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Deborah Beranger defende cuidado individualizado em obesidade e hormônios

Endocrinologista esclarece por que a obesidade é doença crônica e discute critérios e cuidados da reposição hormonal segura

Com mais de duas décadas de experiência em consultório, a endocrinologista Deborah Mello Beranger Teixeira de Sousa construiu sua prática a partir de uma convicção: tratar pessoas, não números. Mulher de fala direta e de escuta presente, ela descreve uma medicina que respeita a história de cada paciente e que encara a obesidade e os desequilíbrios hormonais como o que são: condições crônicas, complexas e possíveis de manejar com ciência, método e vínculo. “O paciente precisa sentir que você gosta do que faz e que está realmente interessado na saúde dele”, resume.

Nascida em Natal (RN) por conta da carreira militar do pai e criada em Niterói (RJ), Deborah decidiu cedo que seria médica. “Resolvi fazer medicina com 12 anos. Admirava os pais de colegas que eram médicos, convivia com eles e pensava: quero ajudar as pessoas”, lembra. A família estranhou a escolha, mas a certeza não vacilou. Formou-se pela Fundação Técnico-Educacional Souza Marques, no Rio de Janeiro, e logo se inclinou às especialidades clínicas, buscando repertório ao dividir a rotina entre consultório e terapia intensiva. “Gostava de conversar, entender origens, percursos e hábitos”. Ainda na graduação, fez monitoria em endocrinologia do segundo ao sexto ano, um contato que aprofundou sua paixão pela área.

Foi na prática clínica que a obesidade emergiu como um foco central. “Esses pacientes eram negligenciados. Não eram tratados de forma humana, não se via a obesidade como doença crônica”, recorda. Há 22 anos, era um tema marginal nos congressos, com muitos profissionais preferindo discutir diabetes e tireoide. “O endocrinologista que tratava obesidade enfrentava preconceito. Hoje todo mundo quer tratar, até quem não sabe”, provoca. A postura, porém, permaneceu: formar rede, motivar, compartilhar o cuidado com nutricionistas, psicólogos e preparadores físicos, e atualizar o arsenal terapêutico sempre que a ciência avança.

Doença crônica e método: o ponto de virada e as três atitudes práticas

Se o senso comum repete que bastaria “fechar a boca e malhar”, a prática desmente essa simplificação. Para Deborah, o “clique” que muda a rota varia. “Às vezes é uma complicação, uma internação difícil, dor física, ou um relacionamento que cobra melhora. É muito individual”, diz. O que ajuda o paciente a “acordar” é ver e não apenas ouvir os riscos.

“Quando o paciente enxerga uma bioimpedância muito alterada, a gordura visceral alta, ou descobre no exame que já está diabético, isso acorda. Ele passa a aceitar tratamento, consultas regulares, nutricionista, personal, medicação”, diz. Visualizar consequências cardiovasculares também chama à responsabilidade. A filosofia que sustenta a abordagem é simples e firme: “Nunca é tarde para melhorar. Se não morreu, nunca é tarde.”

No consultório, sem radicalismos, a médica propõe três pilares sustentáveis: “Aceitar a doença e o tratamento; melhorar a qualidade alimentar com trocas possíveis no dia a dia; e aderir a uma atividade física”, afirma. A adesão, no entanto, é o grande desafio. “O ser humano começa empolgado e relaxa. O saudável dá trabalho. É mais fácil pedir delivery e abrir pacotinhos. Por isso a rotina precisa ser construída”, diz.

O cuidado é calibrado com tecnologia, como a bioimpedância, e uma equipe que a acompanha: “Tenho duas nutricionistas comigo há anos, psicólogas e preparadores físicos parceiros. Em casos mais graves, psiquiatras. É multifatorial e precisa de rede”, destaca. Esta abordagem multidisciplinar é fundamental, assim como a humildade na avaliação técnica: “A dose não é receita de bolo. Há organismos muito sensíveis, que respondem com dose baixa e outros são resistentes e pedem ajustes maiores.”

A postura inclui reconhecer limites. “Às vezes digo: vou estudar seu caso em casa. Não prescrevo nada agora porque preciso ver interações e caminhos. É preciso conhecer farmacologia e ter humildade”, diz. A monografia de Deborah na especialização tratou de retinopatia diabética e a experiência mostra o quanto o controle avançou. “Com as drogas atuais e controle rigoroso, conseguimos evitar muitas complicações: retinopatia, neuropatia periférica, alterações renais”, explica. A mensagem pedagógica subsiste: informação, exames e tratamento consistente evitam desfechos que antes pareciam destino.

Saúde hormonal, cuidados e critérios na menopausa e andropausa

Deborah dedica parte do consultório à saúde hormonal feminina e procura desfazer fantasmas. “Houve estudo antigo com hormônio que não usamos hoje e que gerou medo. Hoje, com avaliação adequada e sem contraindicações, a reposição é segura e, muitas vezes, benéfica, mesmo para quem não tem ondas de calor”, diz.

Os sinais de alerta que indicam a necessidade de reposição vão além do famoso fogacho: “Ressecamento vaginal, pele seca, esquecimento e alterações de memória, irritabilidade, redução de libido. Muitas vezes, esses sintomas impactam mais a vida que a onda de calor”, diz. Para ser segura, a reposição pede vigilância rigorosa: “Exame de mama, ultrassom transvaginal, atenção a sangramentos, acompanhamento próximo e ajuste de dose de acordo com queixas e resposta”.

Cuidados, limites e escolhas informadas são o fio condutor. Nem toda mulher é candidata à reposição. “História familiar de câncer de mama é uma contraindicação importante”, pondera. Em cenários específicos, decisões devem ser compartilhadas com mastologista/oncologista e, quando cabível, aconselhamento genético. “A paciente precisa entender benefícios, riscos e alternativas. A dose é ajustável e a segurança depende de acompanhamento regular”.

Ao falar de homens, a endocrinologista observa outro cenário. “O homem tem menos preconceito que a mulher. Aos 40 ou 50 anos, muitos chegam dizendo que precisam repor porque sentem fadiga, queda de libido e desempenho”, relata. A reposição de testosterona, seja em idosos pela sarcopenia ou em mais jovens por indicação clínica, exige critério. “O benefício está ligado à avaliação correta, não ao modismo”, reforça.

Prevenção, educação e o futuro das terapias no horizonte

Se há um investimento transversal que vale para todos, Deborah o resume em quatro frentes de prevenção: “Abrir menos pacotinhos e comer mais comida que vem da terra, reduzir ultraprocessados, movimentar o corpo e cuidar da saúde mental”, reforça. O último ponto é um dos mais urgentes. “Vemos muitos pacientes em uso de controlados para dormir, acordar ou controlar ansiedade. O equilíbrio emocional está difícil. Trabalhar mente e corpo junto é indispensável”, afirma. Em prevenção e em tratamento, a medicação tem lugar quando bem indicada e acompanhada.

Além de atender, Deborah forma colegas. “Dou aula para vários laboratórios e especialidades. O número de endocrinologistas não dá conta da obesidade no mundo. Ginecologistas, cardiologistas, psiquiatras, pediatras: todos precisam entender o básico para oferecer cuidado inicial e encaminhar quando necessário”, explica. A disposição de ensinar nasce da prática: “Compartilhar é parte do tratamento populacional”.

Atualização constante é rotina e o calendário recente reflete isso. “Acabei de voltar do ObesityWeek, em Atlanta. Novas drogas serão lançadas entre 2026 e 2027, inclusive análogos mais potentes de GLP-1 e novas canetas”, relata. A expectativa é ampliar alternativas e reduzir indicações cirúrgicas em pacientes com IMC mais alto. “Quanto mais opções eficazes, maior a chance de evitar a bariátrica e suas repercussões absortivas”, avalia. Novas opções ampliam o acesso, mas mantêm o princípio: indicação precisa, metas realistas e acompanhamento contínuo. Ainda assim, a bússola permanece: indicação precisa, acompanhamento e realidade sobre limites e metas. A médica insiste que o segredo é construir aderência: acesso ao médico, ajustes frequentes, nutrição viva e treino adequado à fase do tratamento.

Filosofia de atendimento e acolhimento

Deborah guarda um princípio simples: se aceitou tratar, é para valer. “O médico precisa dar assistência. Não é só no momento da consulta”, afirma. Por isso, mantém linha direta com a equipe e com muitos pacientes, sobretudo em fases de ajuste de medicação. O tom humanizado não exclui rigor, mas o exige. “Provar para o paciente que você está interessado na saúde dele é parte da adesão”, explica. Casos em que a combinação de ciência e vínculo viram chave mostram que pacientes “travados” encontram saída quando o plano se ancora em marcadores reais e em metas possíveis. “Quando mostramos hemoglobina glicada controlada, gordura visceral caindo, ganho de massa magra, o paciente entende que não é modismo. É cuidado crônico”, diz.

Acolher, explicar e caminhar junto são a filosofia de atendimento de Deborah. “Se o profissional não abraça a causa, procure outro. Existem médicos competentes que nasceram para ajudar o próximo”, diz. O recado vale para quem já sofreu com julgamentos e portas fechadas.

“Não tenha vergonha de pedir ajuda e não desista de se cuidar. Hoje a medicina está muito avançada, as drogas são muito boas, não existe mais desculpa para não tratar.”

CRM: 75391-2/RJ

 Instagram: @Deborahberanger

Site: https://Deborahberanger.com.br

Fotos: Galeria 32

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