Aloma Silva defende novo olhar para prevenção, estilo de vida e menopausa

Ginecologista integrativa aborda saúde feminina, acolhimento e escolhas que ajudam mulheres a viverem melhor a maturidade

Fotos: Marina Sá

Existe uma dimensão da saúde feminina que nem sempre aparece no prontuário: aquilo que a mulher sente, mas demora a dizer. Cansaço, baixa libido, sono irregular, irritabilidade, ganho de peso e a sensação de não se reconhecer no próprio corpo chegam ao consultório misturados à rotina, à culpa e ao silêncio. É nesse ponto onde a técnica precisa encontrar a escuta, que a ginecologista integrativa Aloma Silva constrói sua forma de cuidar.

Natural de Sobral, no Ceará, Aloma Maria Aragão Silva deixou o interior aos 16 anos para estudar em Fortaleza. Vinda de uma família tradicional, enfrentou a resistência dos pais e precisou se adaptar a uma rotina acadêmica mais exigente. O objetivo já estava definido: cursar Medicina na Universidade Federal do Ceará (UFC).

O sonho vinha de antes. Ainda criança, brincava de cuidar de bonecas como se estivesse em um consultório. Anos depois, foi aprovada na UFC, onde também realizou residência em Ginecologia e Obstetrícia. A formação consolidou o caminho, mas foi a prática clínica que ampliou sua visão sobre o cuidado.

“Sair do interior e buscar uma formação em Medicina exigiu disciplina, mas também confirmou algo que eu já sentia desde pequena: cuidar de pessoas era o caminho que fazia sentido para mim”, relembra.

O olhar que vai além do exame

Durante os primeiros anos de atuação, Aloma percebeu que a medicina tradicional, embora essencial, muitas vezes se limitava ao tratamento da doença. Na ginecologia, isso significava lidar com exames, diagnósticos pontuais e prescrições, sem necessariamente aprofundar o olhar sobre a qualidade de vida da paciente.

Com o tempo, essa lógica passou a incomodá-la. Muitas mulheres apresentavam exames dentro da normalidade, mas não se sentiam bem. Havia queixas de cansaço, sedentarismo, alterações no sono, ganho de peso, baixa autoestima e dificuldades nos relacionamentos.

“Uma consulta não deveria terminar apenas com a frase de que está tudo normal. Às vezes, o exame não mostra alteração, mas a mulher está sem energia, sem disposição e distante de si mesma. Foi isso que me fez buscar uma forma mais completa de cuidar”, explica.

A partir dessa inquietação, passou a direcionar sua atuação para uma ginecologia mais preventiva, integrativa e voltada à qualidade de vida. O foco passou a ser o olhar global da paciente, associando a ginecologia clínica à avaliação do estilo de vida, hábitos saudáveis e o acompanhamento integral do envelhecimento feminino

Menopausa, acolhimento e prevenção

Entre os temas centrais de sua prática está a menopausa. Para Aloma, essa fase ainda é cercada por desinformação e, muitas vezes, tratada com resignação. No consultório, ela recebe mulheres que relatam cansaço, queda da libido, irritabilidade, sono irregular, aumento de gordura abdominal e mudanças emocionais, sintomas que nem sempre são valorizados.

A ginecologista chama atenção para a perimenopausa, período de transição que pode anteceder a menopausa por anos e em que os sintomas já podem se manifestar, mesmo antes de alterações laboratoriais evidentes.

“O exame orienta, mas não pode silenciar a história da paciente. Quando a mulher relata perda de desejo, alteração de humor, dificuldade para dormir ou impacto no relacionamento, ela está trazendo sinais que merecem investigação e cuidado”, afirma.

Ao abordar a terapia de reposição hormonal, Aloma evita generalizações. A indicação depende de avaliação individual, considerando histórico clínico, sintomas, idade, riscos e acompanhamento contínuo.

Para ela, a menopausa também deve ser compreendida como uma fase estratégica de prevenção. Questões como saúde óssea, massa muscular, metabolismo, mobilidade, sono e autonomia passam a ser fundamentais na condução do cuidado.

Estilo de vida, tecnologia e acolhimento

Na prática de Aloma, falar sobre saúde feminina inclui alimentação, atividade física, hidratação, manejo do estresse, qualidade do sono e construção de massa muscular. Ela reconhece que mudar hábitos é um dos maiores desafios, mas acredita que o entendimento do próprio corpo é essencial para que a paciente participe das decisões.

Mãe de dois filhos e com uma rotina intensa, a médica mantém a atividade física como parte da própria vida desde jovem. Para ela, autocuidado não é vaidade, mas responsabilidade.

“Cuidar da saúde não é um detalhe que a mulher encaixa quando sobra tempo. É uma decisão que sustenta todas as outras áreas da vida. Quando ela entende isso, deixa de se colocar sempre no fim da lista”, comentou.

Esse olhar também se traduz em iniciativas fora do consultório. Em uma ação de incentivo ao movimento, Aloma organizou uma corrida que reuniu cerca de 150 pessoas, propagando a ideia de que hábitos saudáveis podem começar com orientação e acolhimento.

A dimensão mais sensível do trabalho aparece nas histórias que chegam ao consultório. Muitas pacientes relatam frustração após tentativas sem resposta, dores desacreditadas e impactos que envolvem autoestima, relacionamentos e medo de envelhecer.

“Quando uma mulher segura minha mão e deposita esperança naquele atendimento, eu entendo a dimensão desse encontro. Ela leva sua história, sua autoestima, seu relacionamento e o desejo de recuperar qualidade de vida”, reflete.

Dentro do cuidado integral, Aloma também atua com medicina regenerativa voltada à saúde feminina, especialmente em casos de ressecamento vaginal, dor na relação, perda de elasticidade e desconfortos íntimos.

“A tecnologia pode ser uma aliada quando existe indicação, mas não deve transformar o corpo feminino em uma cobrança permanente. O cuidado precisa nascer de uma necessidade real da mulher, não de um padrão imposto”, afirma.

Uma clínica voltada ao cuidado integrado

Essa mesma visão orienta a Clínica Lifetime, em Fortaleza, idealizada por Aloma para reunir diferentes frentes de cuidado em um só lugar. O espaço integra ginecologia com áreas como nutrição, mastologia, fisioterapia e terapias de suporte.

A proposta é oferecer uma jornada mais organizada, evitando que a paciente precise buscar orientações fragmentadas.

“Eu quis construir um espaço em que a mulher se sentisse acompanhada. Muitas vezes, ela precisa de mais de um olhar, e esses cuidados precisam estar conectados para que o caminho faça sentido”, explica.

Para a médica, o acolhimento também está na experiência completa: no tempo de escuta, na clareza das orientações e na sensação de continuidade no cuidado.

Informação e futuro da saúde feminina

Com o acesso crescente à informação, muitas mulheres chegam ao consultório após pesquisar sintomas e tratamentos. Aloma vê esse movimento como positivo, desde que acompanhado por orientação segura.

“Conhecimento liberta, mas precisa vir acompanhado de responsabilidade. A paciente quer entender o próprio corpo, e o médico precisa estar preparado para dialogar”, afirma.

Nas redes sociais, ela aborda menopausa, hormônios, prevenção e estilo de vida em linguagem acessível, ajudando mulheres a reconhecerem sintomas antes ignorados.

Para o futuro, defende uma medicina menos centrada na doença e mais comprometida com prevenção. A mulher jovem, segundo ela, deve construir saúde antes da maturidade. Já aquela que atravessa o climatério ou a menopausa não precisa aceitar a perda de qualidade de vida como inevitável.

“Quero que as mulheres valorizem seus sintomas e não se conformem com uma vida sem energia, sem sono, sem desejo ou sem qualidade. Envelhecer bem exige cuidado, movimento, prevenção e coragem para buscar ajuda. Nós merecemos viver com vitalidade, autonomia e plenitude”, conclui.

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