Dalton Makoto Senda explica por que o tempo decide a recuperação do plexo braquial
Entre mitos e diagnósticos tardios, o neurocirurgião detalha sinais de alerta, possibilidades de tratamento e o papel da reabilitação

Há lesões que não parecem urgentes por fora, mas mudam a vida por dentro. Um braço que não responde, uma mão que perde precisão, uma dor difícil de nomear, descrita pelo paciente como “estranha”. Para o neurocirurgião Dalton Makoto Senda, esse tipo de quadro revela um relógio próprio do corpo. O nervo pode se degenerar com o passar dos meses e, quando esse tempo se esgota, as chances de recuperar movimento e função tendem a cair. É um assunto técnico, mas com consequências íntimas, porque mexe com autonomia, trabalho, autoestima e com a rotina de quem cuida.
Dalton nasceu em São Paulo, mas vive no Paraná desde os 8 anos. A decisão pela medicina, segundo ele, veio cedo e nunca teve uma segunda opção real. “Eu nunca pensei em fazer nada diferente de ser médico”, diz. A influência principal foi familiar. “Problemas de saúde dentro da família, talvez sejam a principal influência. Desde pequeno, frequentando consultórios e hospitais.” Ele lembra que a convivência com o ambiente hospitalar não era algo atraente pelo lugar em si, mas pelo sentido. “Aquilo me fez pensar em alguma profissão, em querer estar, talvez, do outro lado”, conta.
Na graduação, a escolha pela cirurgia foi definida logo no início. A neurocirurgia apareceu como um caminho que reunia afinidade e inquietação. Dalton explica que, quanto mais estudava, mais percebia o quanto ainda se sabe pouco sobre o sistema nervoso. “Eu notei que sabemos muito pouco sobre o sistema nervoso central e periférico. Então eu decidi me aprofundar mais nessa área”, afirma. Ele também cita uma característica que considera particular da especialidade. “Neurocirurgia só o neurocirurgião faz.”
Formado em Maringá (PR), em faculdade pública, ele diz que a estrutura acadêmica ajudou a consolidar uma base técnica e científica. “Desde sempre, tive uma formação muito sólida, voltada não só para formação técnica, acadêmica, mas também científica, dentro de pesquisa.” Ele afirma que realizou pesquisas durante a graduação com apoio institucional brasileiro.
Depois de formado, trabalhou alguns anos e sentiu o impacto de atuar sem especialização. “Senti realmente o que é ser um médico recém-formado, sem especialização, no Brasil.” Para ele, a residência foi o caminho mais consistente para se aprofundar. “O padrão ouro de formação do médico especialista no Brasil é a residência”, diz. Ele descreve a rotina do período como intensa e sustentada por apoio familiar. “Eu trabalhava cerca de 100 horas por semana. Eu saía às 5 e meia da manhã e não tinha hora para voltar. O apoio familiar foi fundamental.”
O plexo braquial e os nervos periféricos
Durante a residência, Dalton viveu a formação ampla do neurocirurgião, com cirurgias de cérebro e coluna, além de outras frentes da especialidade. Ainda assim, diz que havia uma lacuna quando o tema era nervo periférico e plexo braquial. “A cirurgia de plexo braquial, de nervos periféricos, por termos poucas pessoas que fazem, acabamos não aprendendo também”, explica. Ele considera que essa falta de vivência contribui para diagnósticos tardios e para uma percepção equivocada que ainda circula. “Até pouco tempo atrás, o que se divulgava é de que lesão de plexo braquial, lesão de nervo periférico, não tem o que fazer.”
Foi nesse contexto que ele buscou formação fora. Primeiro, ainda durante a residência, fez uma passagem de 15 dias na Argentina com o neurocirurgião Mariano Socolovsky, ligado à Universidade de Buenos Aires. “Eu fui estagiar uma primeira vez, durante a minha residência, lá na Argentina. Fiquei 15 dias com ele. Próximo ao término da residência, retornei a Buenos Aires para um treinamento mais longo.”
O interesse cresceu também por se tratar de um território pouco explorado na própria formação. “Eu me interessei muito, porque eu não sabia nada. Eu não aceito não saber nada de uma coisa que me interessa. Lá também aprendi sobre a combinação entre técnica e humanidade. Esse lado humano eu procuro aplicar todos os dias, seja em cirurgia, seja em atendimento. Isso faz a diferença até em resultados.”
Ele reforça que o foco em nervos periféricos não apaga o restante da formação. “Eu ainda opero cérebro e coluna, por ser um neurocirurgião de maneira geral. Mas eu me dedico mais a essa área.”
O que é o plexo braquial e por que a lesão muda a vida
Para explicar o plexo braquial, Dalton começa pela divisão do sistema nervoso. “O sistema nervoso é dividido em duas principais partes, central e periférico. Central é cérebro e medula.” O plexo braquial faz parte do periférico e conecta a medula cervical ao funcionamento dos membros superiores. “Os plexos braquiais são os nervos que saem da medula cervical. São cinco principais nervos que vão fazer, basicamente, toda a função dos braços. Mover e sentir.” Ele lembra que esses nervos se distribuem em ramos, com funções diferentes para ombro, braço, antebraço e mão, o que faz com que cada lesão tenha um desenho particular de sintomas.
A localização anatômica também ajuda a entender por que o trauma aparece com frequência. Ele descreve o plexo como uma estrutura vulnerável por passar perto da clavícula, em uma região exposta a impacto. Em traumas de alta energia, especialmente em acidentes de moto, o choque pode alcançar essa rede de nervos e comprometer movimentos e sensibilidade. “O plexo braquial passa logo embaixo da clavícula e acaba ficando muito exposto.”
Tempo do nervo e diagnóstico precoce
Quando fala de tempo, Dalton descreve um processo biológico que costuma ser desconhecido fora do consultório. “O nervo periférico, a partir do momento que é lesionado, do ponto de lesão para frente ele vai se degenerando – é a Degeneração Walleriana.” Ele explica que essa degeneração pode alcançar a conexão do nervo com o músculo, a chamada placa motora. Quando essa ligação se perde, o músculo deixa de responder. “A placa motora morre junto com o restante do nervo.” O ponto central, segundo ele, é que existe um limite prático para a recuperação muscular quando a placa motora deixa de existir. “Você não tem mais a capacidade de acordar esse músculo.”
Por isso, ele sustenta que há uma janela de tempo que costuma orientar decisões clínicas, sempre com variações caso a caso. “A capacidade de reabilitar a função deste nervo, está dentro de seis meses, dentro de um ano.” Ele completa com a lógica que se repete no consultório. “Se você opera antes, melhor.” Ainda assim, ele reforça que essas referências não substituem a avaliação especializada, justamente para evitar dois extremos, perder tempo quando havia indicação e operar quando a recuperação espontânea era provável. “Nem sempre é cirúrgico. A grande maioria sofrerá um trauma e vai recuperar.”
O que mais atrasa a chegada do paciente, na visão dele, não é o medo da operação, mas sim o reconhecimento do problema e o encaminhamento correto. Ele também menciona a desinformação como parte desse atraso. “É o diagnóstico e má informação, informação desencontrada.” Dalton diz que ainda encontra pacientes que recebem orientações desatualizadas. “Até hoje, ainda muitas pessoas recebem essa infeliz notícia de que não tem o que fazer.” A consequência, segundo ele, é direta. Quando a busca por ajuda acontece tarde demais, a janela biológica pode ter passado.
Há também uma recomendação que ele considera arriscada quando aplicada de modo automático, como se fosse uma regra para todos. “Vamos esperar três meses.” Dalton alerta que, em alguns casos, esse intervalo custa músculo e função. “Às vezes três meses são o suficiente para perder músculo.”
Entre os mitos que mais encontra, destaca dois, a crença de que não existe tratamento e a crença de que sempre é cedo para tratar. “Primeiro mito é a questão de não ter o que fazer. O segundo mito é que, muitas vezes, há sim o que fazer antes de três meses.”

Sinais de alerta depois do trauma e a dor que o paciente não sabe explicar
Dalton diz que a suspeita de lesão nervosa pode começar por uma sensação de que o paciente tem dificuldade de descrever. “Uma dor esquisita, uma dor estranha.”. Ele explica que esse desconforto nem sempre se parece com dor muscular ou óssea. Ele fala que é uma dor esquisita mesmo. Uma hora está quente, uma hora está frio. Parece um choque. A dor pode vir acompanhada de formigamento, diminuição da sensibilidade ou ausência completa de sensação. “Vai desde um formigamento, uma sensação de choque, uma diminuição da sensibilidade, até a ausência de sensação.” Quando a lesão envolve fibras motoras, o sinal pode ser a perda de força. Para o médico, o conjunto de dormência, choques, sensação térmica incomum e fraqueza, especialmente após trauma de alta energia, precisa ser levado a sério.
Outra dúvida frequente é a confusão com problemas de coluna. Dalton é claro ao dizer que, muitas vezes, não dá para distinguir o que é origem periférica e o que é origem vertebral. “Muitas vezes não tem como diferenciar. É preciso passar com um especialista para ser examinado.” Ele cita, porém, algumas pistas de neuropatia compressiva, como a síndrome do túnel do carpo, quando o incômodo aparece mais à noite.
Quando a cirurgia entra e o que são transferências nervosas
Dalton afirma que nem todo caso exige cirurgia. “Nem sempre é cirúrgico. A maioria vai sofrer um trauma e se recuperar.” O ponto central é reconhecer quem pode esperar e quem não pode. Para ele, essa distinção depende de vivência, exame físico cuidadoso e leitura do tempo, para que o paciente não perca a janela de tratamento quando ela existe.
Ao falar de transferências nervosas, ele usa uma comparação que o paciente entende. “É um empréstimo com juros.” A ideia, segundo ele, é utilizar um nervo doador que esteja íntegro e redirecionar parte dessa função para um nervo lesionado, com o cuidado de não comprometer a função global do membro. “Você opta por um nervo doador que esteja íntegro.” Ele não esconde que existe um custo, ainda que calculado. “Você vai acabar tirando um pouquinho da função do músculo que esse nervo inerva.” Por isso, a escolha busca ramos e trajetos que permitam redistribuição funcional. Dalton ressalta que as técnicas usadas hoje foram consolidadas com estudo e tentativa, e que a indicação precisa ser criteriosa.
Pós-operatório, fisioterapia e os três pilares da reabilitação
Em casos complexos, Dalton afirma que a cirurgia pode ser longa. “São cirurgias que vão de 4 até 11 horas.” Ele descreve o procedimento como minucioso, realizado com microscopia, e destaca que o incômodo mais frequente no pós-operatório nem sempre é causado pela operação. “O que incomoda o paciente é a dor, mas essa dor não é da cirurgia, a dor é da lesão do nervo.” Ele também prepara o paciente para oscilações ao longo da reinervação. “À medida que vai reinervando, a dor às vezes pode piorar, mas depois melhora”, garante.
Depois da cirurgia, ele cita um período padrão de imobilização. “Os pacientes têm que ficar 21 dias com o braço imobilizado.” Em seguida, vem a parte que ele considera indissociável do tratamento. “Cirurgia de nervo periférico é igual a fisioterapia.” Para ele, o resultado depende do acesso e da constância, porque é a reabilitação que sustenta, na prática, a recuperação possível.
Quando resume orientações para quem está no caminho da reabilitação, ele insiste em três pilares. “Fisioterapia é fundamental, o apoio familiar junto com apoio psicológico e paciência.” A paciência se explica pela velocidade de recuperação do nervo. “Com as melhores técnicas de transferência nervosa, esperamos um início de retorno funcional a partir de uns 3, 4 meses.” Em outras situações, a espera é maior. “Outras reconstruções muitas vezes levam 8 meses, um ano.” O tempo, nesse caso, não é só clínico. Ele mexe com autonomia, trabalho, autoestima e dinâmica familiar, o que torna a rede de apoio tão decisiva quanto o procedimento em si.
Neuropatias compressivas, desfiladeiro torácico e tumores de nervo periférico
Além do trauma do plexo braquial, Dalton diz que recebe lesões de nervos periféricos por violência e por acidentes de trabalho. “Armas de fogo, armas brancas, ou acidentes de trabalho em outros nervos.” Ele também cita neuropatias compressivas, que podem estar relacionadas a repetição, postura e alterações anatômicas. Nesse grupo, ele menciona quadros que atingem diferentes regiões do corpo, incluindo compressões no cotovelo e no tornozelo, além de síndromes muito frequentes no dia a dia.
Um capítulo que ele faz questão de destacar é a síndrome do desfiladeiro torácico, justamente pela complexidade. “Essa envolve coluna, envolve plexo braquial, envolve vascular.” Por cruzar áreas e produzir sintomas que se misturam, ela tende a gerar confusão diagnóstica e exige avaliação criteriosa para não reduzir um quadro amplo a uma explicação única.
Dalton também inclui, entre as condições que aparecem no consultório, os tumores de nervo periférico. “São bastante comuns. A grande maioria, graças a Deus, benignos.” Ele ressalta que, em muitos casos, o objetivo é retirar a lesão sem prejudicar a função. “Muitos deles podem ser operados sem uma lesão do nervo. Você consegue tirar esse tumor sem prejudicar a função do nervo.” Nesse tipo de cirurgia, ele diferencia a abordagem cuidadosa da ideia de interromper o nervo e tentar reconstruí-lo depois, porque, sempre que possível, a preservação da função muda o pós-operatório e o resultado de longo prazo.
Tecnologia na cirurgia de nervos periféricos e o que ainda depende do treinamento
Na cirurgia de nervos periféricos, Dalton não aposta em uma promessa tecnológica como ponto de virada imediato. Ele afirma que o núcleo do trabalho ainda é exame clínico, diagnóstico bem-feito e treinamento técnico. “Infelizmente não tem grandes evoluções. Ainda é muito o médico, o seu treinamento e a capacidade de diagnóstico.” O microscópio, segundo ele, é uma ferramenta consolidada na neurocirurgia e também na cirurgia de nervos periféricos, permitindo a delicadeza necessária em estruturas pequenas e sensíveis.
Ele menciona que já houve tentativas de soluções como enxertos artificiais, mas com limitações, e cita recursos de acompanhamento intraoperatório, como monitorizações neurofisiológicas. Ainda assim, o que decide o rumo do paciente continua sendo uma sequência clássica, reconhecer o tipo de lesão, entender o tempo daquele caso e escolher a estratégia mais adequada para preservar e recuperar a função.
Em outras frentes da neurocirurgia, como cirurgia de coluna, ele vê um cenário mais acelerado, com robótica e endoscopia já em progresso. No nervo periférico, a tecnologia ajuda, mas não substitui a experiência. A precisão depende do treino, da leitura clínica e da capacidade de traduzir para o paciente o que é possível esperar em cada etapa.
Prevenção no dia a dia e prudência no trânsito
Na prevenção das neuropatias compressivas, Dalton aponta atitudes simples e replicáveis, especialmente para quem trabalha com movimentos repetitivos ou longas horas na mesma posição. “De tempos em tempos, você se alongar no serviço, procurar mudar a postura, fazer um estudo ergonômico do seu ambiente de trabalho.” Ele também relaciona atividade física e fortalecimento a uma proteção indireta, por melhorar o suporte muscular e articular em torno dos trajetos nervosos. “Você tem que ter músculos fortes e alongados.” Ao falar de hábitos atuais, ele observa que, hoje, mais pessoas cuidam do corpo e praticam esporte, o que pode ser benéfico quando feito com orientação e regularidade.
No trauma de plexo braquial, ele desloca o tema para uma camada social mais ampla, porque muitas lesões graves nascem de imprudência e risco elevado. “A medida de proteger isso é educação de trânsito mesmo.” Para ele, é um assunto que passa por comportamento, mas também por mudanças estruturais, envolvendo educação e engenharia, já que acidentes de alta energia seguem sendo uma das portas de entrada para lesões complexas.
Planos e atualização constante
Dalton diz que está finalizando o doutorado e pretende defender ainda este ano, caso os prazos se confirmem. Ele menciona a intenção de buscar formas mais modernas de atendimento, com plataformas que facilitem processos e agilizem etapas, sem perder o foco no cuidado. Para ele, atualizar não é um detalhe da carreira médica. “Na área da saúde, não tem como ficar sem se atualizar.” O estudo, segundo ele, é diário e precisa ser acompanhado de contato com a comunidade científica. “Tem que estudar todos os dias e participar de congressos, participar de eventos”, ressalta.
Ele também destaca a importância de acompanhar a produção internacional. “As inovações em temas de medicina vêm principalmente do exterior, a grande maioria delas, por isso, aprender outro idioma é imprescindível.” E reforça que esse esforço não é um adorno curricular. Em áreas pouco difundidas, como plexo braquial e nervos periféricos, informação correta e encaminhamento cedo podem mudar completamente a trajetória do paciente, inclusive quando a decisão é observar e reabilitar, e não operar. “Não perca a esperança, não perca a fé, porque você precisa de um diagnóstico e vai precisar de tempo para recuperar.”
CRM: 25608/PR | NEUROCIRURGIA – RQE Nº: 21746
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