O presidente Lula preferiu azia a pirose, do grego..
...pýrosis, queimação, do mesmo étimo de pirotecnia, para designar o mal-estar que lhe dá a leitura de revistas e jornais. Ele acusou, do latim accusare, acusar, repreender, a imprensa de se fixar em notícias ruins.
Acusar: do latim accusare, acusar, censurar, repreender, dar causa, acusa, motivo, a alguma coisa. Pode ter havido influência do grego kaûsis, queimar, étimo que está presente também em cauterizar. Kauter, em grego, era o queimador, e kautérion o ferro quente utilizado pelo profissional. O ônus da prova é do acusador, mas tem havido inversão, a ponto de ouvirmos e lermos que “Fulano deve provar sua inocência”. No Digesto como no Corpus Iuris, de Justiniano (482-565), se lê que “é obrigação de quem acusa provar, não a quem nega”, porque “esta é a natureza das coisas”.
Bruscamente: de brusco, de origem pré-romana, mas consolidado no latim tardio bruscum, escuro, rude, áspero, significando também inesperado, repentino, súbito, e o sufixo “mente”, comum na formação de advérbios. Como adjetivo, um vinho pode ser brusco, de sabor áspero; o céu brusco é um céu nublado, com nuvens escuras. Também certa excrescência do bordo do navio é denominada bruscum em latim. O advérbio aparece neste trecho do romance Jornada com Rupert, do escritor catarinense Salim Miguel (84): “Rupert relutou, forçou, queria entrar. Irredutível, Ilze bruscamente fechou a janela. As mãos de Rupert se soltaram e ele escorregou pelo tronco da árvore, parou alguns minutos, meio deitado, não teve coragem de subir outra vez e insistir”.
Digesto: do latim digestus, digerido, de digerir, do latim digerere, dividir, ordenar, levar para diversas partes, como ocorre na digestão dos alimentos. Mas Digesto designa, por conotação, o conjunto de decisões tomadas por jurisconsultos romanos, compiladas e ordenadas metodicamente por ordem dos imperadores Augusto (63 a.C-14) e Justiniano. O Digesto é uma das quatro partes em que se divide o Corpus Juris Civilis (Corpo de Direito Civil).
Homeoteleuto: do grego homoiotéleutos, homeoteleuto, dito e escrito também homoteleuto. Designa a similitude das desinências ou terminações de dois ou mais membros consecutivos da frase ou do verso. Desde Aristóteles (384-322a.C.) é considerada a matriz da rima e todo bom poeta sabe o que é e sabe usar o recurso homeoteleuto. Um dos mais famosos homeoteleutos está nos versos do imperador Adriano (76-138). Diz: “Animula vagula blandula/ Hospes comesque corporis/ Quae num abitis in loca/ Pallidula, rigida, nudula/ Nec, uf soles, dabis jocos? (Ó almazinha vagabundinha e folgadinha/ Hóspede e companheira do corpo,/ Onde irás agora,/ Palidinha, friazinha e nuinha,/ Sem as habituais brincadeiras?” Ele os compôs pouco antes de morrer, dirigindo-se à própria alma, lembrando-lhe que ficará em lugares frios, distantes, sem poder mais rir e brincar.
Onagro: do grego ónagros, pelo latim onagrus, burro montês, designando o jumento selvagem, conhecido cientificamente como asinus silvestris (burro do mato) ou equus onager (no latim existem as duas grafias: onager e onagrus), cavalo onagro, e também antiga máquina de guerra usada para lançamento de grandes pedras. Recebeu este nome porque sua forma lembrava a do animal. Os romanos aperfeiçoaram este tipo de catapulta ou baladeira, e ela era capaz de lançar também caldo fervente e grandes flechas. O onagro, usado também em batalhas navais, foi o avô do canhão. Quanto ao animal, o último exemplar de uma das duas espécies morreu num zoológico em 1928.
Pirose: do grego pýrosis, queimação, ardência, do mesmo étimo de pirotecnia. Designa cientificamente a azia, palavra utilizada pelo presidente Lula (63) em entrevista concedida a Mario Sergio Conti (54), diretor da revista Piauí, em dezembro último, quando declarou que não lê jornais porque tem problemas de azia. Alberto Dines (76), diretor do Observatório da Imprensa, sugeriu um Alka-Seltzer e lamentou: “Saldo do episódio: perdeu-se formidável oportunidade de promover um grande e salutar debate sobre a nossa imprensa. Fomos todos relegados à esfera gástrica. Não merecemos”.