Na obstetrícia de Wànessa Guedes, humanizar começa antes do parto

A obstetra fala sobre trajetória, humanização e os desafios de uma obstetrícia que não reduz a mulher ao procedimento

Fotos: @ericamarques_fotografia

Há profissionais que observam a gestação a partir dos exames, dos protocolos e da contagem do tempo. Wànessa Guedes escolheu olhar também para o que não aparece no ultrassom ou nos resultados laboratoriais. Para a obstetra, a gravidez atravessa medos, conflitos familiares, expectativas e descobertas profundas. É nesse ponto que sua prática ganha contorno próprio: antes de discutir a via de parto, ela fala em presença e insiste em olhar para todo o percurso.

Natural de Goiânia e radicada em Fortaleza há oito anos, a médica sustenta uma convicção que atravessa sua trajetória: a humanização não é um detalhe do nascimento, mas uma forma de cuidado que começa no primeiro atendimento e segue até o puerpério. Há mais de 15 anos acompanha mulheres e, há 10, dedica-se exclusivamente à obstetrícia.

Origens e formação

Wànessa não cresceu em uma família de médicos. Quando volta à própria história, prefere começar por uma casa simples, uma família humilde e pais que viam no estudo a melhor herança possível para os filhos. O pai era comerciante, a mãe, dona de casa. “Tudo que meu pai trabalhava, conquistava, era realmente para investir na educação dos filhos”, lembra.

O primeiro grande espelho dentro de casa foi o irmão, cinco anos mais velho, que seguiu a medicina e ajudou a transformar um sonho distante em possibilidade concreta. “Ele mostrou para toda uma geração ali do bairro, inclusive para mim, que o impossível era possível. Que se ele conseguiu, a gente também podia conseguir”, diz. Hoje, ele é cirurgião-geral. Naquele momento, foi a prova de que a origem não precisava determinar limites.

Com ela, a obstetrícia não apareceu como dúvida tardia nem como escolha por eliminação. O desejo de cuidar de mulheres esteve presente desde cedo e depois se concentrou na gestação, no parto e no pós-parto. Ao falar da base sobre a qual construiu a própria prática, volta à família e ao exemplo do pai, que ensinou, pela vivência, que cuidado também é partilha. “Essa essência da humanização, eu não tenho nenhuma dúvida que é herança da minha família”, afirma.

A virada profissional e o amadurecimento da prática

Embora o termo “parto humanizado” tenha se popularizado, Wànessa prefere ampliar esse entendimento. “Eu não falo muito de parto humanizado, eu falo de obstetrícia humanizada. Porque essa humanização inicia desde o primeiro dia da consulta”, explica.

Essa escolha muda a própria ideia de pré-natal. “A mulher precisa de colo, ela precisa ser escutada. Ela precisa ser realmente a protagonista como um todo”, afirma. A gestante pode chegar ao consultório com exames em ordem e, ao mesmo tempo, atravessando conflitos no relacionamento, inseguranças ou sobrecarga com outros filhos. Ignorar esse contexto, na visão da médica, seria oferecer uma assistência incompleta.

Ela também associa esse olhar à epigenética, no sentido de perceber que o desenvolvimento do bebê é influenciado pelo ambiente em que a gestação acontece, da alimentação ao estado emocional.

O que faz na prática e como funciona o atendimento

Na rotina, essa visão se traduz em um acompanhamento que busca individualizar cada processo. Wànessa rejeita a ideia de uma obstetrícia em série. “Não existe você ter uma produção em série de partos. Cada corpo é um corpo, cada bebê é um bebê”, resume.

Para ela, o parto é um acontecimento singular, atravessado por corpo, contexto e expectativas. Essa individualização aparece desde a escolha da equipe até o plano de parto e a forma como a paciente recebe informação ao longo do pré-natal. Wànessa trabalha com equipe multidisciplinar e, quando necessário, faz encaminhamentos para psicólogo, nutricionista e fisioterapia pélvica. “Nós caminhamos esse processo todos juntas”, diz.

Esse arranjo não elimina a imprevisibilidade da obstetrícia, mas muda a maneira como ela é enfrentada. “Uma paciente bem informada e segura, se durante esse caminho nós precisarmos mudar de rota, ela vai ter tanta confiança em você que esse processo vai ser leve”, afirma.

Ao tratar da cesárea, ela foge de simplificações. Não a vê como oposta à humanização, nem o parto vaginal como garantia automática de uma experiência respeitosa. “A humanização não tem nada a ver com a via de parto”, sintetiza.

O lado humano da saúde e da decisão

Se existe um tema que atravessa sua fala, é o medo. Não apenas o medo do parto, mas o medo de não conseguir, de não suportar a dor e de repetir histórias ouvidas na família. Nesse ponto, sua atuação passa por um trabalho de ressignificação. “Às vezes foi o medo da avó que não conseguiu, da mãe que não conseguiu, mas ela vai conseguir”, diz.

Ela também combate mitos que ainda aparecem com força no consultório, como a ideia de que bebê grande “não passa”, de que a mulher “não tem passagem” ou de que a história obstétrica da família determina o que vai acontecer com ela. “Isso realmente não existe”, afirma. Ao mesmo tempo, não romantiza a experiência. Reconhece que a dor continua sendo uma das principais dúvidas das pacientes e fala sobre analgesia de parto, banho quente, música, massagem e preparação emocional.

Esse cuidado não termina com o nascimento. Embora não coloque o puerpério no centro da própria fala, deixa claro que o pós-parto é parte da assistência. “Cada mulher, eu falo sempre, elas vão no meu consultório agradecer, e eu que agradeço pela oportunidade de acompanhar cada história”, conta.

Dúvidas recorrentes e erros silenciosos

Entre as dúvidas mais frequentes, a maior continua sendo a dor e, junto com ela, a escolha da via de parto. Mas há também erros mais silenciosos, ligados à gestação. Ela cita sinais de alerta que não deveriam ser minimizados, como perda de líquido, sangramento vaginal e diminuição dos movimentos fetais, além da atenção à infecção urinária, que pode surgir de forma assintomática.

Outro ponto que a preocupa é o excesso de informação sem base científica nas redes sociais. Segundo ela, não é raro que pacientes cheguem ao consultório com ideias equivocadas que afetam decisões importantes do pré-natal. Em obstetrícia, lembra, há exames e suplementações cujo tempo é decisivo. Sem abandonar a crítica, Wànessa vê também um avanço nas mulheres que hoje chegam mais conscientes dos próprios direitos.

Planos e visão de futuro

Ao falar do que deseja para frente, Wànessa não descreve expansão ou metas numéricas. O centro do discurso permanece o mesmo: ampliar a circulação dessa ideia de cuidado. “Isso tinha que ser algo muito natural”, afirma, ao defender que uma assistência mais humana deixe de ser exceção e esteja presente em qualquer maternidade.

Também cita o desejo de que recursos como a analgesia de parto sejam mais acessíveis. No fim, sua defesa de uma obstetrícia humanizada não se organiza como slogan, mas como uma recusa diária a reduzir a mulher ao procedimento.

“Cerque-se de pessoas que acreditem no seu sonho, seja ele qual for, seja a via de parto que for. Cerque-se de pessoas que segurem na sua mão, olhem no seu olho e façam você seguir em frente, viver o processo e alcançar o seu propósito. Com essas pessoas do seu lado, eu tenho certeza de que vai dar tudo certo.”

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