Entre uma criança que tenta entender por que precisará passar por um procedimento e um homem diante das incertezas de um câncer de próstata, há uma distância de décadas. Na rotina de Guilherme Coaracy, esses pacientes podem dividir a mesma sala de espera. O urologista fez dessa amplitude uma característica da carreira e encontrou na explicação, no ensino e na participação do paciente uma forma de conduzir situações que frequentemente chegam acompanhadas de medo.

Criado no Maranhão por dois professores universitários, Guilherme cresceu em uma casa em que a educação ocupava lugar central. O pai, farmacêutico bioquímico, e a mãe, química industrial, construíram suas trajetórias pelo ensino. Ele, porém, começou por outro caminho. Interessado por ciência e tecnologia, fez curso técnico de eletrônica e ingressou em Engenharia.

A mudança aconteceu durante uma consulta oftalmológica, quando a curiosidade pelos equipamentos deu lugar ao interesse pelo funcionamento do corpo humano.

“Percebi que entender o olho era mais interessante para mim do que compreender a máquina que o examinava. Foi quando pensei no corpo humano como o sistema mais complexo que eu poderia estudar. A medicina passou a fazer sentido a partir dali.”

Ele prestou novo vestibular, cursou Medicina na Universidade Federal do Maranhão e tornou-se o primeiro médico da família. Ainda na graduação, aproximou-se da Urologia ao acompanhar um professor que marcou sua formação e ajudou a definir os rumos da especialidade.

A influência dos professores segue no consultório

Depois da graduação, Guilherme mudou-se para Brasília, onde realizou residência em Cirurgia Geral e Urologia no Hospital de Base do Distrito Federal. Ainda residente, prestou concurso para atuar na rede pública. Mais tarde, passou a acompanhar a formação de novos especialistas como preceptor.

Hoje, o vínculo com o ensino também se estende à Sociedade Brasileira de Urologia, onde integra a Comissão de Seleção e Títulos de Especialistas.

“Eu percebi que também me tornei professor, só que dentro da medicina. Para mim, não basta dizer ao paciente o que deve ser feito; ele precisa compreender por que aquela conduta foi proposta e quais possibilidades existem.”

Essa postura ganha outra dimensão quando o paciente é uma criança. A urologia pediátrica ocupa parte importante de sua rotina, enquanto as doenças da próstata e a uro-oncologia formam o outro grande eixo de atuação.

Crianças também podem participar do próprio cuidado

Fimose, alterações dos testículos, hipospádia, infecções urinárias e malformações do trato urinário estão entre as condições presentes no atendimento pediátrico. Mais do que reproduzir com uma criança a consulta de um adulto, Guilherme procura adaptar a conversa à idade e à capacidade de compreensão.

“Com seis ou sete anos, muitas crianças já entendem bastante. Eu explico o que vai acontecer, deixo que façam perguntas e procuro não tratá-las como se não estivessem presentes. Esconder tudo para protegê-las pode tornar a experiência ainda mais assustadora.”

Antes de uma cirurgia, ele costuma sugerir que a criança leve um brinquedo, uma manta ou outro objeto familiar. O humor também entra na conversa para reduzir a tensão diante de um ambiente desconhecido.

A percepção sobre a ansiedade dos pais ganhou outro peso quando seus dois filhos precisaram passar por procedimentos cirúrgicos.

“Quando é o seu filho, a apreensão existe da mesma forma. Talvez o conhecimento médico até amplie algumas preocupações. Essa experiência me ajudou a compreender melhor o que os pais sentem enquanto entregam um filho aos cuidados de uma equipe.”

A tecnologia reencontra uma escolha da juventude

O interesse por eletrônica não desapareceu quando Guilherme deixou a Engenharia. Décadas depois, a tecnologia voltou à sua trajetória por meio da cirurgia robótica. Após formação na área, passou a utilizar o sistema em procedimentos urológicos de adultos e levou essa experiência também à cirurgia pediátrica.

Guilherme é apontado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Minimamente Invasiva e Robótica como pioneiro em cirurgia robótica em uropediatria no Distrito Federal. Em crianças, a técnica pode ser utilizada em casos selecionados de alterações dos rins e ureteres.

O sistema é controlado pelo cirurgião e permite trabalhar por pequenas incisões, com movimentos articulados e visualização ampliada do campo operatório. Para Guilherme, no entanto, a disponibilidade de tecnologia nunca deve determinar sozinha uma conduta.

“A habilidade de operar se desenvolve com formação e experiência. O julgamento sobre quando operar é mais complexo. É preciso saber quem realmente se beneficia de uma intervenção e quando acompanhar é a decisão mais responsável. Tecnologia não substitui indicação.”

A mesma lógica acompanha a uro-oncologia. Diante do câncer de próstata, ele considera características da doença, condições clínicas e prioridades individuais antes de definir os caminhos possíveis.

Da infância à maturidade

Uma amiga resumiu sua rotina como um atendimento “de mamando a caducando”, expressão que Guilherme adotou com bom humor. Por trás da brincadeira, estão preocupações bastante diferentes.

Os pais podem chegar receosos diante da possibilidade de uma cirurgia. Homens adultos podem carregar inseguranças relacionadas ao câncer, à continência urinária, à sexualidade ou simplesmente ao medo de adoecer.

Ao longo da carreira, ele também percebeu mudanças na relação masculina com o autocuidado. Tabus que antes dificultavam determinadas conversas perderam espaço, enquanto a busca por informação se tornou mais presente.

“O medo do desconhecido aparece de formas diferentes. Para uma criança, pode ser o hospital; para os pais, a cirurgia; para um homem, o diagnóstico de câncer. A informação não elimina todas essas preocupações, mas permite enfrentá-las com mais clareza.”

Um novo encontro entre medicina e tecnologia

O próximo interesse de Guilherme também passa pela tecnologia. Ele tem estudado inteligência artificial e suas possibilidades na produção de conteúdo educativo e na comunicação em saúde. A motivação está ligada à quantidade de informações médicas de qualidade desigual que circulam pela internet.

Como preceptor e integrante de uma comissão responsável pela avaliação de especialistas, ele vê a educação como uma responsabilidade que não termina no consultório.

A carreira que começou sob a influência de dois professores e quase seguiu pela Engenharia mantém elementos dos dois caminhos. Ciência, tecnologia e ensino acabaram reunidos na mesma prática profissional.

“Quero continuar usando o conhecimento para aproximar as pessoas do próprio cuidado. Quando uma criança, uma família ou um paciente adulto entende melhor a própria saúde, deixa de apenas receber uma orientação e passa a participar das decisões. Para mim, a medicina também tem esse papel.”

Guilherme Antonio Veloso Coaracy — CRM-DF 12124 | RQE 7657

Site: https://drguilhermecoaracy.com.br

Instagram: @dr.guilhermecoaracy

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