Antes do diagnóstico, Carlos Eduardo Azevedo olha para a vida real
Com atuação em ombro e cotovelo, o ortopedista defende uma prática guiada por escuta, clareza, reabilitação e qualidade de vida

A medicina esteve presente desde cedo na vida de Carlos Eduardo Abreu Azevedo, mas não se impôs como um destino imediato. Filho de ortopedista, cresceu em contato com esse universo, embora a decisão de seguir a profissão só tenha amadurecido no fim do ensino médio. A escolha por uma carreira cirúrgica também levou tempo. Durante boa parte da graduação, esse ainda não era o caminho mais evidente. A ortopedia se definiu apenas no último ano da faculdade. Já o recorte para ombro e cotovelo veio depois, ao fim da residência, quando encontrou uma área em que técnica, função e relação com o paciente precisavam caminhar juntas.
Essa formação gradual ajuda a explicar o modo como ele enxerga o próprio trabalho. Em sua visão, a consulta não começa no exame nem termina no procedimento. Antes de qualquer diagnóstico, existe quase sempre uma rotina alterada pela dor, uma limitação que se impõe aos poucos e uma pessoa tentando entender até que ponto o corpo ainda responde como antes.
Origens e formação
A escolha pela ortopedia não nasceu de uma convicção antiga, mas do contato direto com a prática. Carlos Eduardo conta que, ao acompanhar mais de perto a especialidade, passou a enxergar nela uma dinâmica que o atraía mais do que a cirurgia geral.
O que lhe chamou atenção foi a variedade dos casos, dos procedimentos e das possibilidades de atuação.
“Na ortopedia, cada dia apresentava um desafio diferente. Não era um campo restrito a um único tipo de abordagem. Havia cirurgias, redução de fraturas, imobilizações e situações muito diversas. Essa dinâmica despertou mais interesse em mim do que em outras áreas cirúrgicas. ”
Mais tarde, já no fim da residência, decidiu seguir para a área de ombro e cotovelo. Foi então que deixou Macaé temporariamente para aprofundar a formação nessa especialidade. Ao concluir essa etapa, retornou à cidade para atuar no consultório da família, que mais tarde se consolidou como clínica.
“Esse período foi muito importante para mim. Aprendi medicina, evidentemente, mas também sobre escuta, convivência e relação com o paciente. Na especialização, havia mais tempo para observar, conversar e compreender melhor as pessoas. Isso teve um papel fundamental na formação do profissional que sou hoje. ”
Foi nessa mesma fase que conheceu a esposa, o que torna esse momento ainda mais marcante em sua trajetória.

A virada profissional e o amadurecimento da prática
De volta a Macaé, Carlos Eduardo passou a atender no Instituto de Traumatologia Azevedo, ao lado do pai e do irmão. O que começou como um consultório se expandiu e se estruturou como uma clínica voltada integralmente à ortopedia. Nesse retorno, há uma continuidade familiar, mas também a consolidação de um modo próprio de exercer a profissão.
Quando fala em atendimento humanizado, sua definição é direta. Para ele, humanizar significa tratar com respeito, ouvir com atenção, explicar com clareza e sustentar a verdade, mesmo quando ela implica frustração de expectativas.
“O atendimento humanizado, para mim, passa por respeito, empatia e cuidado genuíno com a pessoa. É ouvir com atenção, compreender as dúvidas que ela traz e explicar, com clareza e cordialidade, até onde o tratamento pode ir e quais são seus limites. ”
Esse ponto é central em sua abordagem. Há, segundo ele, pacientes que chegam desacreditados, enquanto outros depositam no tratamento expectativas incompatíveis com a realidade clínica. Entre esses extremos, entende que cabe ao médico encontrar um equilíbrio entre acolhimento e honestidade.
“Muitas vezes, o paciente chega esperando uma solução imediata. Em outras, chega sem esperança. Meu papel é organizar essa expectativa com seriedade, sem dureza, mas também sem criar ilusões. ”
O que faz na prática
Na rotina do consultório, Carlos Eduardo afirma que prefere começar pelo essencial: pergunta o nome, a profissão, a origem e os hábitos de lazer do paciente. Para ele, essas informações têm valor clínico concreto, especialmente em uma área em que trabalho, postura, repetição de movimentos e estilo de vida podem interferir diretamente na dor e na lesão.
“Na minha prática, entender a profissão e o lazer do paciente faz muita diferença. Muitas vezes, ele acredita que determinado hábito não tem relação com a queixa, e tem. Em outras, atribui ao movimento errado uma importância que não corresponde ao quadro. Esse contexto ajuda muito a orientar. ”
No dia a dia, lida com quadros recorrentes do ombro, como tendinite calcária e lesões do manguito rotador, além de condições frequentes do cotovelo, como a epicondilite. Ao explicar essas alterações, busca manter o conteúdo técnico sem afastar o paciente da compreensão do que está vivendo.
“A lesão do manguito pode ter componente degenerativo, mas também envolve fatores mecânicos. Há um processo de atrito e inflamação que, aos poucos, pode comprometer o tendão até uma ruptura. Já na tendinite calcária, ocorre um depósito de cálcio em local inadequado, o que desencadeia um processo inflamatório bastante doloroso. ”
No cotovelo, ele chama atenção para a recorrência da epicondilite, especialmente em pessoas submetidas a esforço manual repetitivo.
“A epicondilite é um quadro frequente, sobretudo em quem realiza trabalho braçal ou movimentos repetidos. Ela pode melhorar e reaparecer, principalmente quando o fator desencadeante não é identificado e corrigido. ”
O lado humano da dor e da decisão
Mais do que a lesão em si, o que atravessa sua fala é o impacto da dor na vida cotidiana. Carlos Eduardo observa que muitos pacientes demoram a procurar avaliação e acabam normalizando sintomas que já comprometeram o sono, o trabalho, a autonomia e o convívio.
“Há pacientes que convivem por meses com uma dor recorrente, especialmente à noite, ou com limitação para elevar o braço e alcançar objetos acima da cabeça. Aos poucos, passam a adaptar a rotina a essa limitação, como se fosse natural. E não é.”
As dúvidas mais frequentes revelam a mesma tensão: o medo da cirurgia, a preocupação com o pós-operatório, o afastamento do trabalho e a possibilidade de retomar a vida habitual. Por isso, ele reforça que nenhuma etapa do cuidado funciona de forma isolada e que a reabilitação tem papel decisivo em qualquer condução terapêutica.
“Nenhum recurso, seja clínico ou cirúrgico, substitui um processo adequado de reabilitação. Sem adesão, acompanhamento e compromisso com essa etapa, o tratamento perde força. ”
Ao falar sobre o que deseja construir em Macaé, Carlos Eduardo evita formulações grandiosas e resume esse objetivo a dois princípios que considera inegociáveis: “Se eu tivesse de pensar em um legado, ele estaria ligado à dedicação e à ética. A medicina precisa ser exercida com seriedade, responsabilidade e compromisso verdadeiro com quem está diante de nós. ”
O futuro, segundo ele, passa pela consolidação do serviço e pela ampliação, com qualidade, dos recursos oferecidos dentro da própria especialidade. Ainda assim, há um ponto ao qual sua fala sempre retorna:
“A dor não pode se tornar a referência da vida de alguém. Quando persiste, compromete o sono, a autonomia, os afetos e a forma como a pessoa vive o cotidiano. Por isso, precisa ser olhada não apenas do ponto de vista técnico, mas também com escuta, respeito e humanidade.”
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