Dor no ombro não é normal e pode exigir tratamento especializado, alerta Maurício Raffaelli
Ortopedista com 25 anos de experiência fala sobre prevenção, tratamento e cirurgia de ombro e cotovelo, além de tecnologia e atendimento humanizado

A medicina, para o ortopedista Maurício de Paiva Raffaelli, nunca foi apenas técnica. Ao longo de 25 anos de formação e prática, ele construiu uma carreira que transita entre o centro cirúrgico, a sala de aula e o consultório, sempre sustentada por uma ideia simples e repetida com convicção: servir. Entre decisões profissionais e escolhas pessoais, sua trajetória revela um médico que não separa competência técnica de responsabilidade humana.
Nascido em São Paulo em 1974, Maurício cresceu em uma família sem tradição médica. O pai, engenheiro e administrador de multinacionais, e a mãe, pedagoga, cultivaram em casa disciplina e valorização do estudo. A medicina, porém, surgiu como vocação espontânea. “Eu não me lembro da minha infância querendo ser outra coisa. Sempre quis entender como o corpo funcionava”, recorda.
Ingressou na Faculdade de Medicina do ABC em 1995 e se formou em 2000. A graduação foi um divisor de águas não apenas na vida profissional. Foi ali que conheceu sua esposa, também médica. “A faculdade não me deu só a medicina. Me deu a mulher da minha vida. Se eu tiver que apontar um marco real de sucesso, foi ter encontrado minha esposa”, afirma.
No início da graduação, pensava em seguir a pediatria. A virada ocorreu ao longo do curso, quando percebeu que seu perfil se conectava mais com a cirurgia. O esporte, presente desde a juventude, ajudou a direcionar a escolha pela ortopedia. Futebol, natação e atletismo despertaram o interesse pelas articulações e pelo movimento humano.
Em 2001, iniciou residência em Ortopedia e Traumatologia na Santa Casa de São Paulo, instituição que define como sua grande escola. Ali consolidou a formação generalista e, posteriormente, especializou-se em cirurgia de ombro e cotovelo. Após concluir a especialização, permaneceu como médico assistente e preceptor, atuando diretamente na formação de novos ortopedistas.
“Foi na residência que eu percebi que também gostava de ensinar. Eu tinha prazer em formar outros médicos”, diz.
A escolha pela família e o retorno ao ensino
Após alguns anos dedicados intensamente à instituição pública, a rotina exigente começou a impactar sua vida pessoal. Plantões, dedicação integral e responsabilidades administrativas exigiam longas ausências. A decisão que se impôs foi complexa.
“Eu precisava escolher entre investir integralmente na instituição ou investir na minha família”, relembra. Optou pela segunda alternativa. Para ele, essa foi uma das decisões mais importantes da vida. “Meus filhos cresceram dizendo que eu sempre estive presente.”
O afastamento da Santa Casa não significou abandonar o ensino. Anos depois, assumiu a chefia da preceptoria no Instituto NAEON, voltado à formação de especialistas em ombro e cotovelo. Atualmente, Maurício participa da formação de residentes e da estruturação de uma pós-graduação na área.
Além da prática clínica e da docência, mantém atuação como consultor para empresas internacionais de material ortopédico, participando de discussões técnicas e desenvolvimento de instrumentais. Na prática assistencial, atua à frente da CORT Clínica, ao lado do sócio Daniel Esperante, espaço em que consolidou um modelo de atendimento estruturado, com foco em especialização em ombro e cotovelo e organização da jornada do paciente.
Atuação clínica em ombro e cotovelo
A prática clínica de Maurício concentra-se nas doenças do ombro e do cotovelo, articulações que, embora menos lembradas do que joelhos e coluna, têm impacto direto na autonomia do paciente. São estruturas fundamentais para gestos simples do cotidiano, como pentear o cabelo, vestir uma camisa, alcançar um objeto no armário ou simplesmente dormir sem dor.
No ombro, a principal queixa envolve a chamada doença do manguito rotador. O manguito é formado por um conjunto de quatro tendões responsáveis por estabilizar e permitir o amplo arco de movimento da articulação.
“O ombro é a articulação com maior amplitude de movimento do corpo. Ele não tem proteção óssea significativa. Depende muito dos tendões para se manter estável praticamente o tempo todo”, explica.
Diferentemente de articulações que contam com encaixes ósseos mais profundos, o ombro depende intensamente do equilíbrio muscular e ligamentar. Segundo ele, essa musculatura trabalha de forma quase contínua para manter a cabeça do úmero centrada na cavidade articular. “A gente é ereto, anda em duas pernas. Para o ombro ficar no lugar, ele precisa de uma contratilidade muscular praticamente o tempo todo”, pontua.
Essa dependência estrutural torna a articulação vulnerável a processos inflamatórios, sobrecarga mecânica e degeneração natural ao longo dos anos. Entre as patologias mais comuns atendidas estão tendinopatias do manguito rotador, rupturas parciais ou completas dos tendões, bursite subacromial, síndrome do impacto, instabilidade com luxações recorrentes, lesões do lábrum, artrose do ombro e fraturas proximais do úmero.
A dor costuma apresentar um padrão bastante característico. “É aquele paciente que sente dor ao elevar o braço, ao pegar algo no armário ou ao vestir a camisa. E a dor noturna é um sinal importante. Ele acorda quando muda o ângulo do braço”, descreve.
Ele observa que o estilo de vida moderno contribuiu para modificar o perfil das queixas ortopédicas ao longo das últimas décadas. “No passado, quando os esportes e as caminhadas eram mais frequentes, joelhos e quadris sofriam mais. Hoje a gente está mais sentado e exigindo muito mais os braços. O ombro acaba sofrendo demais”, afirma.
O uso constante de computador, celular e outras atividades com braços elevados ou projetados à frente altera a postura e aumenta a sobrecarga. “A gente exige cada vez mais dos braços no dia a dia e está esquecendo-se de cuidar talvez da maior prioridade da nossa vida, que é a saúde”, observa.
No cotovelo, uma das queixas mais frequentes é a epicondilite lateral, conhecida como cotovelo do tenista. Apesar do nome popular, não se restringe ao ambiente esportivo. “O nome pode sugerir que é só de atleta, mas qualquer pessoa que digita muito, dirige por longos períodos ou carrega peso repetidamente pode desenvolver”, explica.
Também são comuns casos de epicondilite medial, lesões ligamentares, rigidez pós-traumática e artrose. Muitas vezes, segundo ele, o paciente demora a procurar avaliação por considerar a dor algo passageiro. “O corpo compensa. E quando compensa demais, cria novas sobrecargas”, alerta.
Ele destaca ainda que as doenças do ombro apresentam dois grandes picos de incidência. Um grupo mais jovem, geralmente entre 35 e 50 anos, associado a esforço repetitivo ou prática esportiva inadequada. E outro grupo acima dos 65 anos, no qual o desgaste natural dos tecidos se torna mais evidente. “Se todos vivessem até 95 anos, praticamente todos teriam algum grau de degeneração do manguito”, afirma, reforçando o caráter progressivo dessas alterações.

Prevenção e tratamento não cirúrgico
Para Maurício, um dos principais erros é ignorar a dor inicial e recorrer apenas a analgésicos. Essa conduta pode mascarar processos inflamatórios ou degenerativos que evoluem silenciosamente. “Quanto mais cedo você entende o que está acontecendo, mais segurança você tem no tratamento”, afirma.
A prevenção começa com medidas simples, mas consistentes. Evitar longos períodos com os braços elevados, fazer pausas durante o trabalho no computador, ajustar a ergonomia e evitar dormir constantemente com o braço elevado são atitudes que reduzem sobrecarga.
O fortalecimento da musculatura estabilizadora do ombro também é essencial. “Ombro não é articulação de carga, é de movimento. Ele precisa ser forte, mas também precisa ser móvel”, explica.
Segundo ele, o fortalecimento pode ser realizado por meio de musculação orientada, exercícios com elástico, pilates, natação ou hidroginástica. O importante é que o paciente encontre uma atividade compatível com sua rotina e consiga manter no longo prazo.
O alongamento tem papel estratégico, mas deve respeitar o tipo de atividade praticada. Em exercícios que exigem mobilidade, pode ser realizado antes e depois. Já em atividades predominantemente de força, o ideal é que ocorra após o treino, reduzindo risco de microlesões associadas à sobrecarga excêntrica.
No tratamento conservador, as condutas incluem ajuste de carga, fisioterapia direcionada, reeducação do padrão de movimento e uso de anti-inflamatórios quando indicados. “Muitas vezes não é o movimento em si que está errado, mas a forma como ele está sendo executado”, observa.
Infiltrações guiadas por ultrassonografia também fazem parte da prática clínica, permitindo maior precisão no local tratado. “O ultrassom nos permite tratar exatamente onde está o problema. É como se o médico tivesse um olho externo e um olho interno”, explica.
Nos últimos anos, recursos da chamada medicina regenerativa passaram a ser utilizados em casos selecionados, como infiltrações com ácido hialurônico, concentrado plaquetário e aspirado de medula óssea para pequenas lesões tendíneas.
“Não é para todo mundo, mas em casos bem indicados pode ajudar a melhorar a qualidade do tecido e retardar a evolução da lesão”, pontua.
Ele ressalta que muitos pacientes chegam após meses de adaptação incorreta, desenvolvendo compensações musculares que tornam o quadro mais complexo e prolongam o tempo de recuperação. A reeducação, nesse contexto, torna-se parte fundamental do processo terapêutico.
Cirurgia e tecnologia
Quando o tratamento conservador não resolve, a cirurgia pode ser indicada. As técnicas evoluíram significativamente nas últimas décadas.
A artroscopia é hoje uma das principais ferramentas na cirurgia do ombro. Por meio de pequenas incisões e uma câmera introduzida na articulação, é possível reparar tendões, tratar lesões do lábrum e corrigir instabilidades com menor agressão aos tecidos. “Não é que a cirurgia lá dentro seja menor. Mas a agressão externa é menor, e isso melhora a recuperação e reduz risco de infecção.”
Em casos de desgaste avançado, fraturas complexas ou falhas de tratamento prévio, as próteses de ombro representam alternativa eficaz. Ele destaca que atualmente as próteses estão em gerações mais avançadas, com melhor adaptação anatômica e planejamento pré-operatório mais preciso.
Outro avanço importante é a ultrassonografia portátil no consultório, utilizada tanto para diagnóstico dinâmico quanto para infiltrações guiadas.
Segundo ele, o avanço tecnológico não está apenas na execução do procedimento, mas principalmente no planejamento pré-operatório. “Hoje conseguimos estudar a anatomia do paciente com muito mais detalhes. Em muitos casos, é possível simular a cirurgia antes mesmo de entrar no centro cirúrgico. Isso aumenta a previsibilidade e reduz riscos”, explica.
Ele acrescenta que essa preparação prévia permite decisões mais individualizadas, respeitando a anatomia e a demanda funcional de cada paciente.
Quanto à inteligência artificial, Maurício reforça que ela já é parte da rotina médica. Ele utiliza ferramentas para organização de prontuários, planejamento cirúrgico e análise de exames. “Ela trabalha com dados, não com emoções. Nenhuma inteligência artificial substitui o toque e o olhar do médico”, afirma.
Segundo ele, a tecnologia funciona como facilitadora e encurtadora de caminho, mas não substitui a responsabilidade clínica.
Inclusive, o ortopedista destaca que a visão de cuidado vai além do procedimento técnico. Ele defende que o atendimento começa antes da consulta e continua após ela. “Atendimento humanizado não é ser bonzinho. É ser claro, previsível, empático e profissional em todos os pontos de contato”, diz.
O conceito de jornada do paciente envolve desde o primeiro contato até o acompanhamento pós-tratamento. Para ele, assumir responsabilidade é também orientar o paciente quando necessário, evitando que se sinta perdido entre especialidades. “O paciente não gosta de brincar de pingue pongue. Ele quer alguém que o ajude a caminhar.”
Dúvidas recorrentes e erros silenciosos
Entre as dúvidas mais comuns está a ideia de que toda dor no ombro é “apenas uma tendinite” e que repouso absoluto resolve o quadro. Segundo ele, tanto o excesso quanto a ausência total de movimento podem piorar o problema.
“O ombro precisa de equilíbrio. Nem imobilização prolongada, nem sobrecarga contínua. O tratamento adequado depende do diagnóstico correto”, explica.
Também há quem normalize a dor noturna ou associe qualquer desconforto à idade. Segundo ele, dor persistente merece investigação adequada. “Dor persistente nunca deve ser normalizada. Muitas vezes o paciente se adapta à limitação, muda o jeito de usar o braço e só procura ajuda quando já existe perda de força ou restrição importante de movimento”, alerta.
Ele observa ainda que muitos pacientes chegam após meses de adaptação inadequada, criando compensações musculares que tornam o tratamento mais complexo.
Mentoria e formação médica
Além do consultório e da sala cirúrgica, Maurício criou a ORTOGUIDE ao lado do colega Bruno Brabo. Trata-se de uma mentoria voltada a ortopedistas que desejam desenvolver não apenas habilidade técnica, mas visão de gestão, comunicação e posicionamento profissional. A iniciativa nasceu da percepção de uma lacuna na formação médica tradicional. “A técnica é o mínimo. A gente não aprende na faculdade a ser gestor, não aprende a empreender e muitas vezes não aprende a enxergar o paciente como um todo”, afirma.
Segundo ele, a proposta não é ensinar cirurgia nem substituir a formação acadêmica, mas compartilhar experiências acumuladas ao longo da própria trajetória, incluindo erros e decisões difíceis.
“Eu já trilhei caminhos mais difíceis. Quando mostro isso para outro médico, eu encurto o tempo dele. Não ensino atalhos, ensino consciência.”
O foco está na organização da prática médica, na construção de uma jornada estruturada de atendimento e na humanização como estratégia de sustentabilidade profissional. Para Maurício, tanto a CORT Clínica quanto a ORTOGUIDE representam planos centrais de sua atuação atual, cada uma cumprindo um papel complementar: o cuidado direto ao paciente e a formação de novos profissionais mais preparados.
“Quando o médico entende que servir é propósito e também é responsabilidade, ele passa a cuidar melhor do paciente e do próprio negócio.”
Visão sobre o ensino médico
Um dos pontos que mais o preocupa é a expansão acelerada do ensino médico no país. Em sua avaliação, quantidade não pode comprometer qualidade. “Ensinar a curar não pode ser tratado como produto em massa. Quando a essência da servidão se perde, quem perde é o paciente”, afirma. Ele ressalta que responsabilidade profissional exige preparo técnico e compromisso humano.
No centro de todas as frentes de atuação, permanece a mesma ideia que orienta sua trajetória desde o início. “Para os colegas médicos, o recado é claro: sirvam com excelência, desenvolvam inteligência emocional e cresçam para servir melhor. E aos pacientes, não aceitem menos do que um cuidado responsável e comprometido. Cada pessoa é única e merece ser tratada como única.”
CRM: 101523/SP | TEOT: 9210 | RQE: 57916
Instagram: @drmauricioraffaelli
Site: http://drmauricioraffaelli.com.br

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