Personalidades / ENTREVISTA

Aos 51, Thalma de Freitas volta às novelas no Brasil: ‘Nova fase da vida’

De volta ao País após uma década em Los Angeles, atriz brilha em Dona Beja e quer investir nas redes sociais.

Thalma de Freitas (Foto: Rafael Cusato, Styling: Trícia de Freitas)

Quem ouve a voz inconfundível de Thalma de Freitas (51) não pensa que ela passou tanto tempo distante da nossa tela. Foram dez anos vivendo em Los Angeles, nos Estados Unidos, onde criou a filha, Gaelle (12), e chegou até a ser indicada ao cobiçado Grammy por sua carreira musical. Agora, de volta ao Brasil, ela é uma das estrelas do elenco de Dona Beja, novela da HBO Max — trabalho que marca uma fase de descobertas e novas experiências para a atriz. “A Josefa é um grande presente. Uma mulher negra, livre, culta, artista. É o que precisava nessa nova fase da minha vida. Ela é um pilar que me representa”, conta Thalma, em bate-papo exclusivo com CARAS, direto da Casa de Francisca, espaço cultural no coração de São Paulo, onde ela se apresenta como residente na sua Gira de Samba Jazz.

– O que te convenceu a voltar ao Brasil depois de tantos anos?
– Nada precisaria me convencer a voltar a fazer novela. Fiquei em um hiato de dez anos. Me mudei para Los Angeles porque estava grávida. Fui tirar uns anos sabáticos. Lá, trabalhei principalmente com música. Entendi que não era meu mercado. Criei meu legado, tenho minha história, fui CLT da maior emissora do Brasil por 14 anos. Eu fiz 13 novelas, tenho um público muito carinhoso comigo. Não tinha por que trabalhar como atriz num mercado onde eu não tinha lastro. Eu passei no teste de um filme aqui e, na semana que começaram as filmagens, entrei na campanha à presidência do Lula, no final do ano de 2022. Quando ele ganhou, decidi que voltaria ao Brasil. Eu achava que estava esquecida pelo mercado. Eu engordei, eu envelheci, dez anos depois, sou outra pessoa. Foi uma grande alegria chegar ao Brasil depois de dez anos fora e ser bem recebida pelo mercado. Vim colocar tudo que aprendi de ética profissional nos Estados Unidos aqui no Brasil.

– Você se dedica a algo que vai além da carreira de atriz…
– Voltei ao Brasil como empreendedora cultural. A frente é de cultivo de cultura, de gestão de carreira. Eu cheguei ao Brasil disposta a estabelecer o meu selo de música brasileira, especialmente a que funciona fora do Brasil. As pessoas amam o Brasil em todo o mundo. Quando você chega com seu sotaque de brasileira, as pessoas abrem um sorriso enorme. A gente deixa de se valorizar porque não tem autoestima o suficiente para entender o quanto a gente já é influente no cenário global.

– Foi difícil ser imigrante?
– Ser imigrante não era gostoso para mim. Eu, que gosto de conforto, afeto, abraço… Foi puxado. Eu tinha uma filha, teve o golpe no Brasil, fiquei preocupada. Mas assim que tivemos um respiro, vim ao País com fogo nos olhos para mostrar como é possível ter uma carreira internacional sem precisar ficar megafamoso. Basta reconhecer e aceitar que todo mundo ama o Brasil. A gente é incrível. A integridade que temos, a relação com a fé, somos afetuosos, amigáveis. Nós temos muitas qualidades que me fizeram falta enquanto eu estava fora. O Brasil faz as melhores novelas do mundo. Somos os reis da novela. A gente não deve nada a nenhum dorama, série americana ou cinema francês. É resgatar a autoestima da nossa cultura. Nós tivemos uma grande propaganda contra a cultura porque ela representa o povo, é a maior expressão da nação brasileira. Fomos atacados na nossa essência. Os artistas eram hostilizados porque nós temos poder de influência.

– Sua filha nasceu nos Estados Unidos. Como ela se adaptou ao chegar aqui no Brasil?
– Ela nasceu lá, mas ama o Brasil. Aprendeu português super- rápido. Para os estudos, ela vai voltar a morar com o pai, em Los Angeles. Ela tem 12 anos e precisa de uma atenção que uma mãe empreendedora cultural não dá conta. Eu tenho um marido muito presente na nossa vida, um excelente professor. Achamos melhor ela estudar em Los Angeles para já estar inserida no mercado de lá. Aqui, ela é minha filha, é nepobaby, consigo um trabalho para ela. Ela é atriz, cantora e também faz maquiagem e figurinos.

– A sua personagem Josefa também te despertou uma nova paixão artística, certo?
– Eu brincava muito de pintar com a minha filha quando criança e meu marido também é das artes plásticas. Era hobby, pura brincadeira. Para me preparar para a Josefa, que é uma artista, a produção me deu tintas, cavaletes, telas, para treinar a minha pegada no pincel. Enquanto decorava o texto, ficava pintando. Passei a dar quadros de presente. Eu peguei muito gosto por isso. Eu sinto que é uma nova linguagem e é muito bom ter um hobby artístico que não é trabalho.

– O público sente muita saudade de você nas novelas da TV aberta. Aceitaria um convite da Globo, por exemplo?
– Um bom trabalho nunca vai ser negado, mas não é meu foco. Todos os atores precisam trabalhar. A novela tem 20 ou 30 personagens, dura dez meses. Existem três novelas no ar. No máximo, 100 pessoas vão estar contratadas nas novelas. O que as outras pessoas estarão fazendo nesse tempo fora das novelas? Mesmo que aconteça esse convite, vai acontecer a cada três, quatro anos. Seria o maior prazer voltar a fazer novela na Globo, mas não é uma coisa que eu espero que aconteça. Quando eu for fazer uma novela na Globo, e eu não duvido que isso aconteça, acho até inevitável que role, eu quero estar forte, com o poder do público. Hoje, é bem mais fácil ter esse contato direto com as pessoas. É o que a gente mais almeja. Eu quero juntar o fã-clube da minha música, da minha história e também do meu conhecimento.

– Diante disso, qual é o seu foco no momento, então?
– Este ano, decidi trabalhar como creator. Eu vi no advento da economia criativa a possibilidade de ser independente e autônoma. O meu foco é ter um canal no YouTube e fazer novelinhas verticais. Eu posso fazer o roteiro e filmar com uma equipe reduzida. As novelinhas estão bombando. No dia 20 de março, estreio meu canal com um podcast e novelas verticais. Isso vai tomar muito do meu tempo. Pretendo criar um ecossistema no meu trabalho que sirva de exemplo para outros artistas que tenham seu próprio lugar nas redes sociais. Eu faço lives no Instagram todo dia útil, eu faço meus shows, gravo meu disco. Assim como os influenciadores entraram nas novelas, os atores vão entrar no mundo dos influencers. Se ninguém me chamar para trabalhar, pelo menos tenho meus shows, minhas lives, minhas novelinhas. Quando você tem um canal que funciona, você cria um contato direto com as marcas. Tive preconceito por anos com rede social, mas depois descobri como é divertido fazer isso do meu jeito. Vira um playground! Imagina se eu consigo convencer todos os meus amigos atores a participarem das minhas novelinhas verticais! A minha rede de contatos de 37 anos de carreira é enorme…