ETIMOLOGIA
Só encontrando a caixa-preta, da expressão inglesa black box, gíria da força aérea britânica incorporada mundo afora, haverá condições de saber o que houve com o voo 447 da air france. É possível que a aeronave tenha caído devido a uma pane, do francês panne, generalizada.
Caixa-preta: da expressão inglesa black (preta) box (caixa), caixa-preta, gíria da Royal Air Force, a força aérea britânica, que passou à aviação mundial para designar o dispositivo indestrutível que registra conversas dos pilotos e dados técnicos do voo. É peça-chave para esclarecer a causa dos acidentes. É de cor amarela; preta indica que, sem abri-la, não se conhece o que ali está. No sentido figurado, indica fraudes encobertas por esquema conhecido apenas por aqueles que o manipulam com fins ilícitos.
Enxovalhar: talvez de enxovia, do árabe ax-xavia, designando etnia de tribos do Marrocos. Enxovia foi associada a covais denominados matmora, masmorra, lugar escuro, usado como depósito de alimento, sobretudo de trigo, mas que veio a ser usado também como prisão. Enxovalhar alguém era jogá-lo na enxovia, daí o sentido moderno de insultar. O verbo aparece em Abismo, livro de narrativas curtas do premiado escritor Whisner Fraga (38), uma das mais gratas revelações literárias: “Aqueles tempos não eram para tanto, devíamos nos enxovalhar com os telúricos protocolos dos agrados, dos favores atrelados a inebriantes e levianas reverências”.
Ícaro: do grego Íkaros, pelo latim Icarus, Ícaro, designando pessoa ambiciosa, que paga caro por suas desmesuradas pretensões. Ícaro era filho de Dédalo, que, a pedido do rei Minos, de Creta, construiu o Labirinto, onde foi aprisionado o Minotauro. Por ter ajudado Ariadne a fugir com Teseu, Dédalo também foi aprisionado ali. Certo de que o rei controlava as saídas por terra e mar, resolveu sair por cima. Usando asas feitas de penas, coladas com cera, ambos fugiram. O pai aconselhou o filho a não voar muito baixo, pois a umidade do mar descolaria as penas, nem muito alto, pois o calor do Sol derreteria a cera. Ignorando as recomendações, o deslumbrado Ícaro voou perto do Sol. O calor derreteu-lhe as asas e ele caiu no mar Egeu. O pai desceu, recolheu o filho, deu-lhe enterro e voou para a Sicília.
Pane: do cruzamento das palavras latinas penna, pena de ave, e pannus, pano, pelo francês panne, vela de navio e também farrapo. Nasceu daí a expressão francesa être dans la panne, que significa tanto estar na miséria, pouco usada no Brasil, como entrar em pane, dispondo as velas da embarcação de tal modo que seja imobilizada. Passou a designar falha do motor do automóvel e depois interrupção de qualquer dos mecanismos que fazem com o que o avião voe. Quando nenhum deles funciona, é pane geral. É o que pode ter ocorrido no voo 447 da Air France, em 31 de maio último, quando todas as 228 pessoas a bordo morreram. O avião enviou 24 mensagens de pane em 4 minutos, 14 delas em apenas 1 minuto.
Time: do inglês team, time, designando originalmente grupo de bichos encontrados sempre em grupo, depois animais de carga e enfim conjunto de pessoas que praticam esportes coletivos. Por metáfora, veio a designar equipe de trabalho que tem objetivo comum. Na Inglaterra, em particular, e no mundo em geral, english team é a seleção inglesa de futebol. No Brasil, o aumentativo Timão designa o Corinthians.
Unicórnio: do latim tardio unicornus, de um chifre só, um corno, como o rinoceronte indiano. Como adjetivo, é escrito unicórneo. O italiano grafou alicorno e o francês antigo, licorne, ambos designando animal fabuloso, representado por um cavalo peludo, com um chifre comprido e torto, barba de bode, rabo de leão e patas de boi. Na Idade Média, esse animal era símbolo de castidade. Algumas ilustrações apresentam o monstro com corpo de cavalo e cabeça de veado. Escrito com inicial maiúscula, o Unicórnio era invocado para afastar desgraças e malefícios. Era crença geral que as mulheres mais jovens tinham facilidade em tocá-lo, o que pode ser atestado no afresco A Virgem e O Unicórnio, de Domenico Zampieri (1581-1641). O mito do Unicórnio está presente no livro Em Forma de Chama: Variações sobre o Unicórnio, de Péricles Prade (67), poeta, contista, historiador, crítico literário e um dos mais completos intelectuais catarinenses, em cujos versos se lê: “Morto por Moisés, servo de Javé, Leão/ ameaçando a Giganta, Unicórniofêmea/ no tempo em que Davi/ era pastor de ovelhas/ Unicórnio montado/ em direção do Paraíso, construtor/ de templos, descido após a chegada do Rei/ diante daquele que se ajoelha/ o medo/ é Deus”.