Mayra Fontainhas vê no acolhimento uma força da obstetrícia
Ginecologista e obstetra relembra a própria trajetória e reflete sobre alto risco, vínculo com a paciente e humanização no parto

Antes do nascimento, há uma travessia que nem sempre aparece para quem vê a maternidade de fora. Entre exames, medos, decisões clínicas e expectativas, Mayra Fontainhas aprendeu a sustentar, dentro da rotina intensa da obstetrícia, um espaço de escuta. Ginecologista e obstetra, ela construiu a própria atuação a partir da tentativa de conciliar o que muitas vezes parece separado no imaginário das pacientes: segurança técnica e acolhimento real.
Esse olhar não surgiu pronto. Foi sendo lapidado na formação, na convivência com a história da própria família e, mais tarde, no contato diário com mulheres que chegam ao consultório em momentos de vulnerabilidade, dúvida e transformação. Ao falar sobre a profissão, Mayra volta sempre à ideia de presença, vínculo e respeito à autonomia da paciente, inclusive quando o tema é gestação de alto risco.
Origens e formação
Filha de portugueses que vieram para o Brasil como refugiados da guerra civil em Angola, Mayra cresceu sob a marca do recomeço. A experiência dos pais, que precisaram reconstruir a vida no Rio de Janeiro, deu à formação das filhas um peso afetivo especial. A irmã mais velha escolheu a medicina primeiro, e foi por esse caminho que Mayra começou a se reconhecer também. “Meus pais tinham uma vida estruturada e vieram para o nada. Então, formar duas filhas médicas no Brasil tinha um significado muito grande para eles”.
O desejo de cuidar apareceu cedo, mas com um contorno muito próprio. Ela sabia que queria uma medicina voltada à assistência, sem se ver em áreas marcadas por trauma e emergência. Foi ao acompanhar partos ainda na faculdade que a obstetrícia ganhou forma definitiva. “Quando comecei a entrar nas salas de parto, entendi que queria cuidar da mãe, da mulher e do bebê ainda dentro da barriga. Era esse momento da medicina que fazia sentido para mim”.
A formação seguiu esse caminho. Mayra fez residência voltada para gestação de alto risco e, já com a prática consolidada, decidiu aprofundar também a saúde hormonal feminina. O movimento nasceu da escuta clínica: as pacientes foram mudando de fase, e ela percebeu a necessidade de ampliar o olhar para além da gestação, acompanhando a mulher em outros ciclos da vida.
A virada profissional e o amadurecimento da prática
A obstetrícia de alto risco se tornou um eixo natural de sua atuação porque, na prática, boa parte das gestações exige atenção ampliada. Hipertensão, diabetes gestacional, alterações da tireoide e trombofilias aparecem com frequência no consultório e pedem preparo técnico para que o cuidado não se fragmente. “A gestação de alto risco assusta no nome, mas, quando bem acompanhada, torna-se uma gestação de risco controlado. O problema é quando esse risco é ignorado ou mal conduzido’’.
Com o tempo, Mayra também amadureceu a forma de se posicionar diante da paciente. Para ela, o acolhimento não é um detalhe de personalidade, mas parte concreta da assistência. Isso exige disponibilidade, clareza e construção de confiança ao longo do pré-natal. “A mulher precisa entender que está sendo acompanhada por alguém que olha para o exame, mas que também olha para ela. O vínculo não é um adorno do cuidado; ele faz diferença na forma como essa paciente atravessa a gestação’’.

O que faz na prática e como funciona o cuidado
Na rotina clínica, Mayra acompanha desde o planejamento gestacional até o parto e o pós-parto, com atenção especial às pacientes que precisam de seguimento mais rigoroso. Ao explicar sua prática, procura tirar o peso excessivo de certos diagnósticos sem minimizar a importância deles. A ideia é traduzir o cenário de forma compreensível e responsável, para que a paciente saiba o que precisa ser monitorado e o que pode ser vivido com tranquilidade.
Essa mesma lógica aparece na forma como descreve a humanização. Para Mayra, o conceito foi muitas vezes reduzido à defesa exclusiva do parto normal, quando, na verdade, deveria se referir ao respeito às escolhas da mulher dentro da segurança clínica possível. “Muita gente confunde parto normal com parto humanizado. Todo parto precisa ser humanizado. Isso começa na consulta, quando a paciente é ouvida, orientada e respeitada no que deseja”.
Ela afirma que a cesariana também pode ser vivida de forma humanizada, desde que a mulher participe das decisões, compreenda o que está acontecendo e permaneça assistida pela equipe em um ambiente de cuidado. O ponto central, em sua visão, não é impor um modelo ideal de parto, mas construir uma assistência que não apague a autonomia da paciente.
O lado humano da decisão
Ao acompanhar mulheres em um momento tão intenso, Mayra aprendeu a lidar com a potência e a fragilidade que convivem no parto. Há expectativa, medo, dor e, em muitos casos, o receio de não ser respeitada. A violência obstétrica aparece entre os temores mais recorrentes das pacientes, e ela vê nisso um sinal de mudança de época. As mulheres estão mais informadas, questionam mais e desejam compreender as condutas médicas. Para a obstetra, essa transformação é legítima e exige uma medicina menos autoritária.
O plano de parto, nesse contexto, funciona como ferramenta de alinhamento, não como documento rígido. “Costumo explicar que o plano de parto é como uma viagem: você organiza o roteiro, sabe o que gostaria de viver, mas entende que o percurso pode mudar. O importante é que a paciente conheça as possibilidades e participe das decisões”. Para ela, o cuidado mais ético é justamente aquele que combina preparo técnico com capacidade de escuta, inclusive diante do imprevisto.
Dúvidas recorrentes e erros silenciosos
Entre as dúvidas mais frequentes, uma aparece antes mesmo da gravidez: o que precisa ser feito para se preparar. Mayra reforça a importância da consulta pré-concepcional, do controle de doenças já existentes, da investigação adequada e do uso prévio de ácido fólico. Também fala da necessidade de conhecer melhor o próprio corpo, inclusive os sinais do ciclo, sem transformar essa observação em autodiagnóstico.
Nos últimos anos, a saúde hormonal feminina passou a ocupar espaço maior em sua prática, mas sem tirar o foco principal da obstetrícia. Ao abordar esse tema, Mayra prefere a cautela à fórmula pronta. “A mulher atravessa fases diferentes, e cada uma delas pede escuta, investigação e acompanhamento individualizado. Não existe cuidado sério quando a paciente é tratada como se todas tivessem a mesma experiência”.
Planos e visão de futuro
Quando pensa no futuro, Mayra não fala em expansão grandiosa. O que aparece com mais força é o desejo de seguir sendo uma presença confiável para as pacientes, mantendo a combinação entre atualização técnica e proximidade humana. Em um cenário em que a aparência de autoridade circula com facilidade, ela insiste na importância da formação, da responsabilidade e da escuta como bases do cuidado.
No fim, é essa permanência que parece orientar sua trajetória: a de uma médica que escolheu estar ao lado da mulher nos momentos em que informação, presença e segurança precisam caminhar juntas.
“Espero deixar a lembrança de que aquela mulher foi acolhida de verdade, respeitada em suas escolhas e encontrou, naquele momento tão sensível, alguém capaz de cuidar dela com escuta, responsabilidade e presença”.
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