ETIMOLOGIA
Tiradentes, personagem histórico, do grego historikós, redimido depois da proclamação da República, era dentista e comerciante, mas foi também alferes, do árabe al-faris, cavaleiro, e tropeiro, de tropa, do germânico throp, pelo francês troupe.
Alferes: do árabe al-faris, cavaleiro, ginete. Tornou-se patente militar porque veio a designar o oficial que carregava a bandeira na infantaria e o estandarte na cavalaria, cumprindo funções de tenente. Como as sociedades criadas no Mundo Novo por Espanha e Portugal eram bastante militarizadas nos primeiros séculos – a Venezuela ainda é -, alferes tornou-se também posto político. Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746-1792), ingressou na carreira militar já nesse cargo, por ser descendente de portugueses cristãos. Nesta função, combateu o banditismo na Serra da Mantiqueira por conhecer bem os caminhos do sertão, entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro.
Comutar: do latim commutare, mudar, alterar, substituir, reduzir, como fez Dona Maria I (1734-1816) com os Inconfidentes, condenados à morte, mas cujas penas foram comutadas em degredo. Tiradentes, porém, a rainha mandou enforcar, esquartejar e salgar. Dom Pedro I (1798-1834), príncipe que proclamou a Independência do Brasil, nasceu seis anos depois da sinistra execução ordenada por sua avó.
Histórico: do grego historikós, pelo latim historicus, exposição cronológica dos fatos, vale dizer, a forma como eles foram narrados, compostos, tecidos. Pode ser substantivo, como o histórico de uma pessoa, de uma empresa e o histórico escolar, em que aparecem as disciplinas cursadas e as notas ou conceitos obtidos pelo aluno em escolas, faculdades, universidades. Ou adjetivo, quando qualifica algo digno de ser registrado pela História. O italiano, ao contrário do português, do francês e do espanhol, também línguas neolatinas, tirou o “h” e o “i” iniciais e escreve storia, storico, storiare. E mantém a variante istorico.
Inconfidente: do latim medieval inconfidente, declinação de inconfidens, aquele em quem não se pode confiar, pois não guarda confidência, divulga segredos, vaza informações, é traidor. O plural Inconfidentes designou aqueles que integraram o movimento político conhecido como Conjuração Mineira. O traidor chamavase Joaquim Silvério dos Reis Montenegro Leiria Grutes (1756- 1819). Todos foram condenados à morte, mas Claudio Manuel da Costa (1729-1789) morreu no cárcere, em Vila Rica, hoje Ouro Preto (MG), possivelmente assassinado. Corria o ano de 1789, o da Revolução Francesa. Levados ao Rio de Janeiro, todos foram condenados à morte, mas tiveram as penas comutadas em degredo nas atuais nações africanas de língua portuguesa, então colônias, como o Brasil, menos Tiradentes, que foi executado no Rio, em 21 de abril de 1792. O tronco foi sepultado como de indigente, no Rio. Os quatro membros foram dependurados em postes ao longo do Caminho Novo, onde ele pregara suas idéias de independência. A cabeça, afixada em frente à sede do governo, em Ouro Preto, desapareceu. Tiradentes subiu ao patíbulo barbeado e com a cabeça raspada. Jamais usou cabelos compridos nem barba. Os pintores Leopoldino de Faria (1836-1911), em quadro encomendado pela Câmara Municipal de Ouro Preto, e Pedro Américo de Figueiredo e Melo (1843-1905) foram os primeiros a retratá-lo barbudo e cabeludo.
Revisar: do latim vulgar revisere, validar e, para isso, examinar, ver de novo – re mais videre. Revisor e revisão seguiram processo semelhante, aproveitando o mesmo étimo, o latim videre, ver. O “d” mudou para “s” pois o particípio de videre é visus. As coisas examinadas com atenção – documentos, por exemplo – em latim são identificadas por visa, vistas. Em francês, revisar é réviser; réviseur, revisor; e révision, revisão. Inexplicáveis distorções de programas eletrônicos levam a erros estranhos. Consolemo-nos com o reformador britânico Samuel Smiles (1812- 1904): “Nós aprendemos mais com o fracasso do que com o sucesso”.
Tropeiro: de tropa, do francês troupe, tropa, menos “a”, mais “eiro”, designando aquele que conduz tropa de animais. A origem remota é o germânico throp. Tomou sentido militar porque o conjunto de soldados foi comparado a animais, significado depois redimido com a organização dos exércitos, que passaram a ser rigidamente hierarquizados. Tropeiro foi um dos ofícios de Tiradentes, que tinha o posto de alferes, mas foi também dentista, minerador, comerciante.