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Helizabet Salomão aborda os desafios invisíveis da endometriose profunda

Cirurgiã ginecológica da Santa Casa de São Paulo destaca a importância da escuta, da tecnologia e do diagnóstico precoce no cuidado com a mulher

Fotos: Luciano Alves
Fotos: Luciano Alves

Dor incapacitante, cólicas que imobilizam e sintomas urinários ou intestinais que muitas vezes passam despercebidos. Para a cirurgiã ginecológica Helizabet Salomão Abdalla Ayroza Ribeiro, professora adjunta, livre-docente da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e Chefe do Setor de Endoscopia Ginecológica e Endometriose e atual Presidente da Sociedade Brasileira de Endometriose (SBE), esses sinais precisam ser ouvidos e investigados com atenção. Sua trajetória é marcada pela defesa de que a endometriose não pode ser invisível. “Não é normal viver limitada pela dor. Cólica incapacitante e dor na relação sexual precisam ser valorizadas como sinais de alerta”, afirma.

A trajetória na medicina nasceu de duas paixões: cuidar e ensinar. “O ensino faz parte da minha identidade tanto quanto a assistência médica”, relembra. Após especialização em laparoscopia e histeroscopia nos anos 2000, seguiu com mestrado em 2006 e doutorado em 2010. Há 13 anos, coordena o Núcleo Avançado de Endoscopia Ginecológica (NAVEG) na Santa Casa, espaço que alia prática, pesquisa e formação de novos profissionais.

O núcleo é também referência em capacitação em cirurgia minimamente invasiva. Ali são realizados cursos de sutura laparoscópica, simpósios de anatomia pélvica e treinamentos que reúnem médicos de diferentes regiões do país. “Treinamos médicos para além da técnica. O olhar humano precisa estar presente em todas as fases do atendimento”, reforça.

Endometriose além do útero

Helizabet concentra sua atuação em casos de endometriose, especialmente a profunda, que pode comprometer intestino, bexiga e nervos pélvicos. Muitas vezes, os sintomas extrapolam a esfera ginecológica e interferem em funções básicas do corpo. “A dor não é apenas ginecológica. Pode afetar o ato de urinar, evacuar e até a vida sexual, trazendo repercussões emocionais significativas”, explica.

Sua pesquisa aborda justamente o impacto psicológico e sexual da doença. “A mulher chega exausta, não apenas pela dor física, mas por carregar um sofrimento invisível. Reconhecer esse peso é parte essencial do tratamento”, destaca.

Fotos: Luciano Alves

 

Desafios do diagnóstico e do atendimento

Grande parte das pacientes passa anos peregrinando entre consultórios. Quando chegam ao atendimento especializado, já tentaram múltiplos tratamentos sem sucesso. “O maior desafio é acolher a mulher que conviveu tanto tempo desacreditada em suas queixas. O primeiro passo do tratamento é escutá-la”, comenta.

Essa realidade reforça a necessidade de conscientização. Para a médica, é urgente desconstruir a ideia de que dor menstrual incapacitante é algo natural. “Quanto mais cedo o diagnóstico, mais cedo conseguimos intervir e devolver qualidade de vida”, enfatiza.

Cirurgia minimamente invasiva e tecnologia

O tratamento cirúrgico é a principal opção para os casos de endometriose avançada, embora técnicas minimamente invasivas, como laparoscopia e cirurgia robótica, permitam a remoção precisa da doença e recuperação mais rápida.

A escolha, no entanto, depende da extensão do quadro e da realidade da paciente. “O robô oferece visão em 3D e movimentos extremamente precisos, mas tem custo adicional que nem sempre é viável. A decisão deve sempre colocar a paciente e a doença no centro”, ressalta.

Para Helizabet, a tecnologia é aliada, mas não substitui a sensibilidade humana. “Mesmo diante de tanta tecnologia, acredito que a fé, o gesto simples e a forma como cuidamos do outro também fazem parte da cura”, reflete.

Mais do que tratar doenças, a médica defende que a consulta ginecológica seja um espaço contínuo de cuidado. “A consulta não deve ser apenas um protocolo diante de uma queixa. É o momento de falar sobre sexualidade, ciclos, fertilidade, climatério e bem-estar íntimo. Cada fase da vida da mulher merece escuta e acompanhamento”, explica.

Além da prática clínica e acadêmica, Helizabet é diretora no Board de Diretores da Associação Americana de Laparoscopia (AAGL), representando a América Latina, e luta pela conscientização da informação de qualidade como ferramenta de melhora no diagnóstico de várias enfermidades. A médica acredita que a informação é ferramenta essencial para gerar empatia. Por isso, mantém presença ativa em podcasts, cursos e redes sociais, onde desmistifica temas como miomas, infertilidade e endometriose. “Quando a paciente compreende o que está acontecendo, ela participa do tratamento com mais confiança e segurança. A informação muda a forma como a mulher enxerga sua própria saúde”, reforça.

Caminhos de pesquisa e futuro

Se por um lado o diagnóstico avançou, o mesmo ainda não ocorre com os tratamentos medicamentosos. “Estamos em busca de alternativas que reduzam a progressão da doença e tragam menos efeitos colaterais. É um campo em movimento, com futuro promissor”, comenta.

Entre os planos de Helizabet, estão: continuar conciliando assistência, docência e pesquisa. O objetivo é seguir formando profissionais e ampliando o acesso das mulheres a tratamentos baseados em evidência.

Vejo uma medicina que alia tecnologia, conhecimento e humanidade. Quero continuar contribuindo para formar profissionais conscientes e cuidar de mulheres que não aceitam mais viver com dor”, conclui.

CRM 85949- SP – RQE 56380

Instagram: @drahelizabetsalomao

Site: https://salomaoayrozaribeiro.com.br 

Fotos: Luciano Alves

 

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