Auricélio Romão: raízes nordestinas e uma história construída à mesa de Noronha
À frente do Cacimba, o chef transformou a própria vivência na ilha em uma gastronomia autoral, afetiva e reconhecida nacionalmente
Fernando de Noronha (PE) é reconhecida mundialmente por suas águas cristalinas, paisagens preservadas e um silêncio que convida à contemplação. Mas, para quem conhece a ilha além do cartão-postal, existe outro ritual essencial: sentar-se à mesa do Cacimba. À frente do restaurante está o chef Auricélio Romão — nordestino, discreto e profundamente conectado ao território que escolheu para viver.
Nascido em Natal, no Rio Grande do Norte, Auricélio descobriu cedo que a cozinha seria mais do que uma profissão. Seria linguagem, caminho e forma de pertencimento. Aos 23 anos, enquanto estudava no Senac, recebeu um convite que mudaria definitivamente sua trajetória: trabalhar em Fernando de Noronha. O que começou como uma experiência temporária se transformou em permanência, identidade e propósito.
“Foi a soma de tudo que me conquistou: a natureza impacta, o ritmo acalma, mas a possibilidade de construir algo foi decisiva. Noronha me deu espaço para criar com verdade, sem pressa, respeitando o tempo das coisas — e isso mudou tudo na minha forma de cozinhar e de viver”, relembra.
Encantado pelo ritmo da ilha, pelo contato cotidiano com o mar e por uma vida mais essencial, decidiu ficar. Vieram anos de aprendizado em diferentes cozinhas, observação atenta dos ingredientes locais e um amadurecimento silencioso — até que, em 2017, esse percurso se materializou na abertura do Cacimba. Desde o início, a proposta foi clara: uma gastronomia autoral, sem excessos, distante de modismos e absolutamente fiel ao ingrediente e ao território.
“O Cacimba nasceu da minha própria vivência aqui. Não fazia sentido criar algo desconectado da ilha”, afirma o chef, que faz questão de acompanhar de perto cada detalhe do restaurante, do desenho do cardápio ao contato direto com os clientes.
Mais do que um restaurante, o Cacimba tornou-se um ponto de encontro. Turistas, moradores e personalidades dividem o mesmo espaço rústico e acolhedor, onde a experiência vai além do prato. Mesmo diante do reconhecimento e de uma casa constantemente disputada, Auricélio mantém uma postura firme e consciente. “Eu lido com o sucesso lembrando todos os dias de onde eu vim e de quem caminha comigo. Sucesso não é sobre ego, é sobre constância. Continuo indo pra cozinha, acompanhando cada detalhe, ouvindo a equipe e os clientes”, diz.
A cozinha de Auricélio é reflexo direto de sua personalidade: direta, afetiva e precisa. Nada sobra. Nada falta. E, apesar da presença frequente de celebridades, são outros encontros que realmente o marcam. “Já vivi muitos momentos especiais aqui, mas os que mais me tocam são quando alguém volta ao restaurante anos depois e diz que aquela refeição ficou na memória. Isso vale mais do que qualquer fama”, confessa.
Essa relação profunda com a ilha também se expressa em um dos rituais mais simbólicos de sua trajetória: a Feijoada do Auricélio. Em 2026, o chef celebra 10 anos do evento, que nasceu de forma espontânea e se consolidou como um encontro anual reservado a empresários locais, moradores da ilha e convidados. Mais do que um prato, a feijoada é um gesto de afeto e pertencimento, isto é, uma celebração da comunidade que construiu, junto com ele, a história de Noronha longe dos holofotes.
Morando há mais de duas décadas no arquipélago — do qual é cidadão oficialmente reconhecido —, Auricélio construiu uma rotina que equilibra trabalho intenso e conexão com a natureza. Para ele, viver cercado pelo verde, pelo mar e pelo silêncio não é luxo, mas parte essencial do processo criativo e da saúde emocional. “Aqui, a vida pede outro ritmo. E eu aprendi a respeitar isso”, comenta.
A coerência dessa trajetória chamou a atenção da mídia nacional. O chef já participou de programas na TV e teve seu trabalho destacado por diversos veículos. Ainda assim, mantém uma postura reservada, distante da lógica da celebridade. Seu foco segue sendo a experiência de quem se senta à mesa e não quem observa de fora.
Em 2026, Auricélio dá mais um passo importante com o lançamento da Casa do Auri Noronha, projeto voltado a eventos privativos e experiências gastronômicas exclusivas. A iniciativa surge em um momento de maturidade pessoal e profissional. “Hoje sou um Auricélio mais seguro, mais calmo e mais consciente do que quero entregar. A Casa do Auri fala de acolhimento, identidade e experiência e não só de comida”, explica.
Entre raízes nordestinas, o tempo próprio de Noronha e uma carreira construída com persistência e coerência, Auricélio Romão prova que sucesso não precisa ser ruidoso. Para ele, o significado é claro: “Sucesso é equilíbrio. Poder trabalhar com o que amo, viver bem, estar presente e ter liberdade para escolher os próximos passos.” Às vezes, ele nasce no silêncio, cresce com constância e se revela no sabor, aquele que carrega memória, território e alma.