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Fernanda Okita une precisão, ciência e empatia no tratamento da endometriose

Ginecologista explica como tecnologia, pesquisa e humanização caminham juntas no cuidado da mulher e no avanço da cirurgia robótica no Brasil

FOTO: Nathalia Branco

Com uma trajetória marcada pela disciplina e pela busca constante pelo conhecimento, Fernanda Okita representa uma nova geração de médicas que unem técnica, ciência e sensibilidade no cuidado à mulher. Atuando no tratamento da endometriose e na cirurgia robótica ginecológica, ela construiu uma carreira guiada pela precisão e pela escuta atenta, traduzindo a tecnologia em benefício humano. Reconhecida nacional e internacionalmente por sua atuação cirúrgica e acadêmica, teve seu trabalho destacado pela Câmara Municipal de São Paulo com o Prêmio Ruth Sonntag Nussenzweig e integrou iniciativas globais voltadas ao avanço do cuidado em endometriose.

Antes de chegar ao centro cirúrgico, Fernanda viveu anos dentro das piscinas. Ex-atleta da seleção brasileira de natação, encontrou no esporte as lições que levaria para toda a vida: foco, disciplina e superação. “O esporte me ensinou a importância da constância e do equilíbrio. E a cirurgia exige exatamente isso: controle e serenidade em cada decisão.”

A convivência com a medicina veio desde cedo, mas o encantamento pela profissão surgiu aos poucos. Filha de médicos, Fernanda cresceu em contato com o ambiente hospitalar, mas foi durante a faculdade que a escolha se consolidou, especialmente a partir da influência da mãe, ginecologista, que a introduziu ao meio cirúrgico ainda nos primeiros anos da formação. A curiosidade pelo corpo humano e a admiração pela precisão das cirurgias a conduziram à ginecologia, onde encontrou o equilíbrio entre ciência e cuidado humano. “Sempre gostei de áreas que unem técnica e sensibilidade. A ginecologia permite isso: é ciência, mas também é vínculo e escuta”, afirma.

Da trajetória acadêmica ao ensino

Formada em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos, no litoral de São Paulo, Fernanda seguiu para a residência em Ginecologia e Obstetrícia, período em que se encantou definitivamente pela cirurgia minimamente invasiva. Logo depois, aprofundou-se na endoscopia ginecológica, área que reúne a laparoscopia e a histeroscopia, técnicas que permitem intervenções precisas e com rápida recuperação. Desde o segundo ano da especialização, começou a ministrar aulas de laparoscopia, atividade que mantém há mais de uma década, formando novas gerações de cirurgiões. “Ensinar sempre fez parte da minha rotina. Cada aluno que aprende uma técnica nova representa uma paciente que será melhor atendida lá na frente”, conta.

Seu caminho acadêmico ganhou força no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, onde integrou o setor de endometriose por mais de dez anos. No mesmo período, concluiu o mestrado em Ciências da Saúde, pesquisando a endomicroscopia confocal in vivo, técnica inovadora que permite avaliar tecidos durante a cirurgia com o auxílio da imagem microscópica, sem a necessidade de biópsia posterior. “Foi um estudo que abriu portas para entender a doença em tempo real e melhorar o tratamento cirúrgico. A pesquisa me ensinou a olhar ainda mais para cada detalhe do que faço.”

Atualmente, Fernanda é coordenadora adjunta do Programa de Aprimoramento em Cirurgia Ginecológica Minimamente Invasiva e Cirurgia Robótica do Hospital Moriah, e faz parte do Instituto de Miomas e Endometriose da instituição. Também é embaixadora da EndoLatam, grupo latino-americano que promove o avanço técnico e científico no tratamento da endometriose, e atua como proctor em cirurgia robótica, ensinando profissionais em treinamento.

A dor invisível da endometriose

A endometriose é uma doença inflamatória e crônica que afeta cerca de 15% das mulheres em idade fértil. Multicompartimental (quando a doença acomete múltiplos compartimentos pélvicos) e de difícil diagnóstico, pode comprometer órgãos como o útero, ovários, bexiga e intestino e, em casos mais avançados, atingir nervos e estruturas pélvicas. Trata-se de uma condição em que células semelhantes às do endométrio, tecido que reveste o interior do útero, crescem fora dele, provocando dor, inflamação e, em muitos casos, infertilidade.

“A cólica menstrual não deve ser vista como normal. Quando a dor interfere na rotina, é um sinal de alerta que precisa ser investigado”, destaca a médica.

Os sintomas variam amplamente: cólicas menstruais intensas, dor durante a relação sexual, alterações intestinais ou urinárias no período menstrual e dor pélvica contínua. “O problema é que as mulheres aprendem desde cedo a conviver com a dor, e isso retarda o diagnóstico.”

O atraso no reconhecimento da doença, que pode levar de sete a onze anos, contribui para o avanço das lesões e do impacto emocional. “A endometriose não é proporcional à dor que causa. Às vezes, uma lesão pequena pode gerar sofrimento intenso, principalmente quando está próxima ou afeta nervos pélvicos”, explica.

Além da dor, há o impacto silencioso sobre a fertilidade. “A endometriose representa cerca de 30% das causas de infertilidade feminina. Muitas vezes, a inflamação altera a anatomia dos órgãos reprodutivos e forma aderências que impedem a passagem do óvulo.”

Mesmo assim, o tratamento adequado pode devolver à mulher a chance de realizar esse desejo. “Hoje conseguimos bons índices de gravidez após o tratamento cirúrgico. O importante é intervir no momento certo e fazer uma cirurgia completa”, diz Fernanda.

O diagnóstico correto começa com uma escuta atenta e um exame físico detalhado, complementado por exames específicos como o ultrassom transvaginal especializado, tecnologia desenvolvida no Brasil, e a ressonância magnética. Em alguns casos, a confirmação só ocorre durante a videolaparoscopia, quando as lesões podem ser visualizadas diretamente. “É preciso olhar além dos exames. Cada mulher tem uma história, e é essa história que orienta o tratamento. Mais do que tratar a doença, o cuidado com a endometriose muitas vezes significa devolver autonomia, autoestima e qualidade de vida a mulheres que passaram anos normalizando a dor.”

FOTOS: Nathalia Branco

Tratamento integral e visão multidisciplinar

Tratar a endometriose é compreender a mulher em todas as suas dimensões. “A abordagem precisa ser individualizada. Não existe um único caminho, e sim o melhor caminho para cada paciente.”

O tratamento pode envolver desde terapias medicamentosas e até intervenções cirúrgicas de alta precisão. A escolha entre o tratamento clínico e o cirúrgico depende do grau da doença, do desejo de engravidar e da intensidade dos sintomas. “Em alguns casos, conseguimos controlar bem com tratamento clínico. Mas quando há lesões profundas, a cirurgia minimamente invasiva é o que garante resultado definitivo e preservação dos órgãos”, afirma.

O processo terapêutico vai além da cirurgia. Envolve uma rede de profissionais especializados em dor pélvica, fisioterapeutas pélvicos, psicólogos, nutricionistas, coloproctologistas e urologistas. “Após tanto tempo convivendo com dor, o corpo cria padrões de tensão. A fisioterapia pélvica e o acompanhamento psicológico são essenciais para reeducar o corpo e restaurar a confiança. Essa integração é decisiva especialmente nos casos complexos, quando a endometriose pode envolver intestino, bexiga, ureteres e nervos pélvicos.”

A médica reforça a importância do acompanhamento contínuo. “A endometriose é uma doença crônica. O tratamento não termina no centro cirúrgico. É preciso manter o olhar atento e o cuidado constante”, diz.

A nutrição anti-inflamatória também é fundamental no controle da doença. “A alimentação influencia diretamente na resposta clínica. Alimentos ricos em ômega 3, frutas vermelhas e vegetais verdes ajudam a modular a inflamação e melhoram o bem-estar.”

Para Fernanda, o sucesso do tratamento depende tanto da técnica quanto da empatia. “Quando a paciente se sente acolhida, ela participa mais ativamente do processo, entende o próprio corpo e recupera a confiança na cura”, afirma.

A revolução da cirurgia robótica

Entre os avanços que transformaram a ginecologia moderna, a cirurgia robótica ocupa um lugar de destaque. A tecnologia permite uma visão tridimensional e ampliada do campo cirúrgico, elimina tremores e oferece movimentos mais precisos que os da mão humana.

Com alto volume de casos e atuação concentrada em endometriose profunda, Fernanda está entre as médicas com maior experiência prática em cirurgia robótica ginecológica no Brasil, o que lhe permite aplicar a tecnologia com segurança mesmo em cenários anatômicos complexos.

Para Fernanda, essa inovação representa uma nova era da medicina. “A robótica não substitui o cirurgião, ela o potencializa. É uma extensão dos nossos sentidos. A técnica tem proporcionado resultados expressivos em casos complexos de endometriose profunda, adenomiose, miomas volumosos e pelve congelada, condições que exigem extrema precisão anatômica.”

Com a visão ampliada e os instrumentos articulados, é possível alcançar áreas delicadas da pelve sem causar lesões em estruturas adjacentes. “A principal diferença é a estabilidade de imagem e a delicadeza dos movimentos. Isso nos permite atuar com mais segurança em regiões onde cada milímetro faz diferença.”

Um dos conceitos centrais do trabalho de Fernanda é a previsibilidade cirúrgica, que combina técnica, preparo e domínio anatômico. “Quando temos domínio técnico, conhecemos a anatomia e usamos as ferramentas adequadas, conseguimos prever o resultado e oferecer mais segurança à paciente”, explica.

Entre os recursos utilizados em suas cirurgias estão a Indocianina Verde, que emite fluorescência para visualizar vasos e ureteres em tempo real, e o ultrassom robótico intraoperatório, que permite mapear de forma mais fidedigna as lesões de endometriose e miomas de difícil acesso durante o próprio ato cirúrgico. Segundo Fernanda, esses avanços são decisivos para a qualidade do resultado. “O objetivo é sempre o mesmo: tratar de forma completa e evitar reoperações.”

A médica acredita que a integração entre robótica e inteligência artificial representa o futuro da medicina ginecológica. Parte de suas pesquisas explora algoritmos capazes de auxiliar no diagnóstico imediato de lesões. “A ideia é que o diagnóstico e o tratamento aconteçam simultaneamente, com mais precisão e menos invasão. Estamos muito próximos dessa realidade”, reforça.

Por trás da tecnologia, há um olhar profundamente humano. A ginecologista lida diariamente com mulheres que chegam após anos de dor e frustração. “É uma doença que exige empatia e escuta, porque cada paciente carrega uma história única.”

A abordagem de Fernanda vai além do diagnóstico. O objetivo é devolver confiança e qualidade de vida. “Cada mulher sente dor de um jeito, e o tratamento precisa respeitar essa individualidade. A medicina não é feita de protocolos, e sim de pessoas”, destaca.

Ensinar é multiplicar cuidado

Além da atuação clínica, Fernanda dedica parte significativa da carreira ao ensino e à difusão do conhecimento. Realiza cirurgias que são transmitidas ao vivo para congressos médicos, coordena programas de formação em cirurgia robótica e participa ativamente da capacitação de outros especialistas. “Fazer uma cirurgia ao vivo é dividir o que aprendemos. A medicina cresce quando o conhecimento é compartilhado.”

No meio médico, a realização de cirurgias ao vivo representa mais do que uma atividade didática. Trata-se de um reconhecimento técnico reservado aos profissionais com alto grau de previsibilidade, domínio anatômico e segurança em procedimentos de alta complexidade. “Quando operamos ao vivo, estamos mostrando exatamente como pensamos e como tomamos decisões em tempo real”, explica.

Essa atuação educacional se estende para além do Brasil. Fernanda ministra palestras em diferentes estados do país e também em eventos científicos na América Latina e na Europa, participando de debates sobre endometriose, cirurgia minimamente invasiva e inovação tecnológica. Um dos destaques recentes foi sua participação como palestrante na Endometriosis Foundation of America, em Nova York (EUA), onde apresentou pesquisas e experiências clínicas desenvolvidas no Brasil.

Sua contribuição científica e educacional foi reconhecida com o Prêmio Ruth Sonntag Nussenzweig, concedido pela Câmara Municipal de São Paulo a mulheres que se destacam por ações relevantes voltadas ao avanço da medicina e da pesquisa científica.

Engajada na democratização do acesso às tecnologias de ponta, Fernanda também participa de debates sobre a ampliação da cirurgia robótica ginecológica no Sistema Único de Saúde (SUS). “A cirurgia robótica já é utilizada no SUS para o câncer de próstata. Nosso desafio é garantir o mesmo avanço às mulheres que sofrem com endometriose profunda”, diz.

A médica acredita que o futuro da saúde passa por políticas públicas que combinem equidade, tecnologia e empatia. “Tecnologia só tem sentido quando está a serviço das pessoas. É isso que move minha trajetória.”

A essência do cuidado

Em cada etapa, seja da consulta ao centro cirúrgico, Fernanda mantém a mesma convicção: unir precisão, ciência e escuta. “A mulher moderna busca informação e quer participar do próprio tratamento. Nosso papel é acolher, esclarecer e oferecer soluções reais.”

“A mulher não deve aceitar a dor como parte da vida. Reconhecer o próprio corpo, compreender os sinais e buscar um cuidado individualizado é o primeiro passo para viver com liberdade e sem sofrimento”, destaca.

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FOTOS: Nathalia Branco

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