Você sabia que Clara Nunes teve uma carreira muito diferente antes de se tornar uma das maiores vozes do samba brasileiro? Nascida em 12 de agosto de 1942, em Caetanópolis, Minas Gerais, a cantora começou a trabalhar ainda adolescente como tecelã e, anos depois, também passou pelo cinema, em uma fase pouco lembrada de sua carreira. O caminho até a consagração na música popular brasileira foi marcado por trabalho, estudos, rádio, televisão e até participações em filmes.

Clara Nunes, que completaria 84 anos na última quarta-feira, 12, construiu uma carreira que ultrapassou os limites do samba. Antes de se tornar conhecida por sucessos como ‘O Mar Serenou’, ‘Conto de Areia’, ‘Morena de Angola’ e ‘Canto das Três Raças’, ela precisou conciliar o trabalho em uma fábrica de tecidos com os estudos e as primeiras oportunidades como cantora.

Mas existe um detalhe ainda mais curioso nessa história: Clara Nunes também esteve no cinema. Entre 1966 e 1968, a artista participou de três produções cinematográficas, interpretando músicas em filmes ligados ao cenário musical da época.

Você sabia que Clara Nunes começou como tecelã?

A história de Clara Nunes começou longe dos grandes palcos. Aos 14 anos, para ajudar no sustento da família, ela ingressou como tecelã na fábrica Cedro & Cachoeira, em Caetanópolis, a mesma empresa onde seu pai havia trabalhado. A informação é registrada pelo Dicionário Cravo Albin e também aparece em levantamento publicado pelo Jornal da Unesp.

Quando se mudou para Belo Horizonte, em 1957, a futura cantora continuou trabalhando como tecelã durante o dia. À noite, fazia o curso normal para formação de professoras e, nos fins de semana, participava de ensaios de coral.

A rotina mostra uma fase pouco conhecida da vida da artista: antes da fama, Clara Nunes dividia o tempo entre trabalho, estudos e música.

Foi nesse período que ela começou a ganhar espaço nos programas de rádio. O violonista Jadir Ambrósio ficou impressionado com sua voz e passou a levá-la para apresentações, incluindo o programa ‘Degraus da Fama’, no qual ela ainda usava o nome de batismo, Clara Francisca.

Clara Nunes – Foto: Instagram

E quando Clara Nunes chegou ao cinema?

A passagem de Clara Nunes pelo cinema aconteceu justamente durante uma fase de transformação de sua carreira. Em 1966, a cantora interpretou Amor quando é amor, de Niquinho e Othon Russo, no filme Na onda do iê-iê-iê, dirigido por Aurélio Teixeira. A produção reunia diversos artistas ligados ao cenário musical da época e marcou uma aproximação de Clara com o universo da Jovem Guarda.

No ano seguinte, Clara Nunes voltou às telas. Dessa vez, interpretou a marcha Carnaval na onda, de José Messias, no filme Carnaval Barra Limpa, dirigido por J.B. Tanko. A Cinemateca Brasileira confirma a presença de Clara Nunes no elenco da produção.

Em 1968 veio a terceira e última participação da cantora no cinema. Clara interpretou Não consigo te esquecer, de Elizabeth, no filme Jovens Pra Frente, dirigido por Alcino Diniz e estrelado por Rosemary, Jair Rodrigues e Oscarito. Depois dessa experiência, sua trajetória artística tomou outro rumo, com uma aproximação cada vez maior do samba.

Assim, a passagem de Clara Nunes pelo cinema ficou registrada em três filmes, em um período anterior à consolidação definitiva de sua identidade como uma das principais intérpretes do samba brasileiro.

O que fez Clara Nunes abandonar essa fase?

A mudança de direção na carreira aconteceu gradualmente. No começo, Clara Nunes cantava boleros e sambas-canção. Seu primeiro LP oficial, ‘A Voz Adorável de Clara Nunes’, lançado em 1966, tinha justamente esse perfil. O disco, porém, não alcançou o sucesso esperado.

Dois anos depois, a artista lançou ‘Você Passa e Eu Acho Graça’, música de Ataulfo Alves e Carlos Imperial que se tornou seu primeiro grande sucesso radiofônico e ajudou a consolidar sua aproximação com o samba.

A partir daí, sua identidade artística ficou cada vez mais ligada ao gênero. Clara também passou a incorporar referências da cultura afro-brasileira em sua música, em suas pesquisas e em sua estética.

A transformação que levou Clara Nunes ao sucesso

A carreira de Clara Nunes ganhou uma dimensão ainda maior na década de 1970. Em 1974, o álbum ‘Alvorecer’ alcançou mais de 300 mil cópias vendidas, segundo registros biográficos reunidos sobre a cantora. O sucesso consolidou Clara como um dos grandes nomes da música brasileira e ampliou a presença feminina no mercado fonográfico.

A artista também se tornou uma das principais intérpretes de compositores ligados à Portela, sua escola de samba do coração. Ao longo da carreira, pesquisou ritmos brasileiros, folclore e manifestações culturais, além de viajar para outros países representando a cultura brasileira.

Segundo a TV Brasil, Clara Nunes vendeu cerca de quatro milhões de LPs e acumulou 18 discos de ouro durante sua trajetória.

O contraste entre o início humilde e o reconhecimento alcançado ajuda a dimensionar a trajetória da cantora: a tecelã que conciliava trabalho e estudos se transformou em uma das vozes mais marcantes do samba brasileiro.

Clara Nunes – Foto: Instagram

Qual é o legado de Clara Nunes?

Clara Nunes morreu em 2 de abril de 1983, aos 40 anos, após complicações relacionadas a uma cirurgia de varizes. A TV Brasil registra que a cantora sofreu uma complicação envolvendo um componente do anestésico utilizado no procedimento. Mesmo com uma carreira interrompida precocemente, seu legado permaneceu vivo.

A Portela homenageou Clara Nunes no Carnaval de 1984 com o enredo ‘Contos de Areia’, que ajudou a levar a escola ao título daquele ano. Décadas depois, em 2019, a agremiação voltou a celebrar a trajetória da cantora com um enredo inspirado em sua obra.

Sua cidade natal também mantém espaços dedicados à memória da artista, incluindo o Memorial Clara Nunes e a Casa de Cultura Clara Nunes. O Dicionário Cravo Albin registra ainda a preservação de peças de vestuário, adereços e objetos pessoais da cantora.

Clara Nunes – Foto: Instagram

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