VERA FISCHER AFIRMA OUE ATINGIU O NIRVANA

Ela lança biografia, diz que curte sua fase mais calma e não se arrepende de nada

Radiante, usando longo vestido amarelo e um enorme colar marroquino de metal e pedras, Vera Fischer (56) surge na sala de sua cobertura, no Rio, fazendo jus ao título de deusa. A pele sempre bronzeada, os cabelos loiros e o corpo impecável ganham ainda mais destaque por conta do enorme sorriso e do brilho nos olhos. A atriz nem precisa falar, está feliz. Mas com ela, nada é tão simplista ou se resume em uma única frase. Como fez durante toda a sua vida, surpreende mais uma vez e logo declara em alto e bom som: “Não faço sexo há dois anos!” O que, para a maioria das mulheres seria dito em tom de tristeza, para Vera parece ser até mais do que natural. É o correto no momento. “Não sinto falta. Eu sou assim, não posso mentir. Sexo casual não tem mais valor. Vivi algumas experiências de sexo por sexo e para mim não dá. Não sinto nada, é impressionante. Eu mudei muito”, disse ela, para em seguida completar, rindo: “Estou quase atingindo um nirvana, estou totalmente zen”.

Às vésperas do lançamento da segunda parte de sua autobiografia, Um Leão por Dia, com noite de autógrafos na segunda, 23, na Travessa do Leblon, Vera tem ocupado o dia com as gravações de Caminho das Índias, onde vive Chiara, e reflexões sobre sua vida e sua trajetória. Trabalho, rugas, homens e até timidez são assuntos que ela discorre com tranquilidade. “Fiz tudo o que quis sem medir consequências. Sempre me atirei muito sem nunca pensar no resultado. Isso trouxe coisas ruins para minha vida, mas me tornou a Vera que sou hoje. Não me arrependo de absolutamente nada. E sou muito feliz”, disse ela, que em 2007 lançou seu primeiro livro, Vera – A Pequena Moisi.

– É possível uma mulher na sua idade ser feliz sem ter uma vida sexualmente ativa?
– Totalmente. Realmente não sinto falta. Isso está bem claro no livro. Até escrevi: quero estar com meus filhos. São eles que me trazem alegria. Lembro como eu gostava de boates, de festas… Mas tudo passa. Agora, quero calma, mansidão, quietude e paz.

– Mas falam que a falta de sexo afeta a mente…
– Deve ser por isso então que não estou sentindo necessidade nenhuma. Tem tantas outras coisas que me ocupam a cabeça. Sou um turbilhão de ideias. Estou sempre criando. Isso é algo que nunca vou deixar de fazer. Nunca vou me estagnar mentalmente.

– Você descarta a possibilidade de amar de novo um homem?
– Claro que não. Aí é bem diferente. Se um dia achar um homem que ame, vou fazer sexo maravilhoso. Adoraria amar de novo, mas não tem mais por que me envolver em uma relação vazia.

– Mas no livro você diz que já chegou em casa e, sozinha, chorou de solidão.
– Isso foi há muito tempo. A gente não evolui a cada ano, é todo mês mesmo.

– Isso significa que nunca bate uma tristeza por estar sozinha?
– Nunca. Hoje só choro de emoção, nunca de solidão. Choro com um bom filme, livro… Ou então de felicidade. De tristeza, não mais.

– Em outro trecho, quando ainda tem 18 anos, você diz que um dia iria se vingar dos homens. Conseguiu?
– Pois é, nunca me vinguei (risos). Nunca consegui. Não houve tempo, também não tive vontade. Aquele foi um desejo momentâneo, uma raiva passageira.

– Mas os homens merecem que alguém se vingue deles?
– Não! Eles só merecem amor. Ao longo de minha vida conheci homens maravilhosos, como o Perry (Salles, seu marido por 16 anos, com quem teve a primogênita, Rafaela). Depois do meu filho, Gabriel (da união com Felipe Camargo), Perry foi o homem mais importante da minha vida.

– Você também se descreve como tímida…
– Tenho exuberância e alegria, então parece que não sou tímida, mas sou muito. Às vezes, fico muito calada, mas ao longo da minha vida, justamente para vencer a timidez, extrapolei. Então, as pessoas não sabem como sou: alegre e dinâmica, mas também tímida.

– Por quê você diz hoje que tem um ano a menos?
– Quando ganhei o Miss Brasil, em 1969, tinha 17 anos. Para concorrer ao Miss Universo, deveria ter 18, então mudaram minha certidão de nascimento. E vivi sempre com esta idade falsa. Mas há dois anos decidi corrigir.

– Quer parecer mais jovem?
– Não tenho problema com idade ou com velhice. Se tivesse, já teria feito plástica. Só aumentei os seios. E operei o nariz porque quebrei após um atropelamento. Não sou contra plástica. Pode ser que um dia eu até faça. Mas gosto tanto das pessoas do jeito que elas são… E geneticamente tive uma coisa boa, sou estruturada, grande. Não me acho linda, mas tenho um conjunto bom, harmônico.

– Não tem vergonha de rugas?
– Encaro isso muito bem. Faz parte. Todo mundo envelhece, só que uns bem e outros mal.

– E como está envelhecendo?
– Bem, muito bem.

– Olhando para trás, você acha que teve uma vida interessante, culturalmente e pessoalmente?
– Acho que tive uma vida muito rica. Inspiro muita curiosidade. As pessoas sempre querem saber o que faço porque estou sempre inventando algo. Agora, por exemplo, estou sem vontade de pintar quadros. Pintei demais, como sempre, fiz isso compulsivamente. Então cansei, mas já escrevi outro livro. No próximo ano lanço um romance, mas não vou contar a história porque quero apresentar à TV Globo e sugerir que vire novela.

– Mas então por que você quase não expõe a sua vida pessoal na biografia em detrimento de sua trajetória profissional?
– Foi uma opção mesmo. Minha vida já foi muito divulgada. Também não queria citar nomes. Falo apenas de pessoas que realmente são importantes na minha vida.

– E a fase de baladas e drogas?
– Tem alguém que não saiba disso? Essa fase foi a mais exposta na imprensa. Queria falar de coisas diferentes. Por isso digo que o livro é uma coletânea de pensamentos e de passagens da minha vida. Falar sobre drogas, por exemplo, são os outros que falam. Não é um interesse meu escrever sobre esse assunto. Quis mostrar coisas que as pessoas desconhecem sobre mim, mas sem dar destaque à vida pessoal.