Neurocirurgião Rafael Pacheco fala sobre dor crônica, diagnóstico preciso e avanços no cuidado da coluna
Atenção à dor, escuta técnica e rotinas terapêuticas personalizadas sustentam o trabalho do médico, que explica os sinais de alerta, o papel da reabilitação e as novas tecnologias no tratamento
Com sensibilidade adquirida ainda na infância e rigor técnico construído ao longo de anos de formação, Rafael Pacheco se tornou um dos nomes que observam a dor como um fenômeno complexo, que exige investigação responsável, escuta sem pressa e propostas terapêuticas individualizadas. Sua atuação combina conhecimento de neurocirurgia, compreensão ampliada da dor crônica e métodos modernos de neuromodulação, sempre com foco na qualidade de vida e no respeito ao tempo de cada paciente.
Rafael nasceu em Maceió (AL), onde cresceu acompanhando a rotina de trabalho da mãe, técnica de enfermagem, e dos tios médicos. Ainda criança, presenciava curativos, revisões pós-operatórias e situações em que a gratidão do paciente marcava o ambiente. Foram experiências que lhe despertaram não apenas interesse, mas um senso de responsabilidade com o sofrimento humano. Com o passar dos anos, também se aproximou do universo da urgência por meio do irmão mais velho, médico, que trazia histórias do SAMU e da rotina intensa dos atendimentos.
A escolha pela medicina veio naturalmente. Após a graduação, Rafael mudou-se para o Rio de Janeiro para se especializar em neurocirurgia no Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemeyer, um dos centros de referência formadora reconhecido pela World Federation of Neurosurgical Societies (WFNS). Ali, mergulhou no cuidado a pacientes oncológicos e conviveu com casos complexos que reforçaram a importância da escuta, da clareza e do trabalho multidisciplinar. Segundo ele, “medicina é feita dessa forma desde que surgiu; não é inventar a roda, é entender as necessidades do paciente e lançar mão da técnica para ajudá-lo”.
Com o tempo, a prática clínica o aproximou de um cenário crescente: a dor crônica. Buscando qualificação específica, realizou cursos no Brasil e em Miami, nos Estados Unidos, para aprimorar seu manejo de coluna, técnicas minimamente invasivas e neuromodulação, área que hoje se torna um pilar de sua atuação.
O que a dor crônica revela
No consultório, Rafael percebe diariamente que a dor nunca é apenas um sintoma isolado. Ela carrega histórias de rotina, sobrecarga, negligências involuntárias, medos e, não raro, tentativas frustradas de tratamento. A investigação começa pela narrativa do paciente, que ele deixa fluir antes de direcionar as perguntas técnicas. “Eu preciso conhecer a dor. Isso dá trabalho, mas é o que garante segurança na hora de dizer se o caso é cirúrgico ou não”, afirma.
Para ele, muitos quadros se tornam crônicos não por falta de recursos, mas por ausência de uma análise ampla: hábitos, trabalho, postura, doenças reumatológicas, obesidade, sedentarismo, problemas no quadril ou joelhos e até distúrbios metabólicos. É comum que pacientes cheguem exaustos, acreditando que já tentaram tudo. Nesses casos, mais do que prescrever intervenções, Rafael retoma o caminho desde o início, reorganizando expectativas e reconstruindo a compreensão do processo.
A dor irradiada, por exemplo, é um dos sinais mais negligenciados. Dor que desce para a perna, formigamento, queimação ou diminuição de força frequentemente se confundem com “má postura”, quando podem indicar compressão nervosa. Ele relata casos em que pacientes só procuram ajuda após perda de força ou alteração urinária, situações que configuram emergências neurocirúrgicas. Para ele, “algo diferente do normal que persiste não pode ser banalizado; o corpo sempre dá sinais”.

Mitos sobre hérnia de disco e sinais de alerta
Entre diagnósticos comuns, a hérnia de disco ocupa o topo das preocupações. Muitos chegam ao consultório certos de que precisarão operar, assustados com laudos extensos e linguagem técnica. Rafael, porém, inicia pelo exame físico e pela análise da postura, observando o modo como o paciente anda já na recepção. Isso porque um abaulamento discal pode não ter relação com a dor.
Segundo o médico, 85 a 90% das hérnias lombares resolvem-se de forma espontânea com tratamento conservador adequado. O medo, para ele, nasce da ideia de que cirurgia é inevitável. Com transparência, explica que “hérnia não é sinônimo de cirurgia” e que o tratamento conservador, quando bem conduzido, tem excelente resposta. A surpresa dos pacientes ao descobrir que a imagem não é o fator decisivo revela também um fenômeno emocional: o apego aos achados do exame, como se nomear a patologia fosse, por si só, resolver o problema.
Reabilitação prática e impacto emocional
Para Rafael, a reabilitação é parte essencial do processo terapêutico. Ele orienta rotinas que combinam fisioterapia, RPG, fortalecimento muscular, ajustes de postura e, quando possível, atividade física acompanhada por educador físico. Cada etapa é introduzida conforme o quadro clínico e a resposta ao tratamento.
Quando o paciente chega desanimado, ele procura restituir uma perspectiva realista, mas possível. “Eu não sou mágico, mas posso ajudar”, costuma dizer logo de início. A frase, longe de impor distância, abre espaço para um pacto honesto: o tratamento exige disciplina, constância e, sobretudo, tempo. A chave da virada, ele observa, acontece quando o paciente percebe pequenas melhoras e começa a reencontrar autonomia.
Ele explica que recuperar autonomia passa também por reencontrar o próprio ritmo. “Eu falo muito sobre movimento porque aplico isso na minha vida. Correr, por exemplo, me ajuda a organizar a mente e compreender o corpo em movimento”, comenta, reforçando que cada pessoa deve encontrar uma atividade que faça sentido dentro da sua realidade.
Há também os hábitos invisíveis que sabotam a coluna: bolsas pesadas, longos períodos sentados sem apoio adequado, trabalho repetitivo com sobrecarga mecânica, sedentarismo, dieta inflamatória, tabagismo e, atualmente, o uso excessivo de telas. Distúrbios do sono e tensão muscular constante surgem como extensões da mesma rotina. Ele explica que muitos pacientes chegam com trapézio rígido e dores cervicais importantes relacionadas ao uso do celular. A orientação preventiva passa por organizar o dia, ampliar o movimento e promover ajustes possíveis dentro da realidade de cada pessoa.
Neuromodulação e terapias não invasivas
Nos últimos anos, Rafael ampliou sua atuação com técnicas de neuromodulação não invasiva para pacientes com dor crônica que não têm indicação cirúrgica, mas convivem com grande impacto funcional. Entre os métodos utilizados está o TDCS, estimulação transcraniana por corrente contínua, aplicada em pontos específicos do crânio para modular circuitos neurais da dor por meio da neuroplasticidade. Ele explica que, em quadros crônicos, estímulos mínimos podem ser percebidos como dor intensa, e a neuromodulação ajuda a reeducar essas vias sensoriais.
Além do TDCS, utiliza eletroanalgesia, que atua no sistema nervoso periférico e beneficia casos de neuropatia, inclusive pós-herpes zóster, especialmente em pacientes intolerantes a medicações. Outro recurso é a fotobiomodulação, realizada com laser pontual ou o método ILIB, laser sistêmico que auxilia no controle da inflamação. As sessões duram cerca de 40 a 50 minutos e são indolores. Para o neurocirurgião, essas abordagens ampliam as possibilidades terapêuticas e ajudam a reduzir o sofrimento de quem já tentou diversas linhas de cuidado sem sucesso.
Cirurgia minimamente invasiva e decisões clínicas
Quando a cirurgia é necessária, Rafael adota técnicas minimamente invasivas que preservam tecidos, reduzem o tempo cirúrgico e facilitam a recuperação. O objetivo é resolver o problema com o menor impacto possível: incisões menores, menor uso de opioides no pós-operatório, redução de riscos como delirium em idosos e retomada mais rápida da mobilidade.
Essas cirurgias incluem tratamento de hérnias lombares, estenose de canal, artrodese com parafusos percutâneos e, em casos selecionados, dispositivos de neuromodulação implantáveis, conhecidos como chip da dor, além de bombas de morfina programáveis. Ele reforça, porém, que técnica não substitui julgamento clínico. “Saber quando não operar é tão importante quanto saber operar”, afirma, ressaltando que cada paciente precisa ser avaliado em sua totalidade.
O médico destaca ainda o papel da neuronavegação, tecnologia semelhante a um GPS que orienta a cirurgia em tempo real, e da neuromonitorização, que acompanha respostas neurofisiológicas durante o procedimento. Esses recursos aumentam a segurança, embora não eliminem riscos. A transparência, para ele, é parte essencial do cuidado.
No dia a dia, trabalha com equipe multidisciplinar composta por neurocirurgiões, anestesistas especializados, instrumentadores, enfermeira dedicada ao pós-operatório e fisioterapeutas. A integração permite que o paciente tenha acompanhamento consistente desde o diagnóstico até a reabilitação, especialmente em casos oncológicos, em que articula diretamente com oncologistas para garantir continuidade de tratamento.
Ao pensar no futuro, Rafael acredita que a neurocirurgia caminha para intervenções cada vez menos invasivas, mas lembra que tecnologia não substitui experiência. Sua meta é manter equilíbrio entre técnica, prudência e compreensão humana do sofrimento. Como diz, “prevenir sempre é melhor do que remediar. O médico precisa estar acessível, falar com clareza e construir com o paciente um caminho que faça sentido para ambos.”
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