Aos 39, Analu Pimenta conquista grande papel ao viver Tina Turner no teatro: ‘Estava escrito’
Musical sobre a rainha do rock está em cartaz em São Paulo até julho.

Fica difícil não acreditar em destino quando conhecemos a história de Analu Pimenta (39). O ano era 2020. Produtores da Espanha buscavam no Brasil uma atriz para dar vida à eterna rainha do rock Tina Turner (1939-2023) em uma montagem musical sobre sua vida, em Madri. Analu avançou nos testes e já estava de passagem comprada quando a pandemia da covid-19 estourou pelo mundo. Seis anos depois, o espetáculo chega pela primeira vez ao Brasil e, novamente passando pela bateria de testes, Analu foi a escolhida para o papel. “Foi um processo longo e cansativo. Mas era para ser eu. Isso estava escrito na minha história”, compartilha a atriz, cantora e dubladora, em papo exclusivo com CARAS, direto do JFL, em São Paulo. “É muito doido tudo isso ter acontecido. De vez em quando, me dá a sensação de que é mentira. Parece que vou acordar e estou sonhando”, completa.
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As histórias de Tina e Analu se confundem em muitos aspectos. Ambas começaram a cantar na igreja e enfrentaram inúmeros desafios para chegar aonde queriam. O tal destino se encarregou também da grande virada em suas carreiras na mesma altura da vida. “Ela passa por muitas dificuldades e é rejeitada por ser uma mulher preta aos 40. Eu fiz 39 anos recentemente e talvez eu não achasse mais que fosse conseguir um papel de tanta relevância, mas consegui. Justamente o papel de uma mulher que teve essa virada aos 40 anos”, explica Analu.
Desafios da violência
Na peça, que mistura os clássicos originais em inglês com canções em português, passeamos por toda a trajetória da diva americana, desde o seu conturbado casamento com Ike Turner (1931-2007), marcado por uma série de abusos físicos e psicológicos, até a consagração absoluta que aconteceu justamente no Brasil, no icônico show de Tina no Maracanã, diante de público recorde de 180 mil pessoas. “Representar essa violência no palco é muito difícil. Nós mostramos isso com muita verdade. Tem muitas cenas de agressão. Acho necessário colocar o dedo na ferida. A própria Tina dizia que esse espetáculo foi como transformar o veneno em remédio para que outras pessoas pudessem ser curadas”, conta Analu, com performance impecável em cena.
Quase uma década antes de sua morte, Tina se encarregou de cuidar de cada detalhe sobre o musical, que estreou em Londres e depois seguiu para a Broadway. “A Tina me atravessa em várias camadas da minha vida. Eu vejo muito de mim nela e muito dela em mim. É emocionante e libertador contar essa história. É impossível não tocar as pessoas. A gente vê tantas histórias de mulheres violentadas com um final ruim. É bom ver o que ela se tornou. Nós estamos cumprindo a missão dela”, festeja Analu, sem segurar as lágrimas ao falar sobre a cantora.
Guerreiras do K-Pop
E parece que o acaso preparou uma surpresa em dobro para a atriz. Além de sua primeira protagonista nos palcos, ela encara a primeira protagonista na dublagem. “Eu trabalho com dublagem há tanto tempo quanto com teatro musical. A gente nunca sabe se o filme vai ser um sucesso ou não. Não tinha a menor ideia de que seria assim”, revela Ana, que empresta sua voz para Rumi, a heroína principal do longa Guerreiras do K-Pop, da Netflix, que já faturou o Grammy e o Globo de Ouro e ainda é o favorito ao Oscar de Melhor Animação. “Minha vida virou de cabeça para baixo. O K-Pop é um nicho muito grande. Eu tinha um telefone no meu perfil do Instagram para o atendimento fonoaudiólogo que faço e comecei a receber muitas mensagens de mães pedindo para que eu gravasse um áudio para os filhos delas. Virou uma febre”, relembra a mãe do pequeno Pedro (8), que a viu se transformar em uma estrela da vida real a cada vez que ela o buscava na escola.
Inspiração
Para uma estrela dar vida a outra, a dedicação é absoluta. Analu não pode se dar ao luxo de beber álcool ou dormir muito tarde e precisa ser regrada nos cuidados com a saúde, alimentação e, principalmente, com a voz. “A gente costuma dizer que, para fazer teatro musical, você precisa ser atleta. Tem que atuar, dançar e cantar. É um encaixe de tantas coisas que quando paramos para pensar, nem sabemos como damos conta”, admite. No palco, ela desaparece para que a lenda renasça. “A Tina era uma força da natureza, um furacão. Não adianta tentar imitar, ninguém vai ser como ela. Eu tive que assistir a muitos vídeos dela, claro, mas os trejeitos foram vindo aos poucos. As pessoas têm uma memória afetiva com ela, precisam reconhecer a Tina ali. É uma responsabilidade muito grande”, pondera a artista, que já esteve no elenco de grandes produções como o musical A Cor Púrpura.
Ciente de sua responsabilidade, Analu sabe que assumir um papel desse tamanho será importante para outras atrizes que ainda virão. “Temos um elenco majoritariamente preto e isso é muito forte. Não tem lugar melhor do que contar uma história que te representa. Uma história relevante e que é sobre os seus. A gente tem crianças pretas nesse espetáculo e é emocionante poder imaginar que essas crianças podem olhar para mim e pensar que podem ser essa mulher daqui a alguns anos. Eu não tive essa referência na infância e é muito lindo ver que hoje eu também posso ser”, comemora.
O carnaval passou há pouco tempo, o ano mal começou e as emoções já foram avassaladoras para Analu. Tina Turner, o Musical segue em cartaz no palco do Teatro Santander, em São Paulo, até o dia 12 de julho e, até lá, é certo que o destino ainda tem muitas emoções preparadas. “Eu não quero nem ousar imaginar o que virá no futuro. O meu presente está tão forte que quero agarrar como se não fosse acabar”, conta. “Eu tenho certeza de que a Tina vai mudar a minha vida. Já mudou, na verdade. Não consigo imaginar quais os frutos que virão disso. Esse momento na vida dela foi determinante para ela virar o que virou e sei que vai ser para a minha também”, conclui Analu, apostando, simplesmente, no seu melhor.






