Daniela de Sousa Costa explica a cirurgia ginecológica minimamente invasiva
Referência em Curitiba, a médica une precisão técnica, escuta ativa e decisões compartilhadas no manejo de endometriose, menopausa e planejamento reprodutivo

Desde muito cedo, a medicina apareceu para Daniela de Sousa Costa como um compromisso com o acolhimento. A decisão veio na infância, quando uma consulta pediátrica se transformou em ponto de virada. “Quero que a paciente saia entendida, informada e mais tranquila”, resume.
Nascida em São Paulo (SP), filha de pai cearense e mãe piauiense, ela cresceu em Teresina (PI), onde se formou e fez residência em Ginecologia e Obstetrícia. Em 2020, mudou-se para Curitiba (PR) e aprofundou a atuação em cirurgia minimamente invasiva, incorporando videolaparoscopia e histeroscopia ao cotidiano clínico e cirúrgico. O fio que costura sua trajetória é uma ética simples: “Avalio risco e benefício com transparência e decido junto com a paciente.”
A escolha pela ginecologia se desenhou no contato direto com as demandas femininas na atenção básica. A convivência com histórias de dor, barreiras de acesso e dúvidas acumuladas ajustaram o foco. “Percebi que cuidar de mulheres exige escuta e compreensão do contexto de cada uma”, conta. Já especializada, Daniela observou que os pós-operatórios das vias tradicionais são mais dolorosos e demorados do que gostaria para suas pacientes. A decisão de se qualificar na via minimamente invasiva partiu desta inquietação.
“Queria uma cirurgia que devolvesse a rotina mais rápido, com menos dor e um pós-operatório mais confortável”, diz. Em Curitiba, a médica encontrou campo fértil: concluiu a formação na histeroscopia diagnóstica e cirúrgica, aprofundou a videolaparoscopia e passou a transitar entre consultório, centro cirúrgico e ambulatório público de dor pélvica crônica. Segundo ela, o caminho é feito de escolhas prudentes. “Nem toda dor precisa de cirurgia e nem toda imagem leve dispensa intervenção.”
A experiência nos dois cenários — Sistema Único de Saúde (SUS) e rede privada — reforça a atenção de Daniela às desigualdades de acesso e deixa lições práticas. “Quem tem acesso encontra uma medicina muito boa. O problema é o acesso”, observa.
Nos ambulatórios de dor pélvica crônica, a ginecologista vê mulheres que peregrinam por anos até chegar ao diagnóstico. Na esfera privada, replica processos que dão previsibilidade: conversa prévia sobre a doença, indicação clara, riscos explicados passo a passo, alinhamento de expectativas e contato próximo no pós-operatório. “Informação clara é parte do cuidado”, diz.
Cirurgia minimamente invasiva e endometriose em linguagem direta
Daniela prefere traduzir técnica sem jargões. A histeroscopia resolve alterações da cavidade uterina, como pólipos, por via endoscópica, preservando tecido e encurtando a recuperação. A videolaparoscopia amplia a visão cirúrgica e permite tratar endometriose, miomas e adenomiose com incisões pequenas, menor dor e retorno mais rápido às atividades. A decisão entre tratar clinicamente ou operar sempre considera extensão da doença, sintomas, exames, idade e planos reprodutivos. “A avaliação é individual, feita passo a passo”, explica.
A endometriose ocupa lugar central no consultório e no serviço público. Os sinais de alerta precisam ser valorizados desde cedo: cólica incapacitante que interrompe a rotina, dor na relação sexual, dor pélvica crônica por mais de três meses. “Isso não é normal. Precisa investigar”, frisa. A infertilidade pode ser a primeira manifestação, mesmo sem outras queixas. A lógica terapêutica é contínua. “A endometriose é crônica. Mesmo com indicação cirúrgica, o tratamento clínico vem antes e depois, porque a cirurgia trata o que vemos naquele momento.”
A orientação prática que repete às pacientes é simples e efetiva: registrar o ciclo em aplicativo e anotar alterações do padrão. “Calendário é aliado. Quando algo foge do padrão, a conversa ganha precisão”, afirma. A normalização da dor, segundo ela, tem custo emocional alto e atrasa cuidados que poderiam evitar complicações. “Quando a dor interrompe a vida, acende um sinal.”
A comparação com o cenário internacional surge quando comenta casos acompanhados de brasileiras que vivem fora. “Tenho pacientes dos Estados Unidos que preferem investigar aqui. Vejo mulheres mais questionadoras, e isso nos obriga, como profissionais, a olhar melhor para a queixa”, afirma. No SUS, o desafio se multiplica pela demora nas filas e pela dificuldade de chegar a serviços especializados, mas o método permanece: priorizar o essencial, orientar com clareza e construir, com a paciente, o caminho possível.

Menopausa, contracepção e autonomia em decisões compartilhadas
No climatério e na menopausa, Daniela parte de um dado social: mulheres de 50 anos estão no auge da vida produtiva e afetiva. Fogachos em ondas, sudorese, ressecamento vaginal, névoa mental e alterações do sono merecem avaliação criteriosa. “A janela terapêutica se abre com os sintomas, não só com o carimbo formal da menopausa”, explica. A reposição hormonal pode ser indicada em situações selecionadas, sempre com ponderação de riscos e benefícios, e nunca isolada de hábitos que sustentam a saúde a longo prazo. “Exercício, construção de massa muscular, alimentação, sono e acompanhamento cardiometabólico formam a base.”
O mesmo princípio de personalização vale para a contracepção. “O melhor método é o que você se adapta”, resume. O histórico clínico, a rotina, o uso de medicamentos e as preferências entram na conversa. Em pacientes pós-cirurgia bariátrica, a lógica muda por questões de absorção: priorizam-se métodos não orais, como DIU de cobre ou hormonal, implante subcutâneo e injetáveis. “É informação, não pressão. Serve para planejar, seja para gestar agora, depois ou para congelar óvulos”, diz, ao abordar a queda natural da reserva ovariana com a idade.
A defesa da autonomia atravessa todo o discurso. “A mulher é a senhora do seu corpo. Eu posso auxiliar, mas a decisão é dela”, afirma. Isso vale para escolher método contraceptivo, indicar cirurgia ou postergar maternidade. O papel do médico é organizar a informação, diferenciar sintomas que se confundem — como névoa mental, ansiedade e depressão — e construir, com a paciente, um plano executável. “Não adianta prescrever o melhor tratamento do mundo se ela não consegue acessar”, sintetiza.
Humanização concreta, equipe, SUS e o que vem pela frente
Para Daniela, humanização é rito de trabalho. Começa na consulta, com tempo para explicar diagnóstico, etapas e limites. Segue no preparo cirúrgico, quando apresenta riscos e descreve como a equipe os mitiga. Continua no pós-operatório, com orientações objetivas sobre o esperado e o que exige contato imediato. “As minhas pacientes operadas têm meu contato direto. Proximidade reduz medo e melhora adesão”, diz, reforçando a importância de ter uma equipe multiprofissional. “Cirurgia segura depende de anestesia, enfermagem, limpeza, organização de fila e sala preparada.”
No centro cirúrgico, a base atual é a videolaparoscopia e a histeroscopia. No horizonte, a cirurgia robótica surge como evolução natural para casos selecionados. “Cirurgias mais precisas significam menor risco para a paciente e maior benefício”, projeta, sem promessa fácil. A adoção, destaca, virá no tempo certo, com validação responsável e atenção aos custos e ao acesso. Enquanto isso, o foco permanece no que já muda o cotidiano: indicação bem feita, execução cuidadosa e recuperação assistida de perto.
Ao falar de desafios, a cirurgiã menciona o choque entre a pressa do sistema e a vontade de ouvir. “Eu ouvia que era lenta porque escutava mais”, recorda. Com o tempo, transformou o que parecia fragilidade em método. “Compreender a subjetividade do outro também faz parte da eficácia do tratamento”, destaca. A constatação de gênero aparece sem rodeios. “Dentro da cirurgia, ser mulher é um desafio. A qualidade feminina é questionada com mais frequência. Eu tento responder com consistência.”
Os próximos passos não vêm embalados por metas grandiosas. “Aperfeiçoar o que já entregamos bem é um projeto em si”, diz. A ideia é fortalecer atendimentos, afinar fluxos e incorporar tecnologia quando fizer sentido clínico. Mais do que anunciar novidades, Daniela prefere consolidar o que sustenta a segurança e a confiança no presente. “Operar é uma etapa. O cuidado começa antes e continua depois”, ressalta.
No fim, a mesma frase que a acompanha desde a infância volta como síntese do que pratica hoje, sem slogan ou enfeite. “A mulher é dona do próprio corpo. Ela participa de todas as decisões. Se alguém disser o contrário, é hora de procurar outro consultório.”
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