Lidiane Rabelo fala sobre sexualidade feminina além da libido
Médica mineira une ginecologia, sexologia e experiência pessoal para discutir menopausa, desejo e autonomia do corpo feminino

Por décadas, o corpo da mulher foi ensinado a silenciar desconfortos, atravessar fases com resignação e aceitar como inevitável tudo aquilo que vinha acompanhado da palavra “idade”. Dor durante a relação, ressecamento vaginal, perda urinária leve, queda do desejo e insegurança com o próprio corpo foram normalizados como parte natural do envelhecimento feminino. Para a ginecologista Lidiane Rabelo, esse silêncio não apenas adoece como afasta as mulheres do próprio corpo. Sua atuação se constrói no sentido oposto, ao ampliar a escuta e oferecer informação clara para que cada mulher compreenda o que está vivendo e consiga escolher como quer atravessar esse processo.
Ao unir ginecologia e sexologia a uma prática centrada no diálogo, Lidiane defende que sexualidade não se resume à frequência sexual nem à libido. Ela envolve conforto, reconhecimento corporal, autoestima, relação com o parceiro e, principalmente, o direito de não viver em desconforto. A partir dessa perspectiva, a médica constrói um cuidado que se distancia da pressa e se aproxima da realidade cotidiana das mulheres, especialmente após os 40 anos, quando mudanças hormonais e emocionais passam a pesar mais e quando antigas crenças, como “é assim mesmo”, costumam voltar à superfície.
Origens e formação
O interesse pelo cuidado surgiu ainda na infância. “Desde criança eu falava que queria cuidar de crianças. Eu brincava de boneca como se estivesse cuidando de alguém doente ou dando aula”, relembra. Paralelamente, o corpo sempre esteve em movimento. A dança entrou cedo em sua vida, aos seis anos, ainda no interior de Minas Gerais, onde jazz, balé e outras referências se misturavam naturalmente. Esse vínculo com o corpo, com a percepção e com o ritmo aparece também na forma como ela descreve o próprio jeito de atender, sem separar o sintoma da pessoa que o sente.
Na graduação em medicina, a pediatria parecia um caminho óbvio. No entanto, a vivência hospitalar trouxe um impacto emocional inesperado. “Quando vi uma criança realmente doente e sofrendo, eu senti um desconforto muito grande. Passei mal.” A experiência foi determinante. “Eu entendi que não conseguiria lidar com aquele sofrimento de forma contínua”, conta. Foi nesse período que a obstetrícia começou a ganhar espaço. “Eu pensei que iria cuidar das crianças de outra forma, trazendo vida.”
A escolha pela ginecologia e obstetrícia se consolidou durante a residência no Hospital Odete Valadares, em Belo Horizonte (MG), em um momento em que a humanização da assistência começava a ganhar força. “Ali eu comecei a entender o movimento e entender que era aquilo que eu gostava e que eu queria”, diz. A residência em ultrassonografia veio na sequência, aprofundando a atuação no acompanhamento gestacional, área que segue presente em sua prática.
Durante muitos anos, a obstetrícia ocupou o centro da rotina profissional. A ginecologia aparecia de forma mais discreta, muitas vezes ligada ao pós-parto e às demandas que surgiam depois do nascimento. Com o tempo, no entanto, as queixas começaram a se repetir e a ganhar contornos parecidos, mesmo em fases diferentes da vida. “Eu ouvia muito sobre queda de libido, dor na relação, desconfortos que persistiam depois da gestação.” Aos poucos, relatos semelhantes começaram a aparecer também em mulheres no climatério e na menopausa. “Dor durante a relação, falta de desejo, infecções urinárias de repetição, perda de urina”, relata.
A repetição desses relatos acendeu um alerta, não apenas pelos sintomas, mas pela forma como eles eram recebidos socialmente. “O maior mito é achar que tudo aquilo é normal”, diz, referindo-se à menopausa e ao climatério. Para Lidiane, a normalização do desconforto cria uma camada de atraso no cuidado: a mulher demora a buscar ajuda, acredita que não há o que fazer e aprende a conviver com limitações que, muitas vezes, poderiam ser abordadas com acompanhamento adequado.
A decisão de estudar sexologia surgiu desse contato direto com a prática e das confusões que envolvem o tema. “Muita gente veio questionar, falando que eu não podia falar sobre sexualidade, como se eu estivesse ensinando a fazer sexo”, relata. Ela faz questão de delimitar o campo de atuação. “Na sexologia, a gente não ensina a fazer sexo. A gente está ali para trabalhar as dificuldades das pessoas relativas à área da sexualidade.” Para ela, o ponto central não é performance, mas compreensão. “As dificuldades de libido, as dificuldades de orgasmo, as dúvidas em relação à própria sexualidade, à genitália”, diz.
Esse novo olhar também se expandiu quando ela mesma viveu mudanças corporais do climatério. “Eu comecei a sentir essas queixas todas que vêm junto com o climatérico”, diz, ao explicar por que passou a buscar recursos além do que chama de ginecologia tradicional e conservadora. “Eu vi que não conseguiam resolver muitas das nossas queixas, principalmente as ligadas à região genital”, conta. A partir daí, buscou formação em ginecologia regenerativa e passou a estudar mais profundamente a parte hormonal, sempre reforçando o cuidado com indicação e rastreio.
O que faz na prática e como funciona o cuidado
Hoje, Lidiane concentra sua atuação no cuidado ginecológico de mulheres acima dos 40 anos e mantém a ultrassonografia como parte importante da rotina. “Eu continuo apaixonada pelo ultrassom. Eu adoro fazer o 4D”, afirma, explicando que segue investindo em aprimoramento técnico para exames como o morfológico. “Eu fui fazer o curso de ecocardiograma fetal recente, justamente para olhar ainda melhor o coração ali no morfológico.”
No consultório, o tempo é tratado como parte do cuidado. A primeira consulta costuma durar cerca de uma hora e meia, e os retornos, cerca de uma hora. “Eu gosto de conversa de comadre”, diz. O objetivo é criar um espaço em que a mulher consiga falar do corpo, mas também do que está ao redor dele, rotina, trabalho, relações, maternidade, exaustão e expectativas, porque essas camadas costumam atravessar as queixas íntimas. “Eu não gosto daquela consulta em que você pergunta uma coisa e responde. Eu gosto de sentar, conversar e dar abertura para falar”, explica.
Essa forma de atender foi sendo lapidada quando ela percebeu que certas queixas simplesmente não aparecem em consultas apressadas. Ao lembrar de um período em que passou a atender em domicílio, descreve como a conversa ganhava organicidade, e como isso mudava o tipo de relato que surgia. “Eu ia para casa delas, tinha cafézinho, a gente se sentava, conversava. No final eu fazia o exame físico.” Para ela, confiança e tempo não são luxo, são caminhos para nomear o que antes ficava escondido.
A rotina atual se divide em agendas distintas: a ultrassonografia, realizada na Clínica Lume, e o atendimento ginecológico retomado na Clínica Mariana Oliveira, onde mantém o estilo de consulta mais longa e centrada na escuta.
Ginecologia regenerativa e queixas íntimas do climatério
Ao falar do que aparece com mais força no climatério e na menopausa, Lidiane descreve um conjunto de queixas recorrentes que impactam diretamente conforto e vida íntima, como ressecamento, dor durante a relação, fissuras e perda urinária leve. E explica que, antes de qualquer conduta, a avaliação precisa ser individualizada. “Tem toda uma indicação, tem todo um rastreio que tem que ser feito antes da reposição”, afirma, ao situar a terapia hormonal como possibilidade para quem tem indicação.
Dentro da ginecologia regenerativa, ela cita tecnologias que podem ser consideradas conforme cada quadro, com foco em recuperar função e conforto local. “O que a pessoa mais ouve falar é do laser íntimo”, diz, explicando que ele pode ser usado para queixas ligadas à atrofia genital, dor durante a relação e incontinência urinária leve. “A gente também pode estar tratando com radiofrequência essas queixas.”
Quando descreve o que está por trás dessas abordagens, Lidiane traduz o objetivo de forma direta, sem linguagem de promessa. “Elas vão trabalhar ali na região de fibroblastos, estimular a proliferação deles e estimular o colágeno”, afirma. E completa que a associação de tecnologias pode ser considerada caso a caso. “Eu posso fazer o laser para entrega de PDRN, de drug delivery que a gente fala. A gente faz muito hoje essa associação.” Ela menciona ainda o ultrassom microfocado como possibilidade para flacidez na região genital, sempre reforçando que a decisão depende de avaliação individualizada e da queixa principal.
Ao puxar o tema para o cotidiano, ela volta ao ponto que atravessa toda a abordagem: não tratar desconforto como destino. “A gente não precisa viver no desconforto.”

Sexualidade além da libido
Ao falar de sexualidade, Lidiane insiste em tirar o tema do lugar estreito em que costuma ser colocado. “As pessoas olham para o sexo só a partir de mulher objeto. E sexualidade não é só relação sexual”, afirma. Ela usa uma comparação simples para mostrar a distorção: “Se você for parar para pensar na porcentagem do tempo da sua vida que o seu órgão genital está destinado ao sexo, não é nada.” O corpo está presente 24 horas por dia, e reduzir a genitália ao ato sexual empobrece a compreensão de saúde íntima, além de dificultar a prevenção e o autocuidado.
Para ela, o tabu tem consequências práticas. “É uma parte do corpo que a gente conhece pouco e que a gente não se dá o direito de conhecer por causa dos tabus”, diz. E quando a mulher não conhece o próprio corpo, perde referência. “Para eu ver que eu tenho algum problema na minha genitália, eu preciso conhecer qual é o normal dela”, afirma. A ausência desse repertório, segundo a médica, contribui para que muitas mulheres cheguem ao consultório tardiamente. “Elas chegam já num estágio avançado de algo que poderia ter sido visto muito antes se ela conhecesse a própria genitália.”
As queixas mais comuns, ela diz, ainda se repetem ao longo das gerações. “Baixa de libido, falta de vontade de ter relação, dor durante a relação, não sentir prazer durante a relação.” Para Lidiane, isso não é apenas uma questão individual, mas cultural. “É cultural mesmo. É um tabu muito grande em relação à genitália e essa desconstrução é difícil”, diz. Ela aponta que muitos homens foram ensinados, desde cedo, a reconhecer e valorizar a própria sexualidade, enquanto as mulheres foram ensinadas ao oposto. “O homem é ensinado desde criança a conhecer o genital dele e a gostar. E a mulher foi ensinada a esconder, a não tocar, a não conhecer, a não ter orgulho.”
Esse desequilíbrio, segundo ela, impacta o posicionamento feminino dentro das relações. “Muitos homens ainda não estão preparados para esse cuidado com a mulher e muitas mulheres ainda não estão preparadas para se posicionarem na frente dos homens”, diz. Por isso, a conversa sobre sexualidade, em seu consultório, raramente se resume a uma pergunta sobre libido. Ela entra como tema de autoconhecimento, autoestima e comunicação. “Eu trabalho muito isso dela falar com ele, dela cuidar da intimidade do casal. Mas intimidade não quer dizer sexualidade.”
Intimidade, para Lidiane, é o que sustenta a sexualidade quando o desejo não aparece automaticamente. Ela descreve pequenas práticas cotidianas que ajudam a reconstruir conexão: dividir um momento juntos, assistir a um filme em casa, sair para algo simples. “Não tem que ser nada muito grande. Pode ser ir ao barzinho da esquina comer uma porção de batata frita só os dois”. Esse tipo de vínculo, diz, cria ambiente emocional e reduz a sensação de obrigação, que é uma das raízes do sofrimento sexual feminino. “Eu acho que a maior parte dos problemas está na falta de conexão.”
A libido, nesse contexto, entra como parte do cenário, não como sentença. Lidiane observa que muitas pessoas interpretam a queda de desejo como proibição. “Elas acham que porque a libido está baixa, não pode ter relação”, relata, mencionando casos de casais que ficam longos períodos sem vida sexual por acreditar que a vontade precisa surgir espontaneamente. É aí que entra o conceito de desejo responsivo, que ela trabalha com frequência. “O desejo espontâneo é muito do início do relacionamento. À medida que você vai se acostumando, ele vai acabando. Aí você começa a ter o desejo responsivo.”
Esse desejo, explica, pode ser construído com contexto e previsibilidade. “Escolher um dia fixo para namorar funciona muito bem”, diz, citando a imagem de um ritual semanal como forma de o cérebro se organizar. “O seu cérebro já fica programado. Mesmo que de forma inconsciente, ele já começa a produzir estímulos e melhorar para você ter mais receptividade”, explica. Ao deslocar o foco do desempenho para o ambiente, Lidiane defende uma sexualidade mais realista e menos culpabilizante, especialmente para mulheres que atravessam a sobrecarga do cotidiano e se sentem pressionadas a responder como se o corpo funcionasse em modo automático.
Menopausa, informação e qualidade de vida
A menopausa, para Lidiane, é um dos territórios onde o silêncio se torna mais perigoso, justamente porque ele vem acompanhado de uma frase que parece definitiva. Ela identifica o discurso como o mito mais repetido no consultório. “Que é normal, que tudo aquilo ali é normal. E a gente tem que parar de normalizar o mundo”, conta. O que ela chama de normalização não é apenas um incômodo subjetivo, mas uma maneira de transformar sintomas tratáveis em destino. “Desconforto não é normal. Não existe normalidade no desconforto.”
Ao abordar a menopausa, Lidiane aponta a atrofia genital como uma das causas mais comuns de queixas íntimas. Com a queda hormonal, o tecido pode ficar mais fino e mais vulnerável. Isso se manifesta como ressecamento, dor na relação, fissuras que machucam com facilidade e ardor, além de sintomas urinários que costumam aparecer de forma persistente. “Nós temos recursos para tratar atrofia genital, que é uma das principais causas dos desconfortos”, afirma.
Ela reforça que a terapia hormonal pode ser uma possibilidade quando há indicação. “Nós temos terapias hormonais hoje com bastante estudo a respeito, com literatura consistente e benefícios”, diz, sem tratar a conduta como receita universal. Para ela, o ponto crucial é a responsabilidade clínica: rastrear, avaliar e decidir junto com a paciente o que faz sentido para aquela história, naquele momento.
Ao lado disso, o avanço de recursos locais passou a abrir espaço para tratar sintomas que antes eram empurrados para o campo do “aceitar”. Ao descrever as possibilidades, ela volta sempre ao princípio de função. O objetivo é diminuir a fragilidade, melhorar o conforto, recuperar qualidade de tecido e, principalmente, devolver autonomia para a mulher viver o cotidiano sem medo de dor ou vergonha de falar sobre o que sente. “A gente não precisa viver no desconforto”, repete, como síntese.
Lidiane contextualiza essa mudança de olhar a partir do aumento da expectativa de vida. “Se você for pensar, nos anos 60 e 70, a expectativa de vida era de mais ou menos 52 anos. Quando se entrava na menopausa, já estava no fim da vida. Hoje, o cenário é outro. A nossa expectativa de vida está aí na faixa de 76, 77.” A conta, então, muda de forma concreta. “Você vai ter pelo menos um terço da sua vida na menopausa. Se você passar dos 80 e poucos, você vai ter metade da sua vida entre o climatério e a menopausa”, diz. E a conclusão, para ela, é simples e direta. “Você não quer metade da sua vida com desconforto. Você quer ter uma vida com qualidade.”
Planos e visão de futuro
Ao projetar os próximos passos, Lidiane fala em continuidade. De um lado, seguir investindo no cuidado ginecológico voltado às mulheres 40+, com atenção às queixas íntimas e à sexualidade como tema de saúde. “Continuar caminhando aí nessa parte que eu estou estudando bastante, que é o 40+.” De outro, manter a ultrassonografia como área de estudo permanente, aprimorando exames e ampliando repertório técnico. “Eu estava sempre estudando ultrassom”, diz, ao mencionar o gosto por imagens em 4D e a busca por mais precisão nos exames.
Ela descreve a rotina atual de trabalho com um recorte objetivo, sem ampliar além do que pratica. “Eu tenho três agendas por semana pequenas”, conta, ao explicar que concentra a ultrassonografia em um único local. O interesse pelo aprendizado aparece como marca constante, e os cursos entram como forma de refinar o olhar clínico para detalhes. “Eu tenho feito cursos, até mesmo para melhorar meus exames.”
Fora do consultório, ela leva para a própria vida a ideia de equilíbrio. “Uma coisa importante que eu aprendi é saber equilibrar a parte de trabalho, a parte do descanso, a parte dos filhos e a parte dos hobbies.” O tempo com os filhos aparece como prioridade cotidiana, e a dança,
como ferramenta de bem-estar e descompressão. “Eu tenho meu tempo também para a minha dança, que eu amo, que me ajuda a ter esses momentos de relaxamento e de bem estar comigo.” Para ela, esse ajuste de ritmo é parte do que sustenta saúde mental e estabilidade do corpo, em qualquer idade.
“A gente precisa aprender a valorizar nosso corpo, valorizar o que a gente sente. Isso faz toda a diferença na própria sexualidade da mulher. Saber se posicionar, conhecer a gente como um todo, conhecer a nossa genitália, saber o que a gente gosta, o que a gente deseja, não ficar à mercê de achar que é obrigada a alguma coisa. Nós somos mulheres, nós somos fortes, nós temos o poder de decidir sobre nosso corpo, sobre o que a gente deseja e sobre a nossa sexualidade.”
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