Lima Duarte (96) segue conectado à natureza, às próprias memórias e aos projetos que mantêm sua mente ativa. O ator, que construiu uma das carreiras mais longevas da televisão brasileira, vive em um sítio no interior de São Paulo, onde também produz conteúdos para as redes sociais e mantém uma rotina ligada aos seus interesses.

A relação do artista com a natureza e a escolha por uma rotina mais tranquila levantam uma questão importante sobre longevidade: quais hábitos podem contribuir para preservar a qualidade de vida durante o envelhecimento?

Para a médica Roberta França, especialista em Longevidade Consciente e Saúde Mental, manter interesses, vínculos e atividades significativas pode ter um papel importante no processo de envelhecer com mais autonomia e qualidade de vida.

Segundo a especialista, longevidade não deve ser compreendida apenas como a quantidade de anos vividos, mas também pela maneira como esses anos são vividos.

Propósito pode fazer diferença na longevidade

Para Roberta França, ter um propósito ajuda a manter a pessoa conectada com o presente e, principalmente, com a perspectiva de futuro. A médica explica que esse propósito não precisa estar relacionado a grandes realizações.

“Quando falamos de longevidade, precisamos entender que viver mais não significa apenas acrescentar anos à vida. Falamos também de acrescentar vida aos anos. E é exatamente aí que entra o propósito.”

A especialista destaca que interesses e projetos podem ajudar a estimular a curiosidade e a disposição para continuar participando ativamente da própria vida.

“Ter algo que desperte nosso interesse, nossa curiosidade e a vontade de levantar da cama, de aprender, de produzir e de compartilhar é o que mantém uma pessoa conectada com a sua própria história e, principalmente, com o seu futuro. E isso é muito importante para a saúde mental: essa ideia de futuro.”

Para ela, o propósito pode aparecer em atividades simples do cotidiano, como cuidar da família, cultivar uma horta, cozinhar, escrever ou encontrar amigos.

“O propósito não precisa ser algo grandioso, um sonho extraordinário. Ele pode estar no trabalho do dia a dia, na família, em cuidar de algo de que você gosta, como uma horta, aprender a cozinhar, escrever, encontrar os amigos, participar de um projeto ou continuar fazendo aquilo que você sempre fez, que ama e que dá sentido à sua própria vida e existência.”

A médica ainda explica que continuar tendo interesses pode ajudar a preservar o sentimento de participação na vida.

“Quando uma pessoa envelhece mantendo interesses e projetos, ela continua se percebendo como alguém que participa da vida, e não simplesmente como alguém que está assistindo à vida passar, como se não tivesse mais função naquele lugar.”

E acrescenta: “Então, eu costumo dizer que a aposentadoria pode ser do trabalho, mas não pode ser da vida. Enquanto houver curiosidade, vínculo, projeto e desejo, existe um futuro, um amanhã que precisamos construir.”

Sítio do ator Lima Duarte
Lima Duarte – FOTO: Instagram/Reprodução

Natureza, caminhada e convívio podem contribuir para o bem-estar

A rotina de Lima Duarte próxima à natureza também permite falar sobre outro aspecto relacionado à longevidade: a importância de permanecer em movimento e manter contato com diferentes ambientes e pessoas.

Roberta França explica que os benefícios de uma rotina ao ar livre não devem ser associados somente ao contato com áreas verdes. Para ela, diferentes estímulos podem acontecer simultaneamente.

“Sem dúvida. Precisamos olhar para isso de uma maneira mais ampla do que simplesmente dizer que estar perto da natureza faz bem. Acho que precisamos ampliar esse olhar.”

A médica aponta que sair de casa, caminhar, observar o ambiente e encontrar outras pessoas pode reunir estímulos físicos, sensoriais e sociais.

“Quando uma pessoa sai de casa, caminha, toma sol de maneira adequada, observa o ambiente, encontra outras pessoas e rompe aquela bolha do isolamento, várias coisas estão acontecendo ao mesmo tempo.”

Ela explica: “Existe o movimento corporal, o estímulo sensorial proporcionado pelo cheiro das plantas e pelo contato do sol com a pele, o contato social, a exposição à luz solar, a mudança de ambiente e a redução do sedentarismo. Tudo isso pode contribuir para a saúde física e emocional.”

Uma rotina com menos estresse também pode colaborar para aspectos relacionados ao bem-estar, como sono e humor.

“Além disso, quando falamos de uma rotina menos estressante, de uma rotina em que a pessoa tem um lugar mais leve e tranquilo, isso pode favorecer o sono, o humor e o bem-estar.”

Porém, a especialista faz um alerta sobre a importância de não confundir uma vida mais tranquila com isolamento social.

Lima Duarte se despede de Tarcísio Meira e Paulo José
Lima Duarte – Reprodução/Instagram

Convivência continua importante depois dos 90

Para Roberta, preservar os vínculos sociais é uma parte importante do envelhecimento saudável. Mesmo quando a pessoa busca uma rotina mais calma, a convivência e o sentimento de pertencimento devem continuar presentes.

“Mas existe uma questão que eu, Roberta, considero muito importante: dificuldade não pode significar isolamento, porque, às vezes, confundimos essas duas coisas. Principalmente na velhice, precisamos preservar os vínculos, a convivência e o senso de pertencimento.”

A médica reforça que o contato com a natureza pode ser um aliado, mas não deve substituir as relações sociais.

“A natureza pode ser uma grande aliada da longevidade, mas as relações continuam sendo fundamentais. Não podemos transformar o contato com a natureza em uma forma de isolamento do paciente.”

E conclui: “Envelhecer não é se afastar da vida. É encontrar uma forma mais consciente e saudável de continuar fazendo parte dela, buscando menos estresse emocional, mas sempre lembrando que os vínculos importam.”

Como preservar a autonomia depois dos 90 anos?

Outro ponto importante quando o assunto é longevidade é a preservação da autonomia. Roberta França ressalta que não existe uma única fórmula para pessoas com mais de 90 anos, já que cada indivíduo chega à velhice com uma história e condições de saúde diferentes.

“Primeiro, precisamos lembrar que cada pessoa chega aos 90 anos com uma história diferente, condições de saúde diferentes e graus de autonomia distintos. Portanto, não existe uma fórmula única para falarmos sobre o envelhecimento de todas as pessoas com 90 anos ou mais.”

Segundo a médica, alguns cuidados precisam ser construídos ao longo de toda a vida.

“Mas existe um princípio que é fundamental: a autonomia aos 90 anos começa a ser construída muito antes dos 90.”

Entre os fatores que podem contribuir para um envelhecimento mais saudável, ela cita movimento corporal, força muscular, equilíbrio, alimentação, sono, saúde mental, controle de doenças crônicas, vínculos sociais e estímulo cognitivo.

“Movimentar o corpo, preservar a força muscular, a marcha e o equilíbrio, manter uma alimentação adequada, preservar o sono, cuidar da saúde mental e da saúde emocional, controlar as doenças crônicas, manter os vínculos sociais, que são tão importantes, e continuar estimulando o cérebro são atitudes importantes para a vida inteira e que, principalmente, podem contribuir para que nosso envelhecimento seja o mais saudável possível.”

Depois dos 90 anos, segundo Roberta, a família também precisa ter cuidado para não retirar da pessoa atividades que ela ainda consegue realizar.

“Depois dos 90, existe algo que considero ainda mais importante: não retirar da pessoa aquilo que ela ainda é capaz de fazer. Às vezes, na tentativa de proteger, a família, sem querer, acaba decidindo tudo, fazendo tudo por aquela pessoa e impedindo, inclusive, que ela execute pequenas atividades ao longo do dia que ainda tem condições de realizar.”

A médica explica que, em algumas situações, esse excesso de proteção pode ter efeito contrário ao desejado: “E aquilo que parece cuidado acaba acelerando a perda da autonomia dessa pessoa.”

Por isso, ela defende que pessoas idosas sejam estimuladas a continuar participando das decisões que fazem parte da própria rotina.

“Se ela consegue escolher a roupa, participar das decisões da casa, caminhar com segurança, realizar alguma atividade, criar, aprender ou simplesmente decidir o que quer comer, o que quer vestir, onde quer ir e o que deseja organizar ao longo do dia, precisamos estimular isso.”

Para a especialista, preservar a autonomia não significa exigir que uma pessoa faça tudo sozinha, mas permitir que ela continue exercendo seu poder de decisão.

“Autonomia não significa fazer tudo sozinho, mas significa continuar participando das decisões da própria vida. E isso faz toda a diferença.”

Lima Duarte comemora 91 anos: ''Muito bem vividos''
Lima Duarte – Foto: Reprodução/Instagram

Longevidade vai além da idade

A trajetória de Lima Duarte aos 96 anos também ajuda a trazer atenção para uma discussão mais ampla sobre o envelhecimento. Para Roberta França, chegar a idades avançadas envolve mais do que contabilizar anos.

“Talvez essa seja uma das grandes mensagens quando vejo pessoas chegarem a idades muito avançadas e ainda muito conectadas com seus interesses.”

A médica resume o conceito de longevidade saudável destacando a importância da qualidade de vida e da funcionalidade.

“Longevidade não é apenas a quantidade de anos. Não é simplesmente ter 80, 90 ou 100 anos, mas o quanto a pessoa consegue funcionar e viver com qualidade durante os anos que tem.”

Por fim, Roberta reforça que o envelhecimento é um processo construído diariamente: “Acho que essa é a essência da longevidade consciente: compreender que envelhecer acontece todos os dias e que muitas das escolhas que fazemos hoje vão ajudar a construir a pessoa que seremos na velhice de amanhã.”

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