Na década de 1970, Sebastião Salgado recebeu de sua esposa, Lélia Wanick Salgado, o livro Vanishing Africa, da fotógrafa Mirella Ricciardi, que o impactou a ponto de fazê-lo abandonar a carreira de economista para se dedicar integralmente à fotografia. Essa decisão marcou o início de uma trajetória que o consagraria como um dos maiores fotógrafos documentais do mundo.

Hoje, o legado de Salgado vai além das imagens em preto e branco que captaram a opressão política e econômica em países em desenvolvimento. Ele também é reconhecido por seu ativismo ambiental, especialmente pelo trabalho à frente do Instituto Terra, que lidera esforços de reflorestamento na Mata Atlântica, região que sofreu forte degradação e que Salgado conhece desde a infância, quando cresceu em uma fazenda no vale do Rio Doce, Minas Gerais.

Da economia à fotografia documental

O impacto do livro de Mirella Ricciardi foi decisivo para a mudança de rumo na vida de Salgado. O fotógrafo, que até então atuava como economista, viu nas imagens da África um chamado para contar histórias por meio da fotografia. Ao longo de 30 anos, ele percorreu mais de 120 países, registrando em preto e branco a dignidade humana e as dificuldades enfrentadas por trabalhadores, migrantes e populações marginalizadas.

Fundação do Instituto Terra e reflorestamento na Mata Atlântica

Em 1998, Salgado e sua esposa fundaram o Instituto Terra em uma área de 600 hectares na fazenda da família, em Aimorés, Minas Gerais. O objetivo era realizar um projeto de reflorestamento na Mata Atlântica, uma das regiões mais ameaçadas do Brasil. De acordo com o UOL, o casal plantou mais de três milhões de árvores nativas na bacia do Rio Doce, recuperando mais de dois mil hectares de floresta. Lélia Wanick Salgado declarou à Folha que, ao ver a degradação da área, sentiram uma tristeza profunda: “Tudo o que a gente poderia fazer ali era plantar árvores para recuperar tudo”.

O Instituto Terra se tornou uma ONG de referência mundial em restauração ecossistêmica, educação ambiental e desenvolvimento rural sustentável, conforme afirmou a própria organização. Apesar de enfrentar desafios e até perdas iniciais de mudas, o trabalho persistiu e hoje é exemplo de recuperação ambiental.

Projeto Gênesis: a natureza em foco

A partir de 2004, Salgado iniciou o projeto Gênesis, que buscava fotografar paisagens, animais e tribos indígenas em locais intocados ou recuperados da natureza. O fotógrafo percorreu mais de 30 países, produzindo 245 obras em preto e branco que foram expostas, entre outros lugares, no Museu Nacional de Cingapura em 2014. Salgado descreveu os oito anos dedicados ao projeto como um período de profundo prazer, revelando seu compromisso com a conscientização ambiental.

Reconhecimento global e continuidade do legado

Além do impacto artístico, o trabalho ambiental de Salgado ganhou reconhecimento mundial. O Instituto Terra, liderado por ele e sua esposa, continua ampliando os esforços de reflorestamento e educação ambiental. Segundo o UOL, o financiamento do projeto contou parcialmente com a mineradora Vale, o que gerou críticas devido ao rompimento da barragem do Rio Doce, mas o casal manteve o compromisso com a recuperação da região.

O documentário O Sal da Terra, indicado ao Oscar em 2015 e dirigido por Win Wenders em parceria com o filho de Salgado, Juliano Ribeiro Salgado, também contribuiu para divulgar sua trajetória e sua visão sobre a relação entre o homem e a natureza.

Até pouco antes de sua morte, aos 81 anos, Sebastião Salgado permaneceu ativo na promoção da exposição Amazônia e nos projetos do Instituto Terra, conforme revelou sua esposa à Globo. Diagnosticado com leucemia, decorrente da malária contraída em expedição na Papua-Nova Guiné, ele enfrentou a doença com a mesma determinação que marcou sua vida profissional e pessoal.

O fotógrafo Sebastião Salgado
O fotógrafo Sebastião Salgado – Foto: Getty Images

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