Médico esclarece mitos do TEA de Letícia Sabatella e outros famosos: ‘Particularidade neurológica’

Em conversa com a CARAS Brasil, o neurologista Matheus Trilico explicou e esclareceu sobre mitos do TEA, transtorno que Letícia Sabatella sofre; saiba mais

Letícia Sabatella
Letícia Sabatella - Foto: Reprodução / Instagram @leticia_sabatella

Letícia Sabatella (54) falou abertamente sobre o TEA (Transtorno do Espectro Autista) grau um em entrevista ao Fantástico em 2023. A atriz relatou sobre o diagnóstico: “A sensação mesmo foi libertadora. Eu ainda estou nesse flerte de buscar a melhor compreensão sem desespero algum em relação a isso”. A primeira vez que ela falou sobre foi no podcast Papagaio Falante. Em conversa com a CARAS Brasil, o Dr. Matheus Trilico esclareceu os mitos e falou sobre suas características:

O que é o TEA?

O neurologista explica: O Transtorno do Espectro Autista é uma condição neurológica de desenvolvimento, não uma doença. Esta distinção conceitual é fundamental para combater o estigma. Enquanto doenças implicam algo a ser curado, o TEA representa uma variação natural do funcionamento cerebral que acompanha a pessoa desde o nascimento. Pessoas autistas processam informações de forma diferente. O diagnóstico tardio em adultos não indica surgimento recente do autismo, mas sim o reconhecimento de uma neurodivergência sempre presente. Muitos adultos, especialmente mulheres, desenvolvem sofisticadas estratégias de camuflagem social que podem mascarar os sinais por décadas.”

Características

Dentre os fenômenos mais comuns do TEA e da neurodivergência são os hiperfocos: um interesse em algo que gera uma concentração que pode durar longos períodos. Sobre isto, o especialista comenta: “É uma característica neurológica distintiva que permite concentração extremamente intensa e prolongada em áreas de interesse específico. Este fenômeno pode durar horas consecutivas e frequentemente resulta em expertise excepcional em campos particulares. Em profissões criativas, como as artes cênicas, o hiperfoco pode proporcionar preparação meticulosa de personagens e dedicação diferenciada ao trabalho artístico, transformando uma característica neurológica em vantagem profissional.”

O diagnóstico deve ser realizado por um neurologista especializado no assunto. No entanto, o Dr. Matheus aponta alguns comportamentos que são comuns entre indivíduos com TEA, mas reforça que é importante levar em conta a individualidade: Os sinais mais frequentes do TEA incluem dificuldades na comunicação social, padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses específicos intensos e alterações na sensibilidade sensorial. O masking, ou camuflagem social, é particularmente prevalente em mulheres autistas, contribuindo significativamente para o retardo diagnóstico.”

Meltdown e Shutdown

Letícia Sabatella também comentou sobre as crises de explosões, os meltdowns. A atriz disse ao dominical, na época: “São situações que, de algum modo, houve uma injustiça de compreensão, mas a minha vontade era de não ter reagido daquela maneira”. O Dr. Matheus diferencia os dois fenômenos e explica: “São respostas neurológicas distintas à sobrecarga sensorial ou emocional. No shutdown, observamos uma ‘desconexão’ temporária como mecanismo neurológico de proteção; no meltdown, há uma descarga emocional intensa e involuntária. Ambos são respostas neurológicas comuns no TEA.”

O neurologista pontua como lidar com essas situações: As estratégias de manejo mais eficazes incluem: identificação precoce de sinais de sobrecarga através do autoconhecimento, criação de ambientes com estímulos sensoriais reduzidos, implementação de técnicas de autorregulação como respiração diafragmática e estabelecimento de rotinas estruturadas. Para profissionais que trabalham em ambientes altamente estimulantes, é essencial desenvolver planos de contingência e identificar espaços seguros para recuperação.”

TEA e a rigidez cognitiva

Outro ponto é a rigidez cognitiva, caracterizada pela dificuldade em alternar entre diferentes tarefas mentais ou adaptar-se rapidamente a mudanças imprevistas, é uma característica comum no TEA: “Esta particularidade neurológica pode ser transformada em significativa vantagem profissional quando abordada com estratégias adequadas”, alerta o médico.

O neurologista recomenda abordagens específicas: estabelecimento de rotinas estruturadas de preparação profissional, desenvolvimento de scripts mentais para diversas situações e aproveitamento estratégico do hiperfoco para aprofundamento em personagens. “A preparação antecipada para possíveis mudanças, combinada com o desenvolvimento gradual de flexibilidade cognitiva, são elementos-chave para o sucesso”, finaliza Dr. Matheus.

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Dr. Matheus Luis Castelan Trilico é médico pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA); Neurologista com residência médica pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR); Mestre em Medicina Interna e Ciências da Saúde pelo HC-UFPR e tem pós-graduação em Transtorno do Espectro Autista. Referência em Autismo e TDAH em adultos. CRM 35805PR I RQE 24818.