a gestação.

A origem, a formação e a escolha pelos bebês

Karen nasceu em Porto Alegre e carrega da origem gaúcha uma memória afetiva que se mistura a outra paixão antiga: o futebol. Na adolescência, o jornalismo esportivo chega a rondar seus interesses. Ela acompanha transmissões, comenta jogos e se vê próxima daquele universo. Ainda assim, a medicina fala mais alto. O desejo de ser médica aparece cedo, quase como uma vocação anunciada ainda na infância, e a pediatria logo se desenha como caminho.

Ingressar no curso, porém, exige insistência. Karen passou alguns anos tentando vestibular até conquistar uma vaga na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre. Depois, muda-se para São Paulo, onde faz residência em Pediatria no Hospital Menino Jesus e segue para a Neonatologia na Maternidade Vila Nova Cachoeirinha. É nesse percurso que se aproxima de cenários de maior complexidade, como a UTI neonatal, o berçário de risco e a sala de parto.

No fim da faculdade, ela cogita se afastar do universo infantil mais grave. Havia receio diante da intensidade emocional que envolve uma criança em estado delicado. Esse medo, no entanto, amadurece junto com a experiência e dá lugar a uma certeza.

“No início, eu até tentei fugir desse universo por imaginar que seria doloroso demais. Mas entendi que era justamente ali que eu me reconhecia como médica e onde meu cuidado fazia mais sentido”, relembra.

A afinidade com os bebês se consolida nos anos de terapia intensiva neonatal e nos plantões, quando a exigência técnica passa a conviver com uma percepção mais profunda sobre tudo o que cerca o começo da vida.

Quando a maternidade muda a medicina

Se a formação lhe oferece estrutura, a maternidade acrescenta uma camada que nenhuma residência ensina. Karen localiza na gravidez do primeiro filho um ponto de virada, não apenas na vida pessoal, mas na maneira de compreender o próprio trabalho. A chegada de Enrico faz com que ela olhe para o nascimento a partir de uma experiência concreta, íntima e transformadora.

Naquele momento, ela conta com uma neonatologista particular na sala de parto, mas sente falta da continuidade daquele cuidado nos dias seguintes. A percepção se transforma em projeto de vida e, depois, em prática médica. Passa a fortalecer um modelo de atendimento que começa ainda no pré-natal, acompanha o parto e segue com a família nos primeiros momentos do bebê.

“Foi a maternidade que me mostrou, com mais verdade, a necessidade de cuidar dos bebês desde a barriga. Eu já tinha a técnica. O que mudou foi a maneira de compreender a família por dentro”, reflete.

Com a chegada do segundo filho, Benício, essa percepção se amplia. A médica passa a observar com ainda mais nitidez o cotidiano das famílias, sobretudo das que já têm um filho em casa e precisam reorganizar a dinâmica com a chegada de um recém-nascido. O atendimento, então, ganha mais escuta para questões que não aparecem em protocolos, mas moldam profundamente a experiência materna e paterna.

Humanização, sala de parto e o cuidado que continua

Ao falar sobre humanização, Karen evita idealizações. Em sua visão, humanizar não significa esvaziar a medicina da técnica, mas impedir que o atendimento se torne automático. Para ela, o cuidado começa pelo reconhecimento da individualidade.

“Não vai ser sempre igual. Esse atendimento é combinado com a família durante o pré-natal. Você já sabe se essa mãe tem medo de amamentar, se não tem rede de apoio, se o pai é mais ansioso. Toda essa individualidade passa por conhecer a família e a história daquela família”, explica.

Essa percepção se fortalece sobretudo nos anos de UTI neonatal. Ali, Karen entende que o bebê internado nunca impacta apenas a si mesmo: sua fragilidade atravessa a família inteira. Por isso, cuidar daquele recém-nascido também significa acolher o entorno emocional que se forma ao redor da incubadora, sobretudo a mãe, a quem ela vê como parte decisiva da força daquele começo.

“O dado técnico a família acaba aprendendo. O que realmente falta, muitas vezes, é alguém capaz de traduzir aquele momento com humanidade e ficar ali de verdade”, afirma.

Na neonatologia, cada minuto pode redesenhar uma história. Karen sabe disso porque vive, há anos, o encontro entre a expectativa da família e a imprevisibilidade do nascimento. Ela se emociona ao lembrar situações em que o bebê nasce sem vitalidade, exigindo intervenção imediata.

“Dá a sensação de que o nosso coração vai parar também”, admite.

Nesses instantes, a tensão não vem apenas da urgência médica, mas da dimensão humana daquele segundo em que toda a sala parece prender a respiração junto da família. É justamente nesse limite que ela enxerga o sentido mais profundo da profissão: não apenas reverter quadros delicados, mas compreender o que está em jogo quando uma família entrega à equipe o instante mais decisivo daquele começo.

Seu trabalho, por isso, não se encerra na sala de parto. O acompanhamento segue nas visitas à maternidade, nas orientações sobre amamentação e nas dúvidas que surgem nas primeiras horas de vida. Muitas vezes, ela permanece longamente nesse encontro inicial, ajudando a ajustar os primeiros cuidados e acolhendo inseguranças que, para as famílias, podem parecer imensas.

Karen também chama atenção para a importância do neonatologista escolhido pela família ainda na gestação. Na avaliação da médica, esse profissional chega ao nascimento com outro repertório sobre aquele núcleo. Já conhece a história, os receios e as singularidades do caso e, por isso, consegue oferecer uma assistência menos generalizada e mais próxima.

Essa visão se conecta ao trabalho que desenvolve no consultório, onde atua em diálogo com equipe multidisciplinar. A proposta é ampliar o cuidado materno-infantil com apoio integrado, reunindo diferentes olhares para questões que podem atravessar o início da vida, como a amamentação, desenvolvimento e acompanhamento do recém-nascido.

A médica que ensina, comunica e projeta o futuro

A trajetória de Karen não se sustenta apenas na assistência. Ela também participa da formação de residentes e leva para esse espaço a mesma visão humanizada que defende no atendimento às famílias. Ao lembrar da própria residência, percebe o quanto a formação médica muitas vezes normaliza o esgotamento. Por isso, procura fazer diferente. Ensina ciência, claro, mas também tenta cuidar de quem está aprendendo a cuidar, sem ignorar a saúde mental de profissionais que vivem uma rotina intensa desde cedo.

“A técnica vem com o tempo, com prática e estudo. O olhar humano precisa ser cultivado, porque é ele que vai permanecer quando esse profissional estiver diante de outras famílias”, pontua.

A comunicação, que em outro momento poderia tê-la levado ao jornalismo esportivo, encontra hoje espaço nas redes sociais. Ela produz boa parte do próprio conteúdo e compartilha uma rotina que não tenta parecer mais polida do que é. Mostra o consultório, o hospital, o pijama cirúrgico e os filhos em cenas possíveis de uma vida em que trabalho e maternidade coexistem sem fórmulas prontas.

Ao falar do futuro, Karen não projeta ruptura, mas deslocamento. Ainda se vê profundamente envolvida com a assistência, mas já imagina, mais adiante, uma dedicação maior à formação de profissionais e a projetos ligados a um atendimento mais humanizado. Também menciona o desejo de desenvolver projetos focados em sustentabilidade e bem-estar para mães e bebês, e guarda, com afeto, um plano antigo: trabalhar com a saúde de mini atletas de comunidades mais vulneráveis, unindo infância, cuidado e futebol.

No fim, é essa combinação entre precisão e delicadeza que define Karen Lemos. Em uma área em que tudo acontece depressa e cada minuto pode mudar uma história, ela escolhe permanecer também onde nem sempre há protocolo: no medo dos pais, na fragilidade do começo, na escuta que acolhe antes mesmo da palavra.

E talvez seja justamente por isso que sua medicina encontre tanto sentido no instante do nascimento, porque, para ela, cuidar de um bebê nunca é apenas assistir a uma chegada, mas amparar tudo o que nasce junto com ela.

“A saúde de um adulto passa toda pela infância, e a infância começa na gestação. Por isso, esse cuidado precisa ser feito com presença, com orientação e com alguém que una experiência científica e prática”, finaliza.

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Site: https://karenlemos.com.br

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