Dois tipos de implante, do latim plantare, plantar, têm estado em evidência: o de cabelos, ao qual recorreu em janeiro o…
...ex-ministro José Dirceu, e o de células-tronco, do latim cellula, quarto pequeno, e truncus, tronco, alvo de acaloradas polêmicas entre cientistas e religiosos.

Adulador: do latim adulator, cortesão de baixa categoria, vinculado a adular, do latim adulare, adular, festejar. Designou originalmente o costume dos animais, especialmente cães, de trocar afagos quando se encontram. No Brasil é sinônimo de puxa-saco, originalmente servidor encarregado de carregar saco com pertences do patrão. Cansado, ele literalmente puxava o saco, arrastando-o pelo chão. Por metáfora, passou a designar o funcionário que se desmancha em lisonjas ao chefe. A expressão consolidou-se nos tempos republicanos, como evidencia a marchinha O Cordão dos Puxa-Sacos, gravada pelos Anjos do Inferno, sucesso no carnaval de 1946, o primeiro depois da derrubada de Getúlio Vargas (1882-1954). Os versos fazem clara alusão aos políticos: “Vossa Excelência/ Vossa Eminência/ Quanta reverência/ Nos cordões eleitorais/ Mas se o doutor cai do galho e vai ao chão/ A turma toda evolui de opinião/ E o cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais”. Puxa-saco recebeu o sinônimo de chaleira porque um subserviente funcionário do senador Pinheiro Machado (1851-1925), de acordo com as informações de Antenor Nascentes (1886-1972), queimou-se no bico da chaleira ao servir chimarrão ao patrão, fato que teria inspirado a polca No Bico da Chaleira, do maestro João José da Costa Júnior (1868-1917), sucesso do carnaval de 1909: “Iaiá me deixe subir nessa ladeira/ eu sou do grupo que pega na chaleira…”.
Bacalhau: tem origem controversa o nome deste peixe, cuja carne, seca e salgada, é utilizada na culinária de grande parte do planeta. Provavelmente chegou ao português depois de escalas no dialeto basco bakaillao, dito também makaillao e makaillo, porque esse povo foi o primeiro a comercializar o peixe, ainda durante o primeiro milênio. Mas o vocábulo recebeu influências do italiano baccalà, peixe seco, e do gascão cabilhau, por aproveitamento do latim caput, cabeça. Então se alatinou em cabellauwus, documentado em 1163 em Flandres, já com influências do holandês kabeljauw. Peixe estenotermo, ele precisa de águas frias para viver, o que o leva a um intenso périplo por mares quase gelados, como os que banham a Islândia e a Noruega. O bacalhau atinge 1,5 metro de comprimento e chega a pesar 50 quilos. Os vikings também o comiam. Os portugueses trouxeram o peixe para a sua culinária no final do século XV. Em 1508, sua pesca foi taxada pelo rei dom Manuel (1469-1521), com o fim de estatizar a atividade.
Célula-tronco: de célula, do latim cellula, quarto pequeno, diminutivo de cella, quarto. Nos templos pagãos, cela era o recinto onde estava guardada a imagem da divindade. Na informática, equivale a 1 bit (unidade de informação), o que veio a influenciar a denominação do telefone móvel, o celular. Segundo a definição do dicionário Houaiss, célula é a “unidade microscópica estrutural e funcional dos seres vivos, constituída fundamentalmente de material genético, citoplasma e membrana plasmática”. Tronco veio do latim truncus, tronco, aplicado a tronco de árvore e do corpo humano, tendo também o sentido de mutilado, quebrado, donde o sinônimo truncado, do verbo truncar, cortar pela ponta. As células-tronco têm a capacidade de se transformar em outras, constituindo grande recurso terapêutico. Há dois tipos: as adultas, encontradas na placenta, no cordão umbilical, na medula e no fígado, que podem se diferenciar em vários tecidos do corpo humano, e as embrionárias, capazes de se transmutar em células de todos esses tecidos. Estas últimas têm provocado polêmica, especialmente quanto à possibilidade de se gerar embriões com finalidade de fornecê-las. A votação da legislação sobre seu uso, já no Supremo Tribunal Federal (STF), está parada porque o ministro Carlos Alberto Direito (65) pediu vistas do processo.
Implante: de implantar, de plantar, antecedido de “in”, mas que é escrito “im” por estar antes de “p”. Veio do latim plantare, plantar, semear. Como o étimo é semelhante ao do arcaico chantar, com o duplo sentido de plantar e cantar, e ao de planger, chorar, ensejou parecenças de significado entre plantar, planger, chorar. Um dos implantes mais comuns atualmente é o de cabelos. O ex-ministro José Dirceu (62), um dos 40 denunciados no STF pelo esquema do mensalão, procurou o cirurgião plástico Fernando Bastos (50) para fazer implante de cabelos, no mês de janeiro. Quem sabe tenha a esperança de readquirir a força do cabeludo líder estudantil que ele já foi.