Fernanda Fernandes fala de ginecologia humanizada e cirurgia robótica
Entre a precisão cirúrgica e o acolhimento humano, a médica traça uma carreira dedicada à prevenção, ao ensino e ao cuidado integral da mulher
Com formação sólida, curiosidade intelectual e um compromisso raro com o cuidado, Fernanda Fernandes constrói, dia após dia, uma medicina que conversa com a história de cada paciente. Filha e neta de imigrantes, cresceu entre disciplina e afeto, aprendeu a estudar em silêncio e a defender seus projetos com firmeza. Na vida adulta, encontrou na obstetrícia e na ginecologia o campo onde técnica e humanidade se atravessam: “Eu gosto de resultado bom, mas antes de qualquer procedimento existe uma pessoa. Eu preciso entender o que cabe na realidade dela e o que faz sentido do ponto de vista clínico.”
A mesma precisão que a levou às salas de cirurgia também a conduziu a uma postura pedagógica ao explicar temas complexos — da reposição hormonal à cirurgia minimamente invasiva — sem atalhos, sem promessas e com a ética como norte.
Origem, escolhas e vocação que amadurece
A infância em São Paulo, em uma família de raízes italianas e espanholas, Fernanda moldou a obstinação de quem, desde cedo, ouviu que estudar talvez não fosse seu caminho. Professores perceberam o talento, a mãe sustentou as oportunidades e a escola ofereceu bolsas. A estudante que adorava artesanato, matemática com compasso e corte e costura transformou a habilidade manual em vocação cirúrgica.
“Eu aprendi com as mulheres da minha família que o fazer manual é um gesto de paciência e precisão. Costurar, bordar, trabalhar com linha e tecido são formas de cuidar. Na medicina, é igual: cada ponto, cada sutura exige delicadeza e respeito pelo corpo do outro”, afirma.
Essa percepção atravessou sua formação. Na graduação em Medicina pela Faculdade de Medicina do ABC, Fernanda descobriu o fascínio pelas cirurgias. Durante a residência médica em Ginecologia e Obstetrícia na Maternidade Vila Nova Cachoeirinha, viveu um aprendizado intenso em pré-natal de alto risco e em partos conduzidos por profissionais experientes. “Aprendi muito com uma senhora que era parteira – hoje seria chamada de doula. Com ela entendi que técnica e intuição caminham juntas.”
Em seguida, concluiu pós-graduação em Oncoginecologia e Ginecologia Endócrina pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), ampliando sua compreensão sobre hormônios, fertilidade e prevenção oncológica. Mais tarde, tornou-se mestre em Saúde Coletiva e iniciou o doutorado na Universidade de Campinas (UNICAMP), com foco em disfunções sexuais em mulheres com obesidade mórbida — projeto que pausou temporariamente, mas pretende retomar para concluir em breve. “Eu nunca parei de estudar. Quando não sei algo, volto para os livros, reviso evidências, converso com colegas e só então tomo decisão”, diz.
Após anos de atuação em São Paulo, onde manteve consultório próprio e acompanhou várias gerações de pacientes, Fernanda decidiu buscar uma rotina mais equilibrada. A mudança para Vinhedo (SP) representou um recomeço e a oportunidade de reconstruir a carreira em outro ritmo, sem abrir mão da qualidade técnica.
Hoje, ela vive em Vinhedo e atua no serviço público municipal, além de manter consultório em Campinas (SP), cidade reconhecida como um dos polos de excelência médica e tecnológica do país. Ali, concentra atendimentos em ginecologia clínica, regenerativa e cirúrgica, em um espaço planejado para acolher e dialogar com a paciente. “Campinas me oferece estrutura e tranquilidade. É um lugar que respira ciência e, ao mesmo tempo, preserva o contato humano.”

Tecnologia com propósito: IA, cirurgia minimamente invasiva e ginecologia regenerativa
Entre o papel e o bisturi, Fernanda inclui um terceiro componente: ferramentas digitais. No consultório, utiliza recursos de inteligência artificial integrados ao prontuário para registrar, de forma segura, o conteúdo da consulta, mantendo a conversa fluida e o exame atento.
“A inteligência artificial não substitui o médico. Ela organiza a informação, otimiza tempo e me ajuda a checar literatura recente. A decisão continua sendo clínica e ética”, explica.
Na educação continuada, a médica emprega bases científicas e filtros temporais para localizar revisões e consensos, sem delegar o raciocínio. Esse mesmo rigor a acompanha nas cirurgias.
Fernanda se aprofunda em cirurgia robótica e laparoscópica, sobretudo em casos complexos de ginecologia, como endometriose profunda e procedimentos oncológicos selecionados. “O robô amplia o campo de visão, oferece precisão e ergonomia. Não é solução mágica nem indicada a todos, mas em cenários específicos aumenta a segurança do gesto cirúrgico”, diz.
O critério é parte do método: indicação cuidadosa, avaliação do custo-benefício e respeito ao contexto de cada paciente. Quando a videolaparoscopia convencional atende, é a via escolhida. Quando a robótica agrega, entra em discussão aberta. “Eu apresento caminhos, riscos e limites. A paciente participa da decisão. Não existe ‘melhor’ universal.”
Essa mesma prudência guia sua atuação em ginecologia regenerativa, área que utiliza tecnologias como laser e radiofrequência para tratar sintomas relacionados à atrofia vaginal, dor, ressecamento, incontinência leve e desconfortos íntimos comuns na menopausa.
“Há casos em que técnicas adjuvantes podem trazer conforto, sobretudo em sintomas leves a moderados. Mas a indicação deve ser criteriosa, baseada no que já se sabe, e sempre com consentimento informado. Nem tudo serve para todos”, ressalta Fernanda.
Para ela, o desafio é separar o que tem base científica sólida do que ainda pertence ao campo experimental. “A região íntima é delicada. Quando tratamos bem, devolvemos qualidade de vida. Quando banalizamos, podemos causar o oposto.”
Climatério, menopausa e sexualidade com linguagem clara
Ao explicar climatério e menopausa, Fernanda prefere o caminho didático. Climatério é o período de transição, enquanto menopausa é a ausência de menstruação por 12 meses, geralmente entre 45 e 55 anos. Os sintomas variam, indo de ondas de calor a fadiga e alterações de humor — e pedem avaliação individualizada.
“Nem toda mulher precisa de reposição hormonal. Quando indicada, ela é personalizada, com proteção endometrial adequada para quem tem útero e vias de administração que respeitem comorbidades”, explica.
Para a médica, o debate atual corrige exageros do passado e exige prudência. “A evidência recente é mais equilibrada. O objetivo é melhorar qualidade de vida e reduzir riscos, sem banalizar prescrição. Acompanhamento e reavaliação periódica fazem parte do cuidado.”
No campo da sexualidade, o raciocínio é sistêmico. Há mulheres jovens com dor, queda de desejo, dificuldade de lubrificação ou anorgasmia que não se explicam apenas por hormônios. “Sexualidade envolve história, corpo e contexto. Às vezes o caminho passa por psicoterapia especializada, psiquiatria, fisioterapia pélvica e ajustes clínicos. É trabalho interdisciplinar”, diz.
Em obesidade, endometriose e situações de violência, a investigação cuidadosa evita reducionismos e respeita tempos. “Eu não acerto sempre de primeira. O importante é manter o vínculo e reformular hipóteses com honestidade.”
Para além da prescrição, ela reforça o papel de rotinas saudáveis na perimenopausa — sono, alimentação, atividade física, manejo de estresse — como pilares que modulam sintomas e sustentam decisões terapêuticas. “Há ganhos consistentes quando o plano combina ciência, hábitos e expectativas reais”, afirma.
Consultório, SUS e o sentido de futuro
O dia a dia em Campinas reflete uma filosofia simples: menos volume, mais profundidade. “A paciente não tem gasto, ela faz um investimento em saúde. Minha responsabilidade é devolver esse investimento em escuta, exame físico, explicação e plano”, reforça a médica.
Ao mesmo tempo, o trabalho no serviço público em Vinhedo a mantém conectada a fluxos, protocolos e realidades que exigem criatividade clínica. “No SUS (Sistema Único de Saúde), a conduta precisa caber no sistema. Vale tanto quanto uma cirurgia, por exemplo, orientar contracepção com clareza, guiar a coleta de rastreio adequada e saber quando encaminhar.”
O consultório, pensado para acolher, funciona como um espaço de conversa franca, onde nenhuma conduta é imposta sem compreensão compartilhada. “Quando eu digo ‘aqui não dá para escolher, a indicação é essa’, é porque esgotei a explicação e pesei riscos e benefícios. Fora isso, a decisão é conjunta”, diz.
Nos próximos anos, Fernanda mira duas frentes: aprofundar a prática minimamente invasiva em cenários selecionados e retomar a trilha acadêmica para lecionar. “Depois de certo tempo, você precisa transmitir. Ensino dá trabalho, exige rigor e verdade, mas é assim que a medicina permanece viva.”
Entre um capítulo e outro, ela carrega as marcas de quem também já foi paciente, enfrentou câncer de mama, convive com endometriose e entende que cuidado é verbo que começa em casa. “Nós, mulheres, precisamos nos amar e nos priorizar. Quando isso acontece, o resto se organiza melhor”, reforça.
A visão é generosa, mas não ingênua. Pede redes de apoio, homens implicados no cuidado e políticas que sustentem escolhas possíveis. E volta, por fim, ao ponto de partida: o encontro no consultório, a conversa que organiza o medo, o exame que dá nome às coisas, a conduta que respeita a pessoa.
Ao terminar a consulta, a médica costuma recapitular o plano em linguagem direta, entregar orientações escritas e combinar o próximo passo. Sem alarde, sem promessas, com consistência. A medicina que ela pratica não tem slogans, mas tem método, estudo e um pacto silencioso com cada paciente para atravessar fases da vida com lucidez e dignidade. “Ciência dá direção, escuta dá sentido. Juntas, elas viram cuidado.”
“Nós, mulheres, precisamos nos amar mais. Quando a gente se prioriza com informação e cuidado, ganha ferramentas para cuidar dos outros sem se perder de si”, destaca.
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