Érica França faz da saúde da mulher um espaço de escuta e acolhimento
Ginecologista aborda menopausa, sexualidade e dores silenciosas com escuta atenta ao corpo, ao bem-estar e à história de cada mulher

Algumas escolhas profissionais nascem de um plano muito claro. Outras se revelam aos poucos, quando experiência, intuição e vivência pessoal passam a apontar para o mesmo lugar. Com Érica França, a ginecologia foi tomando forma dessa maneira. O que parecia distante no início da graduação acabou se transformando em uma prática marcada pela escuta, pelo acolhimento e por um olhar atento às mudanças hormonais, à saúde íntima e às dores silenciosas que muitas mulheres carregam ao longo da vida.
Origens e formação
Nascida em Brasília, Érica França foi a primeira pessoa da família a seguir a medicina e também a primeira a ingressar na área da saúde. Durante boa parte da adolescência, manteve esse desejo em silêncio. Em casa, a expectativa era outra, mais próxima do universo do pai, advogado, e de uma trajetória ligada ao Direito. A decisão só foi verbalizada no fim do ensino médio, quando sentiu que já poderia sustentar esse caminho com convicção.
A escolha, porém, vinha de antes. A doença do avô e a convivência com o ambiente hospitalar despertaram nela uma curiosidade precoce pelo cuidado e pela rotina médica. A graduação aconteceu em Alfenas, Minas Gerais. No início, a ginecologia não estava nos planos. A cardiologia parecia um caminho mais provável, até que um episódio familiar consolidou a mudança de rota.
“No quinto ano, meu pai infartou, e eu criei um bloqueio com a cardiologia. Pensei que não conseguiria lidar com aquilo sem reviver a situação. Foi quando entendi que meu caminho estava na ginecologia. Hoje, não me vejo em outra área da medicina”, afirma.
A virada profissional e o amadurecimento da prática
Se a escolha pela especialidade foi sendo construída aos poucos, a forma de exercê-la também nasceu de um processo de amadurecimento. Um dos marcos mais importantes veio da experiência com a mãe, que entrou precocemente na menopausa e enfrentou sintomas intensos, com impactos físicos e emocionais relevantes. Para Érica, o que mais chamou atenção naquele período não foi apenas a gravidade do quadro, mas a dificuldade em encontrar um cuidado que realmente acolhesse aquela mulher em sua complexidade.
Ela acompanhou de perto a fadiga, a perda de memória, a depressão e o comprometimento ósseo em uma fase em que a mãe ainda era jovem. Também testemunhou tentativas frustradas de aliviar os sintomas sem uma resposta consistente. Esse processo se transformou em um ponto de virada para a médica, que passou a aprofundar os estudos sobre as transições hormonais e a buscar novas formas de compreender esse cuidado.
“Eu vi minha mãe sofrer muito com a menopausa e procurar atendimento sem conseguir o suporte necessário. Quando comecei a estudar além do convencional, entendi que havia muitas mulheres perdidas nessa fase, sem saber para onde ir. Isso me direcionou de forma muito natural para esse cuidado”, diz.
Ao longo da formação, buscou aprofundamentos em estética médica, nutrologia esportiva, longevidade e fisiologia metabólica. Hoje, atua em Brasília com foco na saúde da mulher e projeta ampliar ainda mais sua formação com cursos no exterior.

O que faz na prática
Na rotina clínica, esse olhar se traduz de forma concreta. Questões como ressecamento íntimo, dor na relação, perda de massa muscular, fadiga, alterações de humor, irregularidade do ciclo, desconfortos vaginais recorrentes e sintomas da menopausa exigem, na visão da médica, uma leitura menos fragmentada. Em vez de observar apenas a queixa imediata, ela busca compreender o contexto em que aquele sintoma se desenvolveu.
“A ginecologia integrada tenta entender a origem do problema. Muitas vezes, trata-se de um sintoma isolado e ele retorna, porque a causa não foi investigada. Há situações em que intestino, sono, hormônios, alimentação e estado emocional estão interligados, e isso precisa ser considerado”, explica.
Essa abordagem também se estende à saúde íntima, uma frente que passou a ocupar espaço importante em sua atuação. Para Érica, o tema ainda é cercado por constrangimentos e, por isso, muitas mulheres demoram a buscar ajuda, mesmo quando o desconforto interfere no bem-estar e na vida sexual.
“Quando falamos de saúde íntima, estamos falando de ressecamento, atrofia, dor, perda de elasticidade e desconforto nas relações. Isso afeta a autoestima, o bem-estar e a forma como a mulher se percebe”, observa.
Escuta, dores recorrentes e escolhas silenciosas
Com o tempo, Érica percebeu que muitas pacientes chegavam com uma queixa física, mas logo revelavam algo mais difícil de nomear. Não raro, surgem relatos de cansaço extremo, irritabilidade, sensação de não se reconhecer, conflitos familiares ou uma tristeza difusa que acaba se manifestando no corpo.
“Muitas vezes, a última coisa de que falávamos na primeira consulta era ginecologia. Elas precisavam primeiro se sentir acolhidas, contar o que estavam vivendo, entender por que já não se reconheciam. Só depois vinha a parte técnica”, relata.
Foi essa convicção que a levou a abrir a própria clínica, em 2019, após perceber que não conseguiria atuar da forma como desejava em agendas rígidas e consultas apressadas. O primeiro espaço era pequeno, mas já refletia a necessidade de preservar tempo, escuta e presença.
“Eu tinha dificuldade de trabalhar em lugares onde queriam encaixar uma paciente após a outra. Não conseguia oferecer o diálogo e o tempo necessários. A clínica surgiu como uma forma de proporcionar esse acolhimento com mais liberdade”, conta.
Na visão da médica, esse cuidado também depende da equipe. Em um atendimento voltado à saúde feminina, especialmente quando envolve dor, vergonha, insegurança e mudanças hormonais, ela considera essencial um ambiente em que a paciente não se sinta julgada.
Dúvidas recorrentes e visão de futuro
Entre as dúvidas mais frequentes estão questões relacionadas à menopausa, à reposição hormonal, à sexualidade e, entre mulheres mais jovens, ao adiamento da maternidade. A médica também chama atenção para o hábito de normalizar dores e sintomas que deveriam ser investigados.
“Muitas mulheres se acostumam a achar normal sentir cólica intensa, ter enxaqueca, fluxo muito intenso ou uma TPM incapacitante. Passam a usar medicações pontuais, e isso se transforma em uma bola de neve. O que é comum não necessariamente é normal e, muitas vezes, precisa ser avaliado com mais atenção”, afirma.
O futuro que Érica França projeta para sua prática não está ligado apenas ao crescimento físico da clínica, mas ao fortalecimento de uma rede de cuidados. Ela deseja integrar ainda mais áreas, como psicologia e nutrição, e criar um espaço em que as mulheres se sintam compreendidas em toda a sua complexidade. Também vislumbra a criação de um centro voltado à saúde feminina, onde cuidado, bem-estar e troca de experiências coexistam.
No fim, a ginecologia que construiu parece menos orientada por respostas rápidas e mais pela disposição de sustentar perguntas complexas com repertório, escuta e presença.
“Gosto de lembrar às mulheres que elas não precisam viver em sofrimento, nem acreditar que devem dar conta de tudo sozinhas. Sempre há um caminho possível, e o mais importante é saber que existe acolhimento, escuta e cuidado ao longo desse processo.”
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