Com quase 90 de idade, irmãos chegam a 66 anos de carreira como dupla sertaneja: ‘Somos teimosos’
Cantores seguem na ativa com uma média de dez apresentações por mês

Com quase 90 anos de idade e uma trajetória que atravessa gerações, os irmãos Lourenço e Lourival chegam em 2026 a um marco raríssimo na música brasileira: 66 anos de carreira ininterrupta. Formada ainda nos anos 1950, a dupla se consolida como a mais longeva do país em atividade, mantendo agenda de shows, gravações e presença constante em eventos importantes do sertanejo. “Somos teimosos”, brincou um dos sertanejos em entrevista.
Filhos de trabalhadores rurais do interior de São Paulo, Arlindo (89) e Antônio Cassol (86) encontraram na música uma extensão da vida na roça ainda muito jovens. Nos momentos livres, ferramentas de trabalho se transformavam em violas improvisadas, enquanto latinhas viravam microfones. Na adolescência, passaram a se apresentar em programas de rádio em Ribeirão Preto (SP) e, pouco depois, seguiram para a capital paulista, onde enfrentaram obstáculos antes de se firmar nas principais emissoras.
Foi no rádio que Lourenço & Lourival ganharam projeção nacional, passando por nomes como Rádio Bandeirantes, Rádio Nacional e Rádio Record, onde ficaram conhecidos como “as vozes de cristal”. Ao longo das décadas, emplacaram clássicos que atravessaram gerações, como Como Eu Chorei, Menina da Aldeia, Franguinho na Panela, Velha Porteira e A Cruz Que Carrego, ajudando a moldar a música sertaneja raiz.
‘A gente não está velho, está usado’
Hoje, Lourenço e Lourival seguem na ativa com uma média de dez apresentações por mês — prova de um fôlego que impressiona até colegas bem mais jovens. No ano passado, a dupla participou da gravação do DVD Herança Boiadeira – Rodeio, de Ana Castela (22), durante a Festa do Peão de Barretos, simbolizando o encontro entre diferentes gerações do sertanejo.
Em entrevista ao G1, os irmãos falaram com bom humor sobre a longevidade. “A gente não está velho, está usado”, brincou Lourival. Para eles, dividir o palco com artistas mais jovens representa a continuidade de um legado construído quando o sertanejo ainda sofria preconceito. “No começo, a gente escondia a viola, tinha vergonha. O povo ria, desfazia da música caipira”, relembrou Lourenço.

Reconhecimento
A virada, segundo eles, veio nos anos 1970, quando o gênero começou a ganhar força nacional. “Depois passou a ter valor. Vieram outros artistas, outras duplas, e a música sertaneja se levantou”, contou Lourival, destacando nomes que ajudaram a impulsionar o estilo ao longo do tempo.
Apesar de uma trajetória marcada por dezenas de álbuns, prêmios e reconhecimento — com direito até a indicação ao Prêmio da Música Brasileira —, a ideia de desacelerar nunca entrou em pauta. Em 2024, a dupla lançou um novo projeto audiovisual e marcou presença em eventos comemorativos que reafirmam seu peso histórico na música.
Questionados sobre o segredo para continuar, a resposta veio simples e direta, do jeito que sempre foram: “Somos teimosos”. Uma teimosia que, há 66 anos, mantém viva a essência da música sertaneja raiz no Brasil.
