Aline Barbosa Moraes fala sobre as glândulas adrenais e o olhar humano na medicina
Endocrinologista e professora da UFF, médica reflete sobre os avanços no estudo das doenças das adrenais e a importância da empatia na prática clínica

Com raciocínio clínico refinado e uma curiosidade que a acompanha desde a adolescência, a médica Aline Barbosa Moraes construiu uma trajetória marcada pela busca constante por conhecimento e pela vontade de compreender o corpo humano em profundidade. Endocrinologista com destaque para atuação em doenças das glândulas adrenais e professora adjunta da Universidade Federal Fluminense (UFF), ela combina a precisão da pesquisa científica com o acolhimento humano no consultório. “Aprendi cedo que a anamnese é a base de tudo. É ouvindo com técnica e empatia que o raciocínio clínico se acende”, afirma.
Filha única e cercada por uma família ligada às exatas, Aline cresceu entre plantas de arquitetura e cadernos de desenho. Aos 13 anos, uma aula de ciências despertou o que ela chama de “fascínio precoce pelo corpo humano”. “Eu estudava os seres vivos com interesse, mas quando estudei o corpo humano, senti que ali havia algo diferente. Aos 15 anos, decidi que faria medicina.”
Durante a graduação, a afinidade com bioquímica e fisiologia indicou o rumo da especialização. Fascinada por como o corpo se comunica através dos hormônios, Aline escolheu a endocrinologia por ser, segundo ela, uma das áreas mais desafiadoras e complexas. “A forma como uma molécula desencadeia respostas no organismo me encanta. Gosto de estudar o corpo humano e suas interações — é uma especialidade que exige olhar global e atenção ao detalhe”, diz.
Em 2007, após a Especialização no Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia (IEDE) em parceria com a PUC-Rio, Aline iniciou a carreira atuando nos ambulatórios de obesidade e transtornos alimentares. Lá, descobriu a importância da abordagem multidisciplinar e da integração entre endocrinologia, nutrição, psicologia e psiquiatria.
“A endocrinologia pede pontes. Não existe cuidado real sem equipe, sem diálogo entre as áreas”, afirma. A curiosidade da médica pela interface entre a hipófise e as demais glândulas endócrinas a levou ao mestrado em neuroendocrinologia pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e, posteriormente, ao doutorado em doenças das adrenais — área que se tornou o centro em sua carreira. “Eu queria estudar o que era desafiador. As adrenais oferecem perguntas difíceis e impacto clínico direto”, diz.
Doenças adrenais e hipertensão endócrina
Durante o doutorado, no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da UFRJ, Aline analisou densidade mineral e microarquitetura óssea em pacientes com nódulos adrenais e secreção subclínica de cortisol. O estudo revelou que, mesmo sem sintomas evidentes, esses pacientes apresentavam alterações ósseas importantes. “Foi um alerta. Muitos nódulos considerados inócuos podem causar impacto metabólico e cardiovascular”, explica.
Hoje, o tema sobre incidentalomas adrenais — nódulos descobertos incidentalmente em exames de imagens — é um dos mais discutidos na endocrinologia moderna. A médica explica que o primeiro passo é avaliar se a lesão tem risco de malignidade e, depois, se produz hormônios em excesso. “A investigação deve ser cuidadosa. Mesmo os nódulos aparentemente não funcionantes precisam de seguimento, porque podem alterar a glicemia, pressão arterial e prejuízo à saúde óssea podendo até levar a fraturas”, diz.
Outro campo de interesse é a hipertensão endócrina, uma causa hormonal de pressão alta que ainda passa despercebida em muitos diagnósticos. “Hiperaldosteronismo primário, feocromocitoma e síndrome de Cushing são causas tratáveis de hipertensão. Quando diagnosticadas e tratadas adequadamente, mudam completamente o prognóstico do paciente.”
Ela explica que o rastreio, muitas vezes, depende de um olhar clínico atento. “As dosagens da aldosterona e da renina estão disponíveis em alguns laboratórios e a sua interpretação requer cautela. Medicamentos, estresse e variações laboratoriais podem interferir.” Para Aline, a integração com cardiologia e nefrologia é essencial para oferecer um cuidado completo.
Além dos desafios clínicos, há também obstáculos técnicos. “Alguns testes padrão ouro dependem de insumos que o Brasil ainda não produz. Às vezes precisamos de métodos alternativos ou então o diagnóstico fica presumido. É um dilema entre a ciência e a estrutura que temos disponível.”

Humanização, docência e o papel transformador da escuta
A rotina de Aline é dividida entre o consultório — localizado na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, com horários também na Barra da Tijuca — e as salas de aula da UFF. No consultório, o tempo é parte do tratamento. “Não me reconheço na lógica de alta rotatividade. Prefiro o tempo que o caso pede. Endocrinologia é acompanhamento, vínculo e confiança.”
Ela observa que, em doenças crônicas ou raras, o acolhimento é determinante. “A técnica sem empatia falha no essencial: entender o que o paciente consegue sustentar. Às vezes o maior desafio não é ajustar o hormônio, é compreender o que o paciente vive”, frisa.
A docência surgiu como extensão natural desse raciocínio clínico. Desde 2021, Aline leciona endocrinologia e semiologia médica, conduz aulas práticas e mentorias para alunos em formação. “Gosto de mostrar que a entrevista médica estruturada pode ser transformada em uma conversa agradável para haja uma melhor relação médico paciente. Ensinar é assumir a responsabilidade de guiar, o que impõe a obrigação contínua de aprender”, afirma.
As monitorias e estágios clínicos que orienta reforçam a importância da escuta ativa e da ética. “Quando o aluno entende que escutar é parte do diagnóstico, ele muda o jeito de ver a medicina.” Em sala, ela costuma provocar reflexões simples e potentes: “Pergunto sempre: como você gostaria que sua mãe fosse tratada? Essa pergunta muda a postura de quem está começando.”
Entre aulas e atendimentos, a médica, desde janeiro de 2025, iniciou a sua participação na diretoria da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) regional Rio de Janeiro e do Departamento de Adrenal e Hipertensão da SBEM e vem buscando aproximar a especialidade da população sobretudo por meio das redes sociais. “A informação é uma forma de cuidado. Levar conteúdo acessível evita que o paciente caia em modismos ou terapias sem base científica”, diz.
Menopausa, qualidade de vida e o desafio de educar com ética
Nos últimos anos, a endocrinologista passou a receber cada vez mais mulheres buscando orientação para sintomas da perimenopausa e da menopausa — um tema que ela considera urgente e muitas vezes mal interpretado. “Essas fases envolvem alterações físicas, cognitivas e emocionais. A queda hormonal interfere no sono, no humor, na memória, na libido e na composição corporal.”
Aline explica que o endocrinologista é peça-chave nesse processo, tanto para aliviar sintomas quanto para prevenir doenças metabólicas. “A avaliação clínica permite diferenciar o que é efeito hormonal do que pode ser outro distúrbio, como alterações da tireoide ou transtorno de ansiedade. Isso evita tratamentos desnecessários e melhora a qualidade de vida.”
Ela faz um alerta para o uso indevido de testosterona em mulheres. “Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo é diagnóstico clínico, não de laboratório. A testosterona baixa no exame de sangue não explica, por si só, a queixa”, destaca. E complementa: “A testosterona não deve ser indicada rotineiramente. Pode até melhorar a libido, mas a que custo? Acne, queda de cabelo, alteração de voz e efeitos metabólicos deletérios, problemas no coração e no fígado.”
Para ela, o avanço está na educação e na informação. “A mulher precisa ser ouvida e entender as opções seguras. Terapia hormonal na menopausa bem indicada é devolver qualidade de vida, prevenir algumas doenças e não prometer juventude”, reforça.
Em paralelo, a médica segue envolvida em pesquisas sobre doenças das adrenais, além de conciliar carreira e maternidade. “Me preparei para o concurso de Professor em meio à pandemia e à gestação. Desafio não é exceção, é o caminho em busca do seu propósito de vida. Ele orienta escolhas e lapida prioridades”, afirma.
Com a serenidade de quem alia experiência clínica e compromisso acadêmico, Aline resume sua visão sobre medicina, ciência e cuidado: “Acredite na ciência, na escuta atenta e no acompanhamento contínuo. Diagnóstico certo e o tratamento adequado mudam trajetórias; o resto é parceria, um caminho trilhado passo a passo — com clareza, responsabilidade e, acima de tudo, esperança.”
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