Renan Dagostin explica como a cirurgia robótica muda o cuidado ginecológico
Médico detalha o uso de técnicas minimamente invasivas no tratamento da endometriose profunda e de miomas, fala sobre preservação da fertilidade e relembra casos em que aliviar a dor significou devolver projetos de vida

Com trajetória que passa pelo esporte de alto rendimento, pela rotina militar e, hoje, por longas horas dentro do centro cirúrgico, o ginecologista Renan Fernando Dagostin Ferreira Alves construiu sua atuação na interseção entre técnica, tecnologia e escuta da dor feminina. Em Curitiba (PR), ele se dedica à ginecologia cirúrgica minimamente invasiva, com foco em videolaparoscopia e em sistemas assistidos por robô, especialmente em casos complexos de endometriose profunda, miomas volumosos, adenomiose e condições que interferem diretamente na fertilidade e na qualidade de vida de mulheres em idade reprodutiva.
“Eu sempre soube que queria estar dentro do centro cirúrgico. Só não sabia em qual área, mas sabia que era ali que eu queria ficar”, resume.
Muito antes das câmeras em 3D e dos braços articulados dos robôs, o dia a dia de Renan era marcado por treinos, viagens e partidas. Nascido em São Bernardo do Campo (SP), ele foi jogador de vôlei profissional até os 21 anos. A medicina, porém, sempre esteve em segundo plano, impulsionada principalmente pela mãe.
“Minha mãe sempre dizia que eu e minha irmã poderíamos ser médicos. Mesmo quando eu era atleta, ela falava que eu precisava continuar estudando”, conta.
A mudança de rumo veio em conjunto com uma mudança de cidade. A família decidiu se estabelecer em Curitiba, e, em 2008, mãe e filhos passaram a construir uma nova rotina na capital paranaense. Ele e a irmã ingressaram no cursinho, até que a ideia de seguir medicina deixou de ser hipótese e se tornou plano concreto.
Formado pela PUC-PR, Renan viveu na faculdade a experiência que definiria seu caminho definitivo: a disciplina de técnica operatória, no oitavo período, com as primeiras idas ao centro cirúrgico e os procedimentos em modelos animais. “Naquele momento, eu falei: eu vou ser cirurgião. Eu precisava estar no centro cirúrgico”, lembra.
Depois da graduação, veio outro capítulo importante: seis anos de atuação no Exército. Ele passou um ano e quatro meses em Francisco Beltrão (PR) e, em seguida, cinco anos em Curitiba, no Hospital Geral de Curitiba, onde conciliou a vida militar com a residência em Ginecologia e Obstetrícia. Foi ali que a rotina no centro cirúrgico se intensificou e que o contato com uma ginecologia em transição da cirurgia aberta para as abordagens minimamente invasivas se tornou parte do dia a dia.
Cirurgia minimamente invasiva como mudança de paradigma
Foi no ambiente da residência que a ginecologia cirúrgica se consolidou como escolha. O acesso cotidiano à videolaparoscopia mostrou que era possível tratar doenças relevantes com menos trauma abdominal, menor sangramento e recuperação mais breve.
“Ali eu percebi que aquela era a melhor cirurgia para a paciente. A ginecologia estava saindo da cirurgia aberta e entrando na videolaparoscopia; foi a virada de chave para mim”, recorda.
Nesse percurso, a figura de um mentor foi determinante. Sob a supervisão do cirurgião ginecológico Rafael Pazello, Renan aprofundou a formação direcionada às técnicas minimamente invasivas. “Eu devo muito a ele. Foi quem fez essa chave virar e me mostrou o potencial dessa área dentro da ginecologia”, afirma.
Hoje, ele atua em uma equipe que reúne seis ginecologistas com formação em cirurgia minimamente invasiva e certificação em sistema assistido por robô, além de urologista, cirurgião do aparelho digestivo e um time multidisciplinar com fisioterapeuta, nutricionista, educador físico e psicóloga.
“O atendimento mudou muito. A gente é o final da linha. A paciente percorre um caminho com a equipe multidisciplinar e chega para a cirurgia em melhores condições, física e emocionalmente. Nosso papel é retirar a doença, mas o objetivo é que ela saia desse processo melhor em todos os aspectos”, explica.
Tecnologia em 3D e movimentos mais delicados
Com a chegada e expansão das plataformas robóticas no país, o ambiente do centro cirúrgico ganhou novos recursos. Renan concluiu recentemente uma pós-graduação em Sistema Assistido Por Robô Em Ginecologia e passou a incorporar a tecnologia à prática diária em casos selecionados.
Ele faz questão de frisar que, apesar do nome, o sistema não substitui o profissional. “A cirurgia é 100% operada pelo médico. O robô é uma plataforma que a gente acopla à paciente. Quem controla tudo é o cirurgião”, esclarece.
Na prática, o equipamento oferece visão tridimensional ampliada da pelve, maior estabilidade de movimentos e de articulações que permitem gestos mais delicados em regiões profundas, onde nervos, vasos e órgãos se relacionam de forma muito próxima. “A paciente tem menos sangramento durante o procedimento, menos dor na parede abdominal e um tempo de internação menor. Em alguns casos, a gente opera pela manhã e a paciente tem condição de ir para casa à tarde”, afirma.
Ele observa que, à medida que o treinamento se intensifica e o volume cirúrgico aumenta, o uso da plataforma se torna mais fluido. “Quanto mais a gente treina, mais habilidoso fica. A busca é sempre pela excelência da técnica para levar o melhor resultado possível dentro da realidade de cada paciente”, diz.

Endocianina verde e segurança em casos complexos
Entre os recursos que chamam atenção nos vídeos cirúrgicos revistos e editados por Renan está a endocianina verde, um corante fluorescente que auxilia a visualização de estruturas delicadas.
“A endocianina verde é usada geralmente em pacientes com endometriose profunda que atinge o ureter ou a região do reto. A gente injeta e, quando ativa o modo de fluorescência do robô, o ureter, por exemplo, fica em destaque, em verde. Isso nos ajuda a não lesar aquela estrutura”, explica.
No intestino, a substância também auxilia a avaliar a circulação sanguínea após ressecções. “Ela é bem usada para ver se a vascularização está preservada naquele local que foi retirado. É um bom recurso para aumentar a segurança do procedimento”, completa.
Em cirurgias que podem chegar a três ou quatro horas de duração, especialmente nos quadros mais extensos de endometriose profunda, esses detalhes técnicos fazem diferença no planejamento e na condução do caso. “É uma cirurgia em que a gente sabe a hora que entra, mas nem sempre sabe a hora que vai sair. O cuidado tem que ser constante”, resume.
Endometriose profunda, dor crônica e fertilidade
Endometriose profunda é uma das doenças que mais mobiliza a equipe. Em grande parte das vezes, as pacientes são mulheres jovens, em idade reprodutiva, que chegam após anos de dor pélvica, cólicas intensas, sangramentos importantes e, não raro, dificuldade para engravidar.
“O diagnóstico médio de endometriose é de dez anos. Muitas pacientes escutaram a vida inteira que a dor era normal, que era ‘dor da menstruação’ e que teriam de conviver com isso. A gente está tentando quebrar esse padrão”, afirma.
Os primeiros sinais costumam ser dor pélvica que piora durante o ciclo menstrual e cólicas que fogem do padrão habitual. Com a progressão da doença, surgem dor fora do período menstrual, desconforto ao urinar ou evacuar, sensação de estufamento e, em muitos casos, dificuldade para engravidar. “Dor crônica pélvica e infertilidade são sinais de alerta importantes para endometriose”, aponta.
Quando o diagnóstico está estabelecido e os exames de imagem mostram lesões profundas, o planejamento cirúrgico passa necessariamente pela discussão sobre fertilidade. “A gente conversa de forma muito franca. Explica onde estão as lesões, discute os exames feitos em serviços especializados e, muitas vezes, encaminha para o especialista em reprodução humana antes da cirurgia, para coleta de óvulos ou embriões”, detalha.
O objetivo é equilibrar a erradicação da doença com a preservação de estruturas fundamentais para o projeto reprodutivo da mulher. “Nosso objetivo é tirar a doença que ela tem, mas sem ir além do necessário. Se a gente ultrapassa um certo limite, pode prejudicar a reserva ovariana e o futuro reprodutivo dessa paciente”, explica.
Dor não é “normal”: humanização e ressignificação
Além da dimensão técnica, Renan insiste em um aspecto que considera central: o modo como a dor feminina é interpretada — e muitas vezes minimizada — ao longo da vida.
“A mulher foi ensinada por muito tempo que dor era algo normal. Escutou isso na família e, em muitos casos, de profissionais. Eu nunca vou dizer que a dor é normal. Ela precisa ser valorizada e investigada”, afirma.
O modelo de cuidado que descreve é necessariamente multidisciplinar. Fisioterapia pélvica, ajustes de estilo de vida, acompanhamento nutricional, suporte psicológico e atividade física entram no plano de tratamento antes e depois da cirurgia. “Não existe uma solução única. A cirurgia é um ponto importante, mas a doença é grande, envolve corpo e mente”, observa.
No consultório, não é raro que a paciente venha acompanhada pela família. “A endometriose nunca envolve só a paciente. Muitas vezes ela chega com mãe, filhos, netos. Quando ela melhora, a dinâmica familiar inteira se reorganiza”, comenta.
Um dos desafios, segundo ele, é justamente ajudar a ressignificar anos de sofrimento. “Muitas mulheres escutaram por muito tempo que iam ter que viver com aquela dor. Em alguns casos, elas precisam do psicólogo para ressignificar essa história e entender que existe tratamento”, pontua.
Histórias que reafirmam o propósito
Alguns casos ajudam a sintetizar o impacto desse cuidado no cotidiano das pacientes. Entre os exemplos que Renan traz à memória está o de uma mulher de 51 anos que convivia com dor pélvica há décadas. Ela já havia retirado o útero, continuava com sintomas intensos e, durante anos, ouviu que o quadro era “normal” após a cirurgia.
“O que mais me marcou foi quando ela contou que não conseguia brincar com a afilhada porque a dor não deixava. Depois da cirurgia, minha primeira pergunta no retorno foi se ela já tinha conseguido andar de bicicleta e brincar. Ela respondeu que sim. O sorriso dela mudou”, recorda.
Outro caso envolveu uma paciente de 58 anos, que já havia se submetido a dez cirurgias abertas para endometriose. Ela chegou em consulta acompanhada pela filha. “Ela dizia que tinha abandonado a própria vida e que vivia para sentir dor. Os exames mostraram que ainda havia doença profunda na pelve”, relata.
Após uma cirurgia longa, que exigiu abordagem até a região dos nervos pélvicos, o relato foi diferente. “No pós-operatório, ela contou que não tinha mais aquela dor nas costas, que tinha voltado a dançar, a sair com o marido, a participar dos encontros de família. Quando a paciente volta a ocupar a própria vida, a gente entende o tamanho do impacto do que faz”, diz.
Formação de novos especialistas e acesso às técnicas minimamente invasivas
Além da atuação assistencial, Renan também é preceptor de cirurgia ginecológica em um hospital universitário em Curitiba, ligado ao Mackenzie. Lá, acompanha de perto a transição de uma realidade marcada por grandes incisões para o fortalecimento da videolaparoscopia no sistema público.
“A tendência é que a cirurgia aberta diminua cada vez mais. No Sistema Único de Saúde, o SUS, o primeiro grande passo é consolidar a videolaparoscopia como rotina”, analisa.
Ele observa que a incorporação da cirurgia assistida por robô, já autorizada em algumas áreas no sistema público, tende a avançar à medida que o conhecimento se difunde e as pacientes passam a questionar mais sobre técnicas menos invasivas.
“As pessoas estão mais informadas, perguntam sobre técnicas minimamente invasivas, questionam o tempo de recuperação. Isso acaba impulsionando mudanças”, avalia.
Do ponto de vista pessoal, o próximo passo é seguir aprofundando o estudo em doenças complexas da pelve. “Terminei a pós-graduação em assistência robótica em ginecologia e, agora, sigo para cursos voltados à pelve avançada. É uma área em que a gente nunca pode parar de estudar”, afirma.
Tecnologia como ferramenta para devolver projetos de vida
Entre cirurgias prolongadas, revisões detalhadas de vídeos operatórios e conversas longas no consultório, Renan enxerga a tecnologia como uma ferramenta a serviço da clínica, não como protagonista isolada. Os sistemas assistidos por robô, a endocianina verde e as demais inovações são, para ele, meios para alcançar um objetivo muito concreto: aliviar a dor, preservar funções e permitir que as pacientes retomem planos interrompidos pela doença.
“A gente fala muito que esse tipo de procedimento é mais do que uma tecnologia. Hoje, ele é uma realidade e, muitas vezes, um reencontro com a vida da paciente. Ele ajuda a aliviar a doença, melhora o bem-estar e renova os sonhos. O primeiro sonho quase sempre é parar de sentir dor; depois que a dor diminui, ela volta a enxergar os outros planos que tinha para si mesma.”
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