Vanessa Vigna Goulart fala sobre ética, equidade e o cuidado que começa antes do nascimento
Ginecologista e obstetra defende uma medicina guiada por escuta, ciência e responsabilidade social, e propõe reflexões sobre o papel das mulheres, da infância e da ética na saúde contemporânea
Com discurso lúcido e olhar sensível sobre o ser humano, Vanessa Vigna Goulart fala da medicina como uma arte que nasce da escuta e da verdade. Ginecologista e obstetra formada pela Faculdade de Medicina de Rio Preto (FAMERP), com residência no Hospital Pérola Byington, título de especialista em Ginecologia Obstetrícia e Medicina Fetal pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO- AMB) e mestrado pela Universidade de São Paulo (USP), ela soma trajetória técnica sólida a uma prática voltada à ética, à equidade e à saúde da mulher em todas as fases da vida. “A medicina nasceu da escuta verdadeira e do esforço honesto por respostas que aliviem a dor. Cuidar é, antes de tudo, ouvir sem julgar”, afirma.
Vanessa conta que sua motivação em ser médica não surgiu de uma tradição familiar, mas da própria inquietação diante da dor humana. “O que me levou à medicina foi a dor de ver o sofrimento das pessoas. Eu queria compreender e aliviar”, diz. Filha de trabalhadores assalariados, encontrou no estudo o caminho para transformar empatia em vocação. Desde o início, aprendeu que o conhecimento técnico precisa andar junto da escuta genuína. “Quando dois seres humanos se escutam de verdade, a cura começa”, resume.
A passagem pela Força Aérea Brasileira, em Manaus (AM), marcou a visão social que hoje permeia seu trabalho. Entre ribeirinhos e populações vulneráveis, viu de perto as desigualdades do país e a distância entre discurso e prática. “Na Amazônia, percebi que eles recebiam o nosso pior: a devastação e a doença. O verdadeiro cuidado exige humildade para entender que nem sempre estamos ali para salvar, mas para aprender”, reflete. Essa experiência consolidou uma postura de respeito ao outro e de crítica construtiva ao sistema. “O médico precisa olhar para a realidade, não para a idealização. Sem ética, ciência e empatia, o cuidado se perde”, afirma.
Essa consciência sobre o papel social do médico veio acompanhada de uma reflexão profunda sobre a origem da própria medicina. A doutora cita Hipócrates como o símbolo da busca pela verdade e pela ética. “Hipócrates criou a Escola de Cós, onde se estudava a doença pelo método racional e se estabeleciam limites éticos para as condutas. Foi ali que começou a luta contra o charlatanismo, que continua até hoje”, explica. Para ela, a medicina é uma arte que une filosofia, ciência e humanidade. “O verdadeiro médico é aquele que busca a verdade com humildade e aplica a ciência com compaixão. Sem ética, qualquer técnica pode virar arma”, observa.
A mulher e a medicina como ato de escuta
A escolha pela ginecologia e obstetrícia veio do incômodo com o silenciamento feminino. “Eu vi mulheres caladas, violentadas, tratadas sem dignidade. Então decidi cuidar delas”, conta. Para ela, a saúde da mulher é um espelho da sociedade e a desigualdade ainda se manifesta de forma cruel. “As meninas negras são as mais vulneráveis. Elas são alvo de violência moral e sexual, muitas vezes antes dos 13 anos, e quase sempre o agressor é alguém conhecido. A medicina precisa olhar para isso”, afirma.
Com tom reflexivo, Vanessa fala de temas sensíveis sem denúncia direta, mas com senso de urgência. “A pobreza menstrual, o abuso infantil e a negligência com a nutrição materna são falhas coletivas, não individuais. Uma sociedade que deixa suas meninas sem proteção não pode se chamar saudável”, pontua. Para ela, a equidade deve nortear toda política de saúde. “Quem precisa mais deve receber mais. É assim que se pratica justiça na medicina”, defende.
Essa visão se estende também à educação emocional dos meninos, tema que a médica considera essencial para romper ciclos de violência. “O machismo destruiu a sensibilidade masculina. Os meninos foram ensinados a não chorar, a não sentir, e isso tem um custo enorme. Precisamos ensinar que toda emoção é válida e que escutar é também um ato de amor”, diz. No consultório e em casa, aplica o que ensina. “O que uma mulher mais precisa de um homem é que ele escute. É assim que começa o respeito”, completa.
No cuidado clínico, Vanessa aplica essa filosofia com mulheres de todas as idades. Adolescência, gestação, climatério ou menopausa: cada fase pede linguagem própria e acolhimento real. “Não existe prevenção se a mulher não entende o porquê de cada exame. Informação é parte do tratamento”, diz. A escuta, a clareza e a empatia são ferramentas que sustentam sua prática. “Cuidado centrado na paciente é prática diária, não conceito abstrato”, reforça.

Saúde pública, vulnerabilidade e o impacto da primeira infância
Ao falar sobre o início da vida, Vanessa lembra que as desigualdades começam ainda no útero. “Quando um bebê é formado em um corpo sem nutrientes adequados, ele já nasce com desvantagens cognitivas. A pobreza começa no útero”, alerta. Ela explica que deficiências nutricionais e falta de acompanhamento pré-natal comprometem o desenvolvimento cerebral e emocional da criança. “Até os seis meses se constrói a lente emocional pela qual a pessoa vai ver o mundo. A negligência e a violência nessa fase geram marcas que duram a vida toda”.
Para a médica, investir na primeira infância é o caminho mais eficaz de transformação social. “Proteger a vida intrauterina e os dois primeiros anos de uma criança é a forma mais poderosa de mudar o futuro coletivo. Cuidar do início da vida é cuidar do país”, afirma. Ela acredita que políticas públicas devem ser construídas com base em evidências e empatia. “A ciência já sabe o que funciona, mas falta prioridade. Saúde e educação não são gastos, são investimento”, diz.
No seu doutorado, Vanessa desenvolve uma ferramenta de monitoramento remoto com inteligência artificial para gestantes com diabetes, associando tecnologia e educação em saúde. “A hiperglicemia machuca o feto silenciosamente. A tecnologia ajuda quando organiza a vida da gestante e devolve autonomia, mas não substitui o olhar humano”, explica. O projeto faz parte de uma linha de pesquisa sobre inovação aplicada ao cuidado pré-natal e busca avaliar como o uso de algoritmos pode reduzir complicações obstétricas e otimizar o acompanhamento de gestações de risco. A médica estuda o impacto da IA sobre indicadores de bem-estar materno e fetal, discutindo limites éticos e critérios de segurança. “Meu objetivo é mostrar que a tecnologia deve servir ao vínculo, e não substituí-lo. Se o dado não vier acompanhado de empatia, ele perde o sentido”, complementa.
Adoecimento moderno e o desafio da vida digital
Entre os temas que Vanessa aborda com profundidade está o impacto da vida moderna sobre o corpo e a mente. “Vivemos cercados por hiperestímulos: telas, redes sociais, alimentos ultraprocessados. Tudo isso sequestra a nossa atenção e enfraquece a capacidade de refletir”, observa. Ela associa o aumento da ansiedade, da obesidade e da desmotivação a uma cultura que confunde prazer com bem-estar. “Todo prazer sem esforço tende a nos adoecer. Precisamos voltar a encontrar satisfação nas pequenas coisas”, recomenda.
A médica lembra que os estudos de neurociência sobre comportamento humano foram usados primeiro para ampliar lucros, não para melhorar a saúde. “O neuromarketing aprendeu como nos viciar. Agora precisamos reaprender a resistir. Voltar ao mundo real é o tratamento mais urgente que existe”, afirma.
No consultório, Vanessa propõe rotinas simples e sustentáveis: alimentação natural, sono regular, atividade física e desconexão digital. “A mente precisa de silêncio para se reorganizar. E o corpo, de movimento para viver bem”, resume.
Sua crítica se estende à mercantilização da medicina, que ela considera um dos desafios éticos contemporâneos. “Quando o médico pensa primeiro no procedimento e depois na pessoa, a medicina se transforma em mercado. O compromisso deve ser sempre com o ser humano”, diz. E reforça: “A ética é o que diferencia um médico que ajuda a melhorar de um que causa dano. A diferença entre remédio e veneno pode estar na intenção de quem prescreve.”
Ética, ciência e o cuidado que começa antes do nascimento
Presidente de uma comissão de ética hospitalar, Vanessa vê na história de Hipócrates o antídoto para os desvios do presente. “A ciência corrige nossos vieses e a ética limita o nosso entusiasmo. É assim que se protege a vida”, afirma. Com alunos e residentes, repete que o juramento médico não é uma formalidade, mas um compromisso moral. “Se o médico não consegue ser médico naquele dia, o problema não é do paciente”, lembra.
Entre suas prioridades estão o ensino e a formação de profissionais emocionalmente saudáveis. Ela concluiu uma pós-graduação em neurociência da produtividade, voltada à saúde mental de estudantes e médicos jovens. Essa formação complementa o doutorado ao trazer um olhar ampliado sobre desempenho, foco e empatia. “A medicina não precisa ser um lugar de exaustão. Queremos profissionais capazes de decidir com lucidez e serenidade. É possível produzir resultados com paz, sem atalhos que cobram caro depois”, reflete.
A doutora acredita que o futuro da medicina depende da reconexão com a ética e com a essência humana. “O futuro da medicina é o mesmo do passado: o encontro entre dois seres humanos que confiam um no outro”, diz. Entre as palavras que mais repete estão escuta, ética, infância e equidade. E é nesse eixo que sintetiza sua visão de mundo: “Uma sociedade que deixa seus vulneráveis à mercê dos perversos não é confiável. O futuro só melhora quando a gente cuida bem do início.”
CRM: 108616/SP | RQE Nº: 57735 | 577351
Instagram: @dra.vanessa.vigna.goulart

O conteúdo dessa publicação é de responsabilidade da TV Notícias Assessoria de Imprensa / Brasil News.