Conviver com uma condição neurológica pode significar mais do que lidar com sintomas. Uma dor recorrente pode modificar a rotina; uma tontura pode limitar a autonomia; e um diagnóstico pode trazer inseguranças que nem sempre aparecem nos exames. É a partir dessa dimensão que Maria Augusta Guimbala constrói sua atuação em Neurologia: compreender a doença sem perder de vista a pessoa que precisa conviver com ela.

A Medicina começou a ganhar forma como escolha ainda no ensino médio, embora as primeiras lembranças desse interesse estejam na infância.

“Eu era uma criança muito lúdica e imaginava várias profissões. Existem fotos minhas brincando com estetoscópio e cuidando dos bichinhos, mas a Medicina não foi uma decisão pronta desde o começo. No ensino médio, quando conheci melhor a área da saúde, percebi que era uma escolha que realmente fazia sentido para mim.”

O caminho até a Neurologia

Durante a graduação em Medicina pela Univille, Maria Augusta chegou a considerar a Geriatria. A mudança aconteceu no quinto ano, quando a experiência prática começou a mostrar que seu caminho poderia estar em outra especialidade.

Na mesma época, participava da Liga Acadêmica de Neurologia. Um estágio opcional no Hospital Municipal São José, em Joinville, acabou sendo decisivo para a escolha.

“Eu me identifiquei de uma maneira muito natural. Cumpria as atividades e queria permanecer mais tempo, terminava os plantões sem vontade de ir embora. Foi nesse período que percebi que a Neurologia despertava em mim uma curiosidade e um envolvimento que eu não havia encontrado da mesma forma em outra área.”

Mais tarde, ela retornaria ao mesmo hospital para realizar a residência em Neurologia. A formação prática trouxe não apenas experiência técnica, mas também uma percepção mais concreta sobre a responsabilidade envolvida no exercício da profissão.

“Quando o paciente passa a depender do seu conhecimento e deposita confiança nas suas decisões, a responsabilidade ganha outra dimensão. A residência me trouxe experiência, segurança e uma consciência maior sobre o impacto que uma conduta médica pode ter na vida de alguém.”

A decisão não precisa ser apenas do médico

Atualmente, Maria Augusta atua em Neurologia Geral, acompanhando pacientes com cefaleias, epilepsia, doenças cerebrovasculares e alterações cognitivas.

Apesar da variedade de diagnósticos, ela identifica uma necessidade recorrente entre os pacientes: recuperar partes da vida que os sintomas começaram a limitar.

Para a neurologista, conhecer as preferências, os receios e a rotina de cada pessoa pode influenciar inclusive a escolha de uma estratégia terapêutica. Duas pessoas com o mesmo diagnóstico, explica, podem precisar de caminhos diferentes.

“Humanizar o atendimento não é apenas receber bem. É permitir que o paciente participe das escolhas. Posso considerar uma opção adequada tecnicamente, mas, se existe um receio importante para aquela pessoa, preciso compreender isso e discutir outras possibilidades. A decisão funciona melhor quando é construída em conjunto.”

Essa postura também aparece diante de doenças que podem afetar memória, movimento ou independência. Para Maria Augusta, comunicar um prognóstico exige transparência, mas também cuidado para que o paciente compreenda o que pode ser acompanhado e tratado dentro das possibilidades de cada quadro.

Quando a dor de cabeça muda a rotina

Entre os campos que mais despertam seu interesse estão as cefaleias. A neurologista chama atenção para a banalização da dor de cabeça, principalmente entre pessoas que convivem com crises durante anos e acabam acreditando que precisam simplesmente se adaptar a elas.

A recorrência, mudanças no padrão habitual e a presença de sintomas neurológicos associados estão entre os aspectos que podem indicar a necessidade de investigação. Alterações visuais, formigamento, redução de força, sonolência incomum e vômitos estão entre os sinais citados pela médica.

No acompanhamento das crises, Maria Augusta utiliza o diário da dor, no qual o paciente registra os episódios e possíveis fatores associados, como sono, alimentação, estresse ou mudanças na rotina. A observação pode ajudar a identificar padrões individuais e fornecer informações para o acompanhamento médico.

Os tratamentos variam conforme o diagnóstico e a avaliação de cada paciente. Além de medicamentos preventivos em determinados casos, procedimentos como bloqueios anestésicos e aplicação de toxina botulínica podem ter indicação específica.

“Para quem não tem enxaqueca, pode parecer apenas uma dor de cabeça. Para quem convive com crises frequentes, ela pode mudar o sono, o trabalho, a alimentação e os momentos de lazer. Quando conseguimos controlar melhor os episódios, o paciente muitas vezes fala em recuperar a própria rotina.”

A experiência reforçou na neurologista uma resistência à ideia de que, diante de determinadas doenças, “não há o que fazer”. Nem sempre existe cura, mas acompanhamento, controle de sintomas e preservação da funcionalidade podem continuar fazendo parte do cuidado.

Tecnologia e uma especialidade em movimento

A velocidade dos avanços na Neurologia exige atualização constante. Entre as mudanças acompanhadas por Maria Augusta durante sua formação está a ampliação do uso da trombectomia mecânica em pacientes selecionados com AVC isquêmico agudo.

O procedimento busca remover um coágulo que bloqueia a circulação cerebral e depende de critérios clínicos e exames para definir sua indicação.

A médica também acompanha pesquisas relacionadas às doenças neurodegenerativas e às possibilidades futuras de tratamento, sem perder de vista a necessidade de individualizar cada conduta.

“A Neurologia muda em uma velocidade muito grande. Surgem novas possibilidades de diagnóstico e tratamento, e precisamos acompanhar essa evolução continuamente. Mas tecnologia e conhecimento precisam chegar ao paciente de forma responsável, considerando sempre o quadro que está diante de nós.”

Um próximo olhar para a tontura

Entre os planos profissionais, Maria Augusta pretende aprofundar os estudos relacionados à tontura. A escolha tem relação com uma demanda que percebe em Joinville e com o impacto que o sintoma pode produzir na autonomia.

Pessoas que convivem com tontura podem reduzir passeios, evitar caminhar sozinhas ou abandonar determinadas atividades por receio de cair. Para a médica, essa limitação dialoga com uma questão presente em toda a sua prática: compreender não apenas o sintoma, mas aquilo que ele retirou da vida do paciente.

A relação com quem atende também continua influenciando sua formação. Pessoas com o mesmo diagnóstico podem responder de maneiras diferentes, carregar medos distintos e estabelecer prioridades próprias.

“Eu sempre pergunto o que o paciente pensa sobre o tratamento. Às vezes ele até estranha e responde que sou eu quem deveria decidir. Mas não acredito que deva ser assim. Meu papel é oferecer conhecimento, explicar os caminhos e ajudar naquela escolha. No fim, precisamos construir essa decisão juntos.”

Maria Augusta Baptista Guimbala | CRM-SC 30144 | RQE 27088

Instagram:@gutaguimbala.neuro

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