Paula Klein trata a pele sem separar saúde, imagem e rotina
Com atuação clínica e estética, dermatologista fala sobre origem, amadurecimento e a escolha por um cuidado sem exageros.

A pele costuma dizer antes o que a vida ainda não organizou em palavras. O estresse, o tempo, a doença, a insegurança e até a perda de brilho aparecem nela com uma franqueza difícil de esconder. Foi nesse território visível e íntimo que Paula Klein reconheceu, muito cedo, o lugar onde queria trabalhar. Hoje, sua atuação reúne clínica e estética sem transformar o paciente em vitrine nem reduzir o cuidado ao que se vê no espelho.
Origens e formação
Antes de vestir o jaleco, Paula conheceu a dermatologia como paciente. Na infância, conviveu com dermatite atópica. Depois vieram acne e estrias, experiências que ajudaram a moldar sua percepção sobre o impacto da especialidade na vida cotidiana. Mais do que tratar a pele, ela viu de perto o alívio de ser compreendida naquilo que incomodava.
“Eu frequentava muito o dermatologista porque tinha doença de pele. E saía de lá feliz, porque estava tratando algo que me incomodava. Acho que hoje replico um pouco do que vivi, porque o paciente também chega com uma dor, mesmo quando os outros acham que aquilo é pequeno.”
Há também um traço de identificação que atravessa sua prática. Paula não fala da dermatologia de um lugar distante. Fala como alguém que conheceu cedo o desconforto de viver na pele algo que incomoda e que entendeu, ainda jovem, o impacto que esse cuidado pode ter sobre a forma de existir no mundo.
A decisão pela Medicina veio acompanhada de outra, ainda mais precisa. Sem médicos na família, Paula entrou na faculdade já convicta da área que seguiria. Formou-se na PUCRS, em Porto Alegre, e fez residência em Dermatologia na Universidade Federal da Fronteira Sul, em Passo Fundo.
“Quando entrei na Medicina, já sabia desde o primeiro dia que seria dermatologista. Era uma certeza muito clara para mim.”
A virada profissional e o amadurecimento da prática
Nos primeiros anos de trabalho, o ritmo intenso dos atendimentos ajudou a consolidar a forma como ela enxerga a consulta. A agenda podia ser corrida, mas a experiência ensinou que o peso daquele encontro nunca é o mesmo para quem atende e para quem busca ajuda.
“Para mim, podia ser mais um horário do turno. Para o paciente, às vezes, era o evento do dia, talvez do mês. Isso me ensinou a não tratar nenhuma consulta como algo banal.”
Foi também nesse período que Paula definiu com mais nitidez o tipo de dermatologia que queria construir. Ao terminar a especialização, percebeu que não se identificava com intervenções excessivas nem com resultados que apagassem traços e identidade. A escolha, desde então, passou a ser por uma estética gradual, discreta e coerente com a vida real.
“Não sou contra procedimento estético, de maneira alguma. Mas gosto de um resultado natural, de uma melhora que respeite quem a pessoa já é. Não quero nada que a pessoa sinta como estranho ao próprio rosto.”

O cuidado que começa antes da prescrição
Hoje, a estética ocupa boa parte de sua rotina, mas Paula insiste em dizer que o trabalho começa antes de qualquer indicação. Entender a vida do paciente é parte essencial do processo. Rotina, exposição, medo de agulha, tempo de recuperação e disponibilidade para aderir ao tratamento entram na equação com o mesmo peso da queixa principal.
“Todos os detalhes da rotina interferem na escolha. Eu preciso entender quem está na minha frente, porque não existe uma resposta igual para todo mundo.”
A mesma lógica vale para a clínica. Entre os quadros que mais acompanha estão doenças imunomediadas, como psoríase, dermatite atópica e hidradenite supurativa, condições que exigem continuidade, escuta e orientação clara. Em qualquer frente, ela evita conduzir o paciente como alguém que apenas recebe ordens.
“O paciente se sente acolhido quando participa da escolha. Ele entende as possibilidades, compreende os limites e decide comigo o que faz sentido para a vida dele.”
Na estética, uma ideia atravessa toda a sua prática: beleza não é ruptura, mas construção. O tratamento, para ela, não deve prometer um retorno fantasioso ao passado, e sim uma reconciliação possível com a própria imagem.
Autoestima, dúvidas recorrentes e limites éticos
Ao falar de estética, Paula rejeita a leitura apressada de que todo incômodo com a aparência é futilidade. No consultório, ela vê mulheres que deixam de se reconhecer no espelho, pacientes que evitam fotos e pessoas que demoram anos até se autorizarem a cuidar de si.
“Cada pessoa sabe o que a incomoda. Tem paciente que diz que já não se reconhece mais no espelho, que evita fotografia, que deixa de se sentir bem em momentos importantes. Isso interfere na vida.”
Ela observa dois períodos em que essa busca costuma ganhar força: o pós-menopausa e o pós-divórcio. Em ambos, surge uma tentativa de reorganizar a própria imagem sem abrir mão da identidade.
“Acho que o momento ideal para buscar ajuda é quando a mulher percebe que deixou de se sentir aquela mulher poderosa que sempre foi. Não porque exista um padrão, mas porque ela sente que perdeu um brilho que era dela.”
Ao mesmo tempo, Paula considera parte da ética saber conversar. Não aponta defeitos que o paciente não trouxe e evita alimentar inseguranças em nome de consumo. Essa postura também aparece quando se fala das dúvidas mais comuns do consultório. A internet, diz ela, trouxe excesso de informação, rotinas de skincare infladas e expectativas irreais.
“Com um sabonete, um protetor solar e um hidratante, muita gente já faz o básico muito bem. O problema é quando a pessoa compra vários produtos, não conhece a própria pele e espera de um frasco o que só o tempo e a constância conseguem entregar.”
Também por isso, prefere explicar o tratamento como processo, e não como promessa. Para Paula, quase sempre o resultado vem de combinação, continuidade e escolha cuidadosa, não de uma solução única e imediata.
Planos e visão de futuro
Ao olhar para os próximos anos, Paula fala em crescimento, atualização e partilha de conhecimento, mas sem abandonar a clínica nem a ideia de que sua formação existe, antes de tudo, para promover saúde. Mesmo com forte atuação em dermatologia estética, ela não quer perder a visão global do paciente.
“Eu não quero ser uma pessoa que trabalha apenas com estética. Quero manter o cuidado clínico, porque minha formação foi para promover saúde e olhar o paciente de forma mais ampla.”
Essa direção também aparece no modo como pensa o consultório e a equipe: um espaço em que técnica e delicadeza caminhem juntas, sem excessos, sem pressa e sem transformar vulnerabilidade em produto. No fim, sua trajetória parece voltar sempre ao mesmo ponto de origem: a convicção de que tratar a pele é, muitas vezes, devolver presença e confiança a alguém.
“Eu vejo que a dermatologia transforma a vida das pessoas. No fim das contas, tanto a doença quanto a beleza falam de vida, e todo paciente merece se sentir confortável na própria pele.”
CRM-RS: 41401 RQE Nº: 38101
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