Entre ciência e acolhimento, Christian Lima luta contra a endometriose
Especialista em endometriose explica como sintomas, hábitos e tecnologia interferem no tratamento e reforça que atrasar diagnóstico traz consequências graves

Sentir dor incapacitante não é normal, embora muitas mulheres ainda cresçam ouvindo o contrário. Para a ginecologista e especialista em endometriose Christian Lima, mudar esse olhar é uma prioridade. “Se dor fosse algo bom, a gente ficaria feliz, e não triste. A dor é o corpo sinalizando que algo está errado”, afirma. Essa convicção guia sua prática diária e sustenta uma abordagem que combina escuta ativa, precisão técnica, informação clara e acolhimento.
Na juventude, Christian optou pela medicina por incentivo familiar e se tornou escolha genuína ao longo do curso, especialmente quando assistiu a um parto. “Foi ali que me apaixonei pela ginecologia e obstetrícia. Auxiliar no milagre da vida é simplesmente algo indescritível”, relembra. O interesse pela cirurgia levou ao aprofundamento na endometriose, campo que exige preparo técnico e sensibilidade clínica. “Eu sempre recebo casos desafiadores. A endometriose pede conhecimento e, ao mesmo tempo, muito acolhimento e amor ao que se faz. Esse equilíbrio me completa”, diz.
Hoje, ela divide a agenda entre Londrina (PR) e São Paulo (SP), atende quadros complexos com uma equipe treinada e organiza rotinas que incluem procedimentos extensos. “A gente vive endometriose de segunda a segunda. São cirurgias complexas e delicadas, que envolvem, além do cirurgião, uma equipe em sintonia”, explica.
A cultura da dor e o atraso no diagnóstico
Christian observa que o atraso no diagnóstico é um fenômeno global. “No mundo todo há, em média, um atraso de dez anos até o diagnóstico”, pontua. A raiz do problema, para ela, é cultural e atravessa instituições: “A mulher é desvalorizada não só por médicos, mas pela sociedade, pela família, pelos amigos e pelo trabalho”.
O impacto começa cedo. Ela cita uma adolescente de 13 anos que perdeu o ano escolar por dor intensa e precisou de laparoscopia. “Nos dois primeiros anos após a 1ª menstruação pode haver cólicas leves. Mas dor forte, que incapacita e exige remédios frequentes, não é normal. A dor que tira a sua rotina deve ser estudada. O diagnóstico começa pela queixa – a dor fala antes dos exames”, alerta.
Planos terapêuticos para uma doença complexa
A endometriose é multifacetada. “Acompanho pacientes com pelve bloqueada e poucos sintomas, enquanto outra, com lesões pequenas, acaba tendo inúmeros atendimentos no pronto-socorro por dor. Não existe receita pronta. Em se tratando de endometriose, não dá para realizar atendimento massificado: cada mulher é única, cada dor é importante, e apesar dos protocolos existentes no mundo, cada tratamento deve ser personalizado.”
A médica relata operações de até 12 horas quando há acometimento de múltiplos órgãos. “A doença é benigna, mas é agressiva em alguns casos, infiltrando e destruindo a anatomia normal, roubando assim a qualidade de vida dessas pacientes”, descreve. Christian ressalta que, em uma área tão complexa, reconhecer limites e encaminhar casos quando indicado é ato de responsabilidade clínica e favorece a segurança da paciente.

Cirurgia, sintomas e cuidados contínuos
A endometriose pode se manifestar além da dor menstrual, com sintomas associados ao ciclo, fadiga, tonturas, dores na relação sexual e até após o orgasmo. Muitas pacientes chegam ao consultório com constipação, dor ao evacuar ou dificuldade para eliminar gases no período menstrual. Esses sinais são frequentemente confundidos com gastrite, colite ou síndrome do intestino irritável. “Então, além da expertise técnica em reconhecer os sintomas, há necessidade de atenção e acolhimento adequado a essas mulheres”, explica Christian.
Quando o tratamento medicamentoso não oferece alívio, ou quando a doença ameaça funções vitais, a cirurgia se torna necessária. “O objetivo não é apenas retirar as lesões, mas devolver a dignidade e a qualidade de vida. Cada caso pede avaliação individualizada”, afirma. São cirurgias de longa duração, que envolvem outros órgãos como intestino, bexiga e nervos. Daí a importância de uma equipe treinada, com expertise na doença, equipamentos adequados e estrutura hospitalar de excelência. “São procedimentos complexos e delicados. A doença é agressiva e deve ser abordada com segurança e cuidado, sempre pensando no bem-estar da paciente”, destaca.
Christian reforça ainda que o pós-operatório não se encerra com a alta hospitalar. “Não adianta apenas operar. O acompanhamento envolve acolhimento, orientar hábitos, monitorar sintomas e, muitas vezes, apoiar emocionalmente”, afirma.
Essa postura traduz a visão humanizada que atravessa sua prática. “Essas mulheres chegam cansadas de não serem ouvidas e de serem maltratadas com frases como: ‘isso é frescura’ ou ‘quando casar passa’. A empatia é parte tão importante quanto a técnica”.
Ela também cita fatores que agravam dor e inflamação: sedentarismo, alimentação desbalanceada, obesidade e estresse. “Cada pessoa tem um contexto. O plano de tratamento precisa caber na vida da paciente.”
Tecnologia, hábitos e pesquisa em perspectiva
No centro cirúrgico, a tecnologia é uma aliada. Christian utiliza videolaparoscopia em 3D, que amplia o campo e destaca relevos anatômicos. “O 3D dá visão tridimensional, quase como estar dentro da cavidade. Isso aumenta a segurança, evidencia lesões e melhora a chance de ressecção adequada”, explica.
Sobre novas fronteiras, a médica comenta um teste experimental de DNA na saliva com objetivo preditivo. “A ideia é interessante e não invasiva, mas ainda é experimental. Não está pronta para uso clínico”, pondera.
Em paralelo, ela menciona políticas públicas no exterior. “A França oferece licença durante crises de dor. Aqui, ainda estamos longe disso. Enquanto a dor for vista como fraqueza e não for dada a devida importância ao assunto, estaremos distantes de políticas semelhantes no Brasil”, observa.
Informação como cuidado
Parte do tempo de Christian é dedica à tradução da ciência em linguagem simples nas redes sociais. “Informação é poder. Às vezes o que falta é uma palavra que diga: sua dor não é normal”, diz. Ela também combate atalhos sedutores, como fórmulas mágicas para tratar a endometriose. “Se tem algo que estamos longe ainda é de uma medicação curativa para a endometriose. O diagnóstico evoluiu muito nos últimos anos, mas a terapêutica curativa ainda está distante, devido à multiplicidade de teorias sobre a doença”, explica.
Muitas pacientes chegam por indicação de outras pacientes, num circuito de apoio e orientação prática. Para a médica, isso evidencia o papel da informação qualificada e do acolhimento adequado. “Elas conversam entre si, identificam-se nos sintomas e acabam encaminhando umas às outras para diagnóstico. Isso mostra o quanto a informação bem compartilhada é fundamental”, afirma.
Mesmo com uma rotina intensa, Christian mantém o foco em melhorar cada vez mais sua técnica, ampliar o acesso à informação e conscientizar mais pessoas sobre o tema, a fim de reduzir o atraso entre o início dos sintomas e a chegada a serviços capacitados. “Quanto mais cedo ocorrer o diagnóstico, maior a chance de preservar os órgãos, a fertilidade e a qualidade de vida dessa mulher”, reforça.
“Não aceite que a dor é normal. Não aceite ser tratada como frescura. A dor é sua e você sabe o quanto ela te limita e atrapalha a sua vida. Procure informação e ajuda. Há como viver sem dor e com qualidade de vida”.
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