Anselmo Fernandes coloca escuta e realidade no centro da ortopedia
Com trajetória ligada ao esporte e à escuta clínica, ele mostra por que dor, limite e autonomia pedem técnica, tempo e leitura do cotidiano

O joelho costuma chamar atenção quando dói, mas quase nunca é ali que a história começa. Antes do diagnóstico, há mudanças miúdas que se acumulam no cotidiano: um caminho encurtado, uma escada evitada, um esforço adiado, uma confiança que diminui sem alarde. Na prática do médico Anselmo Fernandes, é nesse território entre o sintoma e a vida real que a ortopedia ganha sentido mais amplo, porque tratar uma articulação também exige entender o que ela deixou de sustentar.
Sua trajetória ajuda a entender por que essa leitura aparece com tanta força em sua prática. Nascido em Petrópolis (RJ), com formação médica construída fora da cidade e residência realizada de volta à terra natal, ele chegou à ortopedia por um caminho em que se cruzam memória familiar, esporte, lesões, recuperação e observação do cotidiano. Ao longo do tempo, a cirurgia do joelho se consolidou como eixo central de sua atuação, mas foi a convivência com a dor, a limitação e a ansiedade dos pacientes que moldou uma visão mais ampla do cuidado. Em vez de olhar apenas para a imagem, ele insiste em olhar para a pessoa que está por trás dela.
Origens e formação
A medicina começou a ganhar outro significado na vida de Anselmo ainda na juventude, em um momento de perda. A morte da avó, depois de um AVC e de um período de internação no CTI, deixou uma marca profunda e despertou nele uma curiosidade mais concreta pela profissão. A lembrança segue viva justamente porque vinha acompanhada de afeto e proximidade. “Nesse momento me despertou um interesse, um sentido pela medicina, eu era muito próximo da minha avó, isso me tocou.”
Pouco depois, um segundo episódio, desta vez ligado ao esporte, acabou empurrando a vida em direção parecida. Vinculado a diferentes modalidades desde cedo, ele jogava futebol em um clube de Petrópolis e chegou a ser chamado para fazer um teste no Vasco da Gama. Precisava do apoio do pai para investir naquele sonho, mas ouviu que o melhor seria estudar. A frustração do momento permaneceu na memória, mas, com o tempo, ganhou outro peso. “Na época eu fiquei bem chateado, mas foi uma decisão que ele tomou e foi assertiva, deu tudo certo.”
A ligação com o esporte, no entanto, nunca saiu de cena. Ao contrário. Tornou-se um ponto de apoio para a escolha da especialidade. Anselmo se formou em Medicina na Unigranrio, em Duque de Caxias (RJ), e fez residência médica em ortopedia em Petrópolis. Não havia médicos na família. A mãe era professora, o pai engenheiro e o irmão piloto de avião. O interesse pela área veio menos de uma herança familiar do que da observação prática do corpo em movimento, das lesões e da recuperação. “Eu sempre me machuquei muito, e eu achava interessante a forma de se cuidar, de tomar um remédio, botar um gelo, sentir a recuperação.”
Essa familiaridade com o universo esportivo fez com que a ortopedia aparecesse cedo como destino. Enquanto muitos passam boa parte da graduação tentando escolher um caminho, ele afirma que entrou na faculdade já com esse horizonte desenhado. “Eu já entrei na medicina querendo fazer ortopedia, porque eu queria alguma coisa que tivesse a ver com esporte. A vida toda eu nunca tive dúvida do que eu queria, não.” A escolha, portanto, foi menos uma descoberta tardia e mais o amadurecimento de algo que já vinha sendo intuído havia anos.
A virada profissional e o amadurecimento da prática
O joelho passou a ocupar lugar central durante a residência, quando Anselmo teve contato com seu primeiro módulo de subespecialidade. O encanto foi imediato. As cirurgias, os pacientes e o pós-operatório despertaram um interesse que ainda era inicial, mas já apontava uma direção. Ao longo da formação, essa tendência se confirmou, até se transformar em escolha consolidada.
Quando saiu da residência e entrou de vez na prática clínica, a cirurgia do joelho foi se firmando como principal frente de atuação. Mais tarde, por volta de 2015 e 2016, outra área começou a chamar sua atenção: a medicina regenerativa. Naquele momento, o tema ganhava força no Rio de Janeiro, e ele decidiu buscar formação complementar, entrar para a Sociedade Brasileira de Medicina Regenerativa e estudar mais profundamente as possibilidades clínicas ligadas a esse campo. O novo interesse não substituiu a cirurgia, mas ampliou sua maneira de pensar o cuidado.
Hoje, essas duas frentes convivem. De um lado, a rotina com próteses, reconstruções ligamentares, osteotomias e outras cirurgias do joelho. De outro, abordagens voltadas a pacientes que não têm indicação cirúrgica imediata ou que ainda podem percorrer outro caminho antes de chegar à sala operatória. Essa combinação foi amadurecendo uma percepção que aparece com clareza em sua fala: nem todo exame grave exige a mesma resposta, e nem toda dor pode ser compreendida fora da vida concreta de quem a sente.
A experiência com produção científica durante a residência também contribuiu para essa formação. Anselmo lembra com carinho de colegas ligados à pesquisa e reconhece o valor desse período, embora admita que o ritmo da profissão o tenha afastado de uma dedicação acadêmica mais intensa. “Eu ainda tenho, eu gosto, acho legal, acho bem interessante, mas é que dá trabalho, dá trabalho e precisa de um incentivo que a gente na maioria das vezes não tem.” O interesse permaneceu, mesmo que o cotidiano da prática tenha tomado a frente.

O que faz na prática e como funciona sua abordagem
No consultório, a porta de entrada continua sendo quase sempre a mesma: dor. Mas a dor não chega sozinha nem significa a mesma coisa para todos. Entre os pacientes mais velhos, a artrose do joelho domina grande parte das queixas. Entre os mais jovens, aparecem com mais frequência lesões traumáticas, especialmente meniscais e ligamentares. Há ainda quadros pontuais, como lesões condrais e condropatia patelar, mas o cenário geral costuma se dividir entre processos degenerativos e traumas.
A questão é que o sintoma, para ele, não pode ser separado do contexto. Estalos, crepitações, inchaços sem motivo claro, dificuldade para certos movimentos, dor para subir uma escada ou descer uma ladeira já podem indicar que a articulação está pedindo atenção. O problema é que muitas pessoas foram educadas a procurar ajuda só quando a dor se torna incontornável. Nesse intervalo, muita coisa se perde.
Seu raciocínio clínico passa justamente por não reduzir a consulta a uma leitura apressada da imagem. “A gente deixa de parar de olhar às vezes para o paciente e passa a olhar o exame.” Para ele, uma das distorções da prática atual é o abandono das etapas clássicas da medicina, substituídas pela urgência do diagnóstico imediato. “Você tem anamnese, exame físico e exame complementar. O exame se chama complementar porque ele complementa uma avaliação que você já tem.” Quando isso se inverte, a imagem passa a comandar a conduta antes que o corpo e a história sejam de fato compreendidos.
Essa defesa do exame físico e da escuta não é apenas conceitual. Ela nasce da percepção de que as doenças podem parecer semelhantes sem serem iguais. Um joelho não é o outro. Uma limitação não tem o mesmo peso para todas as pessoas. O que um exame mostra precisa ser cruzado com a idade, a rotina, o medo, a expectativa, o tipo de trabalho, a condição emocional e a vida que aquele paciente precisa sustentar. É por isso que, em sua visão, o consultório não pode funcionar como indústria. “Não é uma indústria.”
Ao falar de avanços da cirurgia do joelho, Anselmo lembra da transição que viveu nas reconstruções ligamentares, quando técnicas antes guiadas por parâmetros métricos deram lugar a uma visão mais anatômica e individualizada. Cita também a robótica nas próteses como um passo importante, embora reconheça que ainda seja um recurso restrito a poucos centros, sobretudo pelo custo. O interesse pela tecnologia, porém, vem sempre acompanhado de ponderação. Mais importante do que a novidade é entender até que ponto ela realmente melhora o resultado clínico e se encaixa na realidade do paciente.
O lado humano da dor e da decisão
Se a dor no joelho afeta o movimento, ela afeta também o modo como a pessoa passa a viver. Anselmo observa com frequência um processo silencioso: o paciente vai deixando de fazer determinadas coisas, mas não nomeia isso como limitação. Cria justificativas, rearranja hábitos, reduz seu mundo pouco a pouco. “O paciente vai se desculpando e vai se limitando insidiosamente sem perceber que a doença está limitando ele.”
Esse movimento aparece de formas muito concretas. A mulher que já não usa salto e atribui isso apenas à idade. A pessoa que evita visitar a casa da filha porque há escadas. Quem já não vai mais ao mercado sozinho. Quem precisa de ajuda para tarefas simples, mas normaliza a dependência como se fosse inevitável. Em estágios mais avançados, esse encolhimento da vida cotidiana costuma vir acompanhado de angústia, ansiedade, desânimo e, muitas vezes, desesperança.
É nesse ponto que a ideia de qualidade de vida ganha espessura real. Um bom resultado não se resume a tirar a dor por completo. Envolve devolver estabilidade, reduzir a sensação de insegurança, recuperar força, permitir que a pessoa volte a se sentir capaz de circular pela própria vida. Às vezes, o ganho parece pequeno para quem observa de fora, mas tem peso imenso para quem já havia se resignado à limitação. Sair de casa para ver o quintal, caminhar até a feira, tomar banho sem dificuldade, olhar o sol nascer. São imagens simples, mas que definem muito do que está em jogo.
A mesma dimensão humana aparece quando o assunto é cirurgia. O medo do paciente, segundo ele, não é só o de operar, mas o de não saber quem será depois do procedimento. Poderá voltar a praticar esporte? Vai ficar bem? Vai conseguir viver sem dor? Por isso, uma das noções mais fortes de sua prática é o alinhamento entre expectativa e realidade. “Expectativa é aquilo que o paciente imagina que vai acontecer com ele. E a realidade é aquilo que eu posso proporcionar a ele.” Para ele, tratar também é organizar esse encontro entre desejo, limite biológico e possibilidade concreta.
Dúvidas recorrentes e erros silenciosos
Entre os equívocos mais comuns que chegam ao consultório está o hábito de banalizar os sinais iniciais. Muita gente só considera a dor digna de atenção quando ela já se tornou intensa. Antes disso, estalos, crepitações, inchaços e pequenas limitações são tratados como algo passageiro ou como um preço natural do envelhecimento. Esse atraso costuma pesar especialmente nos quadros degenerativos.
No caso da artrose, ele observa dois extremos igualmente problemáticos. Há quem force a articulação para além do razoável, insistindo em atividades incompatíveis com o estágio do joelho. E há quem se entregue cedo demais à ideia de que sentir dor é normal porque envelheceu. Em ambos os cenários, o resultado costuma ser o mesmo: a procura por ajuda chega tarde, quando o processo já avançou mais do que poderia.
Outro erro recorrente está na pressa. Lesões ortopédicas obedecem a um tempo biológico que não pode ser simplesmente acelerado. Lesões ligamentares, musculares e ósseas exigem semanas ou meses de cicatrização, reabilitação e fortalecimento. Ainda assim, muitos pacientes querem abreviar as etapas, seja para voltar ao esporte, seja para retomar o trabalho ou a sensação de normalidade. Essa ansiedade, segundo ele, é um dos fatores que mais comprometem o resultado.
A prevenção, nesse cenário, passa por hábitos que parecem simples, mas fazem diferença. Controle de peso, atividade física regular, bons hábitos alimentares, ergonomia no trabalho, calçados adequados e respeito aos limites do corpo entram nessa conta. Anselmo chama atenção para o impulso comum de se aventurar em atividades para as quais o corpo não está preparado, como jogar futebol depois de anos de inatividade ou se expor a riscos em momentos de lazer. Para ele, o envelhecimento que preserva autonomia começa a ser construído muito antes de a dor aparecer. E esse raciocínio o leva a uma frase que considera central em sua prática: o músculo é uma reserva para o futuro.
Planos e visão de futuro
Ao olhar para os próximos anos, Anselmo fala de crescimento, mas em um sentido menos expansionista e mais coerente com o caminho que vem construindo. Ele está modificando o consultório e organizando uma estrutura mais voltada à medicina regenerativa, com aparelhos específicos e uma abordagem clínica que pretende aprofundar. Ao mesmo tempo, enxerga com naturalidade que a rotina cirúrgica, muito exigente fisicamente e desgastante em termos de tempo, tende a perder espaço ao longo da vida.
Não há, em sua fala, ruptura com a cirurgia nem cansaço convertido em desencanto. O que aparece é um ajuste de perspectiva. Ainda se vê com energia para seguir operando, mas reconhece que o corpo do médico também sente o peso da profissão e que certas escolhas acabam sendo revistas com o tempo. A intenção é crescer dentro da especialidade sem perder aquilo que considera essencial no atendimento: atenção, orientação e clareza.
Essa clareza se manifesta também na forma como ele descreve o encontro com o paciente. Receber na porta, apertar a mão, olhar nos olhos, ouvir de forma efetiva, explicar caminhos e limites, não transformar a consulta em mera formalidade. Para ele, orientar é parte decisiva do tratamento, porque o paciente quase sempre chega atravessado por dúvidas, medo e angústia. Quando entende o que tem, o que pode esperar e qual é o seu papel na recuperação, ele tende a se comprometer mais com o processo.
No fundo, a ortopedia que emerge de sua trajetória fala menos de performance e mais de permanência. Permanecer andando, autônomo, capaz de subir escadas, trabalhar, se mover, cuidar de si. O joelho, nessa leitura, deixa de ser apenas uma articulação problemática e se torna um retrato daquilo que a pessoa ainda consegue sustentar na própria vida.
“Não deixe que os sinais te calem. Quando a articulação começa a avisar, perceber isso a tempo pode ser decisivo para preservar movimento, independência e qualidade de vida.”
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