O público brasileiro se acostumou a rir durante décadas com o talento inconfundível de uma das maiores comediantes da televisão nacional, mas poucos conhecem a certidão de nascimento da artista. A atriz Berta Loran, que faleceu em setembro de 2025, aos 99 anos, construiu uma trajetória lendária no país após desembarcar em solo carioca carregando um nome completamente diferente daquele que a consagrou.

Nascida em Varsóvia, na Polônia, em março de 1926, a humorista foi registrada originalmente como Basza Ajs. A transformação dessa figura carismática que marcou gerações envolveu adaptação cultural, fuga das perseguições no continente europeu e uma dose precisa de estratégia artística.

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A fuga da Europa e o choque cultural no Rio

A mudança começou no final da década de 1930, quando a família Ajs decidiu deixar a Polônia rumo à América do Sul diante do avanço da intolerância política e da ameaça militar que tomava conta da Europa. Ao atracar no porto do Rio de Janeiro com apenas 9 anos, a garota encontrou uma realidade totalmente diferente daquela em que vivia.

Naquela época, o idioma português representava uma barreira imediata. O prenome Basza, comum no Leste Europeu, causava estranheza constante entre os novos vizinhos e colegas de colégio no Brasil.

As crianças locais tinham grande dificuldade para pronunciar o vocábulo estrangeiro. A sonoridade frequentemente se confundia com a palavra portuguesa “baixa”, provocando piadas repetidas e certo incômodo para a jovem recém-chegada.

Berta Loran - Foto: Márcio de Souza/TV Globo
Berta Loran – Foto: Márcio de Souza/TV Globo

O surgimento do nome Berta

Para facilitar a convivência social cotidiana e evitar novos constrangimentos na infância, a adaptação do nome ocorreu de forma oficial. Quando o pai da comediante foi registrá-la na escola brasileira, uma autoridade do cartório sugeriu a alteração do registro para Berta, por se tratar de uma opção muito mais simples e acessível.

A adaptação funcionou de imediato. A garota que antes enfrentava ruídos de comunicação devido às raízes polonesas passou a atender prontamente como Berta, ganhando desenvoltura para manifestar sua vocação cômica nos anos seguintes.

A criação do sobrenome artístico

O sobrenome Loran surgiu anos depois, no momento em que a artista começou a dar os primeiros passos profissionais nos palcos. Inicialmente, ela atuava no teatro judaico, encenando espetáculos na língua materna da família tanto no Rio de Janeiro quanto em Buenos Aires.

Quando migrou para o teatro de revista e para o circuito comercial do país, notou-se a necessidade de trocar o sobrenome Ajs por algo mais sonoro e fácil de vender. A solução veio por intermédio de uma amiga que trabalhava vendendo passagens de navios: ao atender um cliente de sobrenome Loran, achou a palavra sonora e sugeriu prontamente que Berta a adotasse.

A junção de Berta com Loran produziu um impacto imediato, oferecendo um ar moderno e sofisticado que chamou a atenção de diretores e produtores teatrais da época. O novo registro, é claro, rapidamente abriu caminhos definitivos na cena cultural do país.

Berta Loran em A Diarista - Foto: TV Globo / João Miguel Júnior
Berta Loran em A Diarista – Foto: TV Globo / João Miguel Júnior

Sucesso absoluto na televisão

A consagração nacional de Berta Loran aconteceu com a chegada aos estúdios de gravação. Sob a consagrada identidade artística, a atriz e humorista conquistou espaço fixo no elenco de atrações históricas da televisão brasileira, como Bairro Feliz (1965-1966), Faça Humor, Não Faça Guerra (1970-1973), Satiricom (1973-1975) e Viva o Gordo (1981-1987).

O papel da portuguesa Manuela D’Além Mar no clássico humorístico Escolinha do Professor Raimundo (1990) eternizou a comediante no imaginário popular. Na teledramaturgia, a atriz acumulou participações de destaque em novelas como Amor com Amor Se Paga (1984), Cama de Gato (2009), Cordel Encantado (2011) e A Dona do Pedaço (2019).

A documentação com o nome de batismo polonês permaneceu guardada como lembrança afetiva das origens familiares e da travessia pelo oceano Atlântico. Já o nome adotado em solo brasileiro batizou quase um século de história e mais de sete décadas de dedicação integral ao riso e à dramaturgia.

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Berta Loran em Cordel Encantado (2011) - Foto: Reprodução / TV Globo
Berta Loran em Cordel Encantado (2011) – Foto: Reprodução / TV Globo