A morte da atriz e cantora Lua Blanco (1987-2026), conhecida por interpretar Roberta na versão brasileira de ‘Rebelde’, aos 39 anos, em decorrência de um câncer de intestino, trouxe atenção para uma questão importante: a doença também pode atingir pessoas mais jovens. A artista faleceu no domingo, 18 de outubro, conforme noticiado pela imprensa.

Embora o câncer colorretal seja mais frequente com o avanço da idade, casos em adultos jovens têm despertado a atenção da comunidade médica. Muitas vezes, a doença se desenvolve silenciosamente e apresenta sintomas que podem ser confundidos com problemas intestinais comuns, o que pode atrasar a investigação.

Em entrevista à CARAS Brasil, a médica Patrícia Almeida, gastroenterologista e hepatologista pela Sociedade Brasileira de Hepatologia, explica como o câncer de intestino pode se desenvolver, quais sinais merecem atenção e por que a prevenção e o rastreamento são fundamentais.

Câncer de intestino pode ser prevenido?

A médica destaca que a evolução do câncer colorretal costuma ser lenta, o que abre uma oportunidade importante para a prevenção. “Não me cabe conjecturar sobre as particularidades do caso. Cabe-nos, isto sim, converter a comoção em conhecimento, pois este é um dos raros cânceres que podem ser prevenidos antes mesmo de se constituírem”, afirma.

Na sequência, Patrícia explica como a doença pode se desenvolver ao longo dos anos. “Na expressiva maioria dos casos, sua gênese é insidiosa: um pólipo, discreta elevação da mucosa intestinal, que pode levar de cinco a dez anos para adquirir comportamento maligno.”

Nesse contexto, a colonoscopia desempenha um papel fundamental. Além de permitir a identificação de alterações no intestino, o exame possibilita a retirada de determinados pólipos durante o próprio procedimento.

“A colonoscopia é o exame mais importante nesse contexto. Mais do que um instrumento diagnóstico, ela permite a ressecção do pólipo no mesmo procedimento, interrompendo a história natural da doença antes que seu primeiro capítulo seja escrito”, explica a especialista.

Lua Blanco
Lua Blanco – Foto: Instagram

Câncer colorretal preocupa pelo aumento de casos

Os números ajudam a dimensionar o desafio. De acordo com a estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA) citada pela médica, o Brasil deve registrar 53.810 novos casos de câncer de cólon e reto por ano entre 2026 e 2028.

Patrícia também chama a atenção para o aumento da incidência em comparação com estimativas anteriores. “Trata-se do terceiro tumor mais incidente no país e daquele que apresentou a ascensão mais expressiva em relação à estimativa anterior: cerca de 30%, frente a aproximadamente 10% dos demais.”

O cenário também preocupa em outros países. Um estudo publicado em 2024 na revista The Lancet Oncology, conforme mencionado pela médica, analisou dados de 50 países e identificou aumento da incidência de câncer colorretal entre pessoas de 25 a 49 anos em 27 deles.

A especialista ressalta que pesquisadores investigam possíveis associações com exposições presentes desde a infância, incluindo alimentação rica em ultraprocessados, sedentarismo, obesidade e alterações da microbiota intestinal.

Outro desafio é reconhecer a doença em pessoas jovens. Como os sintomas podem ser confundidos com problemas intestinais benignos, a investigação nem sempre acontece rapidamente.

“Pesquisadores de Stanford constataram que pacientes mais jovens demoram cerca de 40% mais para obter o diagnóstico, e quase três em cada quatro indivíduos com menos de 50 anos já o recebem em estágio avançado”, afirma.

Quais são os sintomas do câncer de intestino?

Os sinais iniciais podem ser discretos e acabar atribuídos a hemorroidas, estresse ou síndrome do intestino irritável. Por isso, a médica recomenda atenção às mudanças persistentes no funcionamento do organismo.

Entre os principais sintomas do câncer de intestino, estão:

  • Sangue nas fezes ou evacuações enegrecidas;
  • Alteração persistente do hábito intestinal, com constipação ou diarreia sem causa aparente;
  • Afilamento do calibre das fezes;
  • Dor ou desconforto abdominal recorrente;
  • Sensação de evacuação incompleta;
  • Anemia, fadiga ou perda de peso involuntária.

A presença de um desses sinais não significa, necessariamente, que a pessoa tenha câncer. Entretanto, sintomas persistentes precisam ser avaliados por um profissional de saúde, especialmente quando não há uma explicação evidente.

“Nenhuma dessas manifestações, isoladamente, sela o diagnóstico de câncer. Contudo, quando persistem por mais de algumas semanas, não devem ser banalizadas. A escuta atenta do próprio corpo é a primeira e mais acessível forma de prevenção”, orienta Patrícia.

Câncer de intestino pode atingir o fígado?

A médica também explica que o câncer colorretal pode se disseminar para outros órgãos. Quando isso acontece, o fígado costuma ser um dos principais locais atingidos por metástases.

“Quando o câncer colorretal se dissemina, o fígado costuma ser o primeiro sítio de metástases. Não raro, a doença só é revelada a partir de lesões hepáticas, quando o tumor de origem já percorreu um longo trajeto em silêncio”, afirma.

Apesar da gravidade que a disseminação pode representar, existem opções de tratamento. A escolha depende de fatores como o estágio da doença, as características do tumor e as condições clínicas do paciente.

“Mesmo nesse cenário, a medicina avançou de modo notável: cirurgia, quimioterapia e terapias-alvo oferecem controle e, em casos selecionados, a perspectiva de cura. Nenhum arsenal terapêutico, porém, supera a remoção de um pólipo anos antes”, destaca.

Lua Blanco - Foto: Reprodução / Instagram
Lua Blanco – Foto: Reprodução / Instagram

Como prevenir o câncer colorretal?

Além do acompanhamento médico e do rastreamento, alguns hábitos podem contribuir para a redução do risco de câncer colorretal. A especialista destaca medidas relacionadas à alimentação, à atividade física e ao consumo de substâncias associadas a prejuízos à saúde.

Uma parcela significativa do risco está sob nosso domínio. Entre as medidas de benefício comprovado:

  • Dieta abundante em fibras: verduras, frutas, legumes, cereais integrais e leguminosas;
  • Restrição a embutidos e carnes processadas, com moderação no consumo de carne vermelha;
  • Parcimônia com o álcool e abstenção completa do tabaco;
  • Atividade física regular e manutenção do peso adequado.

O rastreamento também é uma parte essencial da prevenção. Segundo Patrícia, diretrizes internacionais recomendam que pessoas sem fatores de risco iniciem esse acompanhamento aos 45 anos.

Já quem tem histórico familiar de câncer colorretal, doença inflamatória intestinal ou síndromes hereditárias pode precisar começar mais cedo, conforme orientação especializada.

“A partida precoce de Lua Blanco nos recorda que a juventude não confere imunidade. Precisamos aprender a não silenciar os sinais do próprio corpo e não postergar o exame capaz de redesenhar o desfecho de uma vida. O intestino fala em voz baixa. Cabe a nós cultivar a sensibilidade para escutá-lo.”

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