Oswaldo Frazão mostra como a visão pode devolver autonomia ao paciente

Oftalmologista de Belém fala sobre catarata, presbiopia, tecnologia e a escuta humanizada que guia sua atuação na Amazônia

Fotos: Laís do Vale e Iecila Noronha

Para Oswaldo Cardoso Frazão Neto, a oftalmologia não se resume à nitidez das imagens. Em sua prática, enxergar melhor pode significar voltar ao trabalho, recuperar independência, retomar hábitos simples e participar novamente da própria rotina. É a partir dessa compreensão que o oftalmologista paraense constrói uma trajetória marcada por ciência, tecnologia e atenção às histórias que chegam ao consultório.

A escolha pela medicina nasceu ainda na infância, pela influência do avô, figura paterna que apresentou a profissão como uma forma de cuidado. Não havia, em sua trajetória, uma tradição familiar previamente desenhada na área médica. Havia, sobretudo, uma admiração construída dentro de casa.

“A medicina apareceu para mim de uma maneira muito afetiva. Meu avô falava sobre a beleza de cuidar das pessoas, sobre a dignidade de estar a serviço do outro. Antes de entender a profissão pela técnica, eu a entendi pelo cuidado”, relembra.

Formado pela Universidade do Estado do Pará, Oswaldo se aproximou da oftalmologia durante a graduação. A especialidade chamou sua atenção por unir atendimento clínico e cirurgia, mas ganhou sentido definitivo quando ele percebeu o impacto de devolver a visão a alguém. Depois, seguiu para a residência médica em oftalmologia na Universidade Federal do Pará, onde também consolidou parte importante de sua formação acadêmica e assistencial.

“A oftalmologia me permitiu unir duas dimensões que sempre me atraíram: a escuta do consultório e a precisão da cirurgia. Mas o que realmente me marcou foi compreender que recuperar a visão pode devolver liberdade, segurança e autonomia a uma pessoa”, afirma.

Mestre e em fase final de doutorado, ele também atua na formação de novos médicos. Sua prática se concentra principalmente em catarata, presbiopia, lentes intraoculares e avaliação para redução da dependência de óculos, sempre com planejamento individualizado.

O cuidado que nasce da escuta

Parte importante do olhar de Oswaldo foi moldada no Sistema Único de Saúde e no contato com populações indígenas da Amazônia. Em seu doutorado, ele pesquisa a deficiência visual para perto em povos indígenas, com estudo envolvendo cerca de 20 etnias, inclusive em regiões de fronteira da Amazônia Legal.

A vivência com povos originários ampliou sua percepção sobre cultura, linguagem e respeito. Para ele, a medicina não pode ignorar a forma como cada pessoa compreende o próprio corpo, a própria história e suas tradições.

“O contato com os povos indígenas ampliou minha visão de mundo. Ele me mostrou que o cuidado não começa quando o médico explica uma conduta, mas quando ele se dispõe a compreender quem está diante dele. Sem escuta, a técnica perde parte do seu sentido”, reflete.

Essa visão aparece também no consultório. Oswaldo evita uma comunicação excessivamente técnica e busca traduzir diagnósticos de maneira simples, sem infantilizar o paciente. Para ele, explicar bem é parte do tratamento, especialmente quando existe medo.

“Muitas vezes, o paciente chega assustado porque não entende o que está acontecendo. Quando a informação vem de forma clara, ele deixa de ser apenas alguém que recebe uma orientação e passa a participar da decisão sobre a própria saúde”, explica.

Quando voltar a enxergar muda uma vida

Entre os casos que marcaram sua carreira está o de um paciente do Marajó, de 44 anos, que procurou atendimento acreditando estar definitivamente cego. Queria apenas um laudo para solicitar aposentadoria. Durante a avaliação, Oswaldo identificou catarata e explicou que havia possibilidade de tratamento.

Após a cirurgia, o paciente voltou a enxergar e retomou o trabalho. No retorno seguinte, entrou sozinho no consultório, sem o acompanhante de antes. Para o oftalmologista, aquele gesto resumiu o impacto da visão na vida cotidiana.

“Existem momentos em que a medicina nos lembra por que escolhemos esse caminho. Ver alguém que dependia de outra pessoa voltar a entrar sozinho em um consultório mostra que a visão não devolve apenas imagens. Ela devolve pertencimento, confiança e presença no mundo”, diz.

Tecnologia com critério

A evolução das lentes intraoculares e das técnicas cirúrgicas ampliou as possibilidades da oftalmologia. Na cirurgia de catarata, o cristalino opaco pode ser substituído por uma lente intraocular. Em alguns casos, essas lentes também podem contribuir para reduzir a dependência de óculos, inclusive em pacientes com dificuldade para enxergar de perto.

Oswaldo, no entanto, reforça que a tecnologia precisa vir acompanhada de critério. A decisão depende de exames, saúde ocular, rotina, profissão, uso de telas, leitura, direção noturna e expectativas reais do paciente.

“A tecnologia abre caminhos, mas não substitui o planejamento. Antes de indicar uma lente ou uma cirurgia, eu preciso entender como aquela pessoa vive, o que ela perdeu por causa da visão e quais são as necessidades que realmente importam para sua qualidade de vida”, ressalta.

O medo da cirurgia ocular ainda é comum, principalmente entre pacientes que carregam referências antigas. Por isso, ele dedica parte do atendimento a explicar o procedimento. Na técnica de facoemulsificação, usada na cirurgia de catarata, o cristalino é fragmentado por ultrassom e aspirado por uma pequena incisão. A lente intraocular é implantada no mesmo local, e a conduta anestésica depende de avaliação médica.

“O medo precisa ser acolhido, não ignorado. Quando alguém vai operar os olhos, está lidando com uma vulnerabilidade profunda. Meu papel é explicar com honestidade, mostrar os limites, falar dos cuidados e conduzir o paciente com segurança em cada etapa”, afirma.

Informação, ensino e novos caminhos

Além do consultório, Oswaldo utiliza as redes sociais como ferramenta de educação em saúde. Com linguagem acessível, responde dúvidas sobre catarata, presbiopia, lentes intraoculares e cuidados com a visão. A proposta é aproximar o paciente da informação correta, sem prometer resultados e sem simplificar demais temas que exigem avaliação individual.

Na formação de residentes, ele procura transmitir a mesma visão. Para o oftalmologista, a técnica é indispensável, mas não basta. A medicina exige presença, empatia e responsabilidade na forma de comunicar.

Com o doutorado em fase final, Oswaldo planeja ampliar sua atuação para outros centros do país, incluindo o Rio de Janeiro. A ideia, segundo ele, não é se afastar da Amazônia, mas construir pontes, trocar experiências e trazer conhecimento para a região Norte.

“A Amazônia precisa de profissionais que estudem, circulem, aprendam com grandes centros e façam esse conhecimento voltar para a nossa população. A ciência só cumpre seu papel quando chega às pessoas”, projeta.

Ao olhar para o futuro, Oswaldo retoma a essência que aprendeu ainda na infância: a medicina como cuidado. Para ele, nem todo caso termina em cura, mas todo atendimento pode oferecer presença, orientação e acolhimento.

“A técnica nos permite tratar muitas doenças, mas é o acolhimento que sustenta a medicina quando a cura não é possível. Cuidar é também permanecer ao lado do paciente, ajudá-lo a atravessar o medo e lembrar que sempre existe uma forma humana de amparar”, conclui.

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