Leonardo Felício Simões explica escoliose e cirurgias da coluna
Neurocirurgião de coluna fala sobre decisões clínicas, modulação do crescimento e o papel da escuta em cada tratamento
Com linguagem direta, exame atento e explicações feitas à vista do paciente, o neurocirurgião Leonardo Felício Simões constrói o cuidado com base em um tripé que se tornou seu método: ouvir, examinar e correlacionar com a imagem. No consultório e nos centros cirúrgicos onde atua, lida diariamente com dores crônicas, deformidades e medos que se repetem em diferentes idades — especialmente quando o assunto é a cirurgia da coluna.
Da infância em Divinópolis (MG), cercado por professores e inspirado por um tio médico, à residência em neurocirurgia no Rio de Janeiro (RJ) e à especialização em coluna no exterior, Simões consolidou uma prática que alia precisão técnica e sensibilidade humana. “As regras do jogo precisam estar claras. O paciente entende o porquê, o que fazer e o que não fazer”, afirma.
Da curiosidade ao propósito: um caminho que escolhe a coluna
Filho de professores, Simões cresceu entre livros e conversas sobre conhecimento. O interesse pela medicina surgiu ainda criança, ao folhear os atlas de anatomia que seu tio médico guardava em um pequeno escritório no interior. Anos depois, formou-se em Medicina pela Faculdade de Valença e iniciou residência em neurocirurgia no Hospital Adventista Silvestre, no Rio de Janeiro. Durante a formação, participou de uma cirurgia de escoliose em uma adolescente de 12 anos — experiência que mudou seu rumo profissional. “Ver aquela menina se olhar no espelho com o corpo equilibrado, retomando a autoestima, me mostrou o poder transformador dessa área”, relembra.
Vieram estágios em grandes centros brasileiros e um período decisivo de aperfeiçoamento em cirurgia de coluna de adultos e infantil na McGill University, no Canadá. A vivência no exterior consolidou a paixão por unir ciência e compaixão em uma especialidade que exige técnica, planejamento e empatia. “A cirurgia começa na cabeça. O centro cirúrgico é apenas a execução de algo que já foi pensado e repensado”, reflete.
Escoliose: diagnóstico precoce e decisões compartilhadas
A escoliose ainda é subdiagnosticada no Brasil, segundo Simões. O motivo está no acompanhamento insuficiente durante o período de crescimento acelerado — entre 8 e 11 anos nas meninas e 13 e 15 nos meninos. “É a fase do estirão, quando a coluna cresce rápido em pouco tempo e as curvas podem surgir ou progredir sem que os pais percebam”, explica. Sem detecção precoce, a correção torna-se mais complexa e, muitas vezes, cirúrgica.
O médico ressalta que o diagnóstico depende de um olhar integrado. O processo inclui anamnese detalhada, exame físico minucioso — que avalia não só a coluna, mas também quadril, pernas e hábitos de vida —, seguido da análise de exames de imagem. “O paciente precisa sentir que foi escutado. E o que ele conta deve ser validado no exame físico e na imagem”, destaca.
A decisão entre observar, indicar colete ou operar é individual e leva em conta idade, maturidade óssea e progressão da curva. Simões desmistifica conceitos antigos. Um deles é o de que a escoliose idiopática não causa dor. “Curvaturas rotacionadas e desbalanceadas podem, sim, gerar dor. O corpo tenta compensar, e isso desgasta músculos e articulações”, diz. Outro equívoco é acreditar que “esperar sempre é o melhor caminho”. “Cada doença precisa de um remédio específico. Às vezes o tempo joga contra o resultado”, completa.
Além do corpo, a deformidade pode afetar a autoestima. Ele lembra de pacientes adolescentes que recuperaram confiança após o alinhamento. “Quando uma menina volta a usar uma blusa de alcinha ou um menino passa a se olhar no espelho sem constrangimento, o ganho é físico e emocional. A confiança muda junto com o corpo”, afirma.
Modulação do crescimento: quando a coluna é guiada pelo próprio corpo
Entre os avanços que mais o entusiasmam está a modulação do crescimento, uma técnica que busca corrigir a curvatura sem retirar a mobilidade da coluna. O procedimento é indicado a crianças que ainda não atingiram a maturidade óssea e se baseia em um princípio biológico: controlar o crescimento de um dos lados da curva, permitindo que o outro se expanda naturalmente.
Durante a cirurgia, realizada de forma vídeo-assistida, são feitos pequenos acessos laterais no tórax. Por eles, o cirurgião insere parafusos conectados por um cabo flexível, que tensiona o lado mais longo da curvatura e o estabiliza. À medida que a criança cresce, o lado oposto continua se desenvolvendo e a coluna se realinha de maneira gradual. “O objetivo não é endireitar tudo de imediato, mas guiar o crescimento. O corpo faz o trabalho com o tempo”, explica.
As vantagens são expressivas: menor perda sanguínea, menos dor, cicatrizes discretas e preservação da mobilidade. Mas o sucesso depende de um diagnóstico precoce. “Identificar cedo é o que muda a história. Quando o crescimento termina, perdemos a janela de oportunidade”, alerta.
No exterior, a técnica é amplamente utilizada, mas no Brasil ainda está em fase inicial de implementação. “Fiz o treinamento no Canadá e acompanhei dezenas de casos. É um caminho promissor e seguro quando bem indicado”, reforça.

Precisão, tecnologia e equipe: harmonia dentro e fora da sala de cirurgia
O avanço das cirurgias de coluna, segundo Simões, passa pelo uso inteligente da tecnologia aliado à experiência e à calma da equipe. Ele utiliza endoscopia de coluna, que permite acesso minimamente invasivo, cortes reduzidos e recuperação acelerada. Também recorre à monitorização neurofisiológica, que acompanha em tempo real a integridade dos nervos durante a operação, e à navegação robótica, que aumenta a precisão no posicionamento de parafusos e implantes.
A radiografia de corpo inteiro com baixa dose de radiação (EOS) é outra ferramenta que trouxe revolução ao diagnóstico. O exame gera imagens tridimensionais e fornece milhares de parâmetros sobre o alinhamento global do corpo, permitindo planejamento mais exato e individualizado. “A máquina evoluiu antes do nosso conhecimento. Ela fornece mais de 3.500 dados, e ainda estamos aprendendo como interpretá-los clinicamente”, explica.
Na rotina, o médico valoriza o treinamento contínuo — tanto seu quanto da equipe. “Se o piloto precisa de horas de simulador, o cirurgião também. Treinar cem vezes no laboratório faz diferença no caso real”, afirma. Dentro do centro cirúrgico, busca um ambiente de equilíbrio e respeito. “O estresse já é grande. O que resolve é a comunicação. Gosto de leveza, de música, e de uma equipe afinada, em que todos saibam o que fazer e confiem uns nos outros”, comenta.
Para ele, a tecnologia é ferramenta, não fim. “Ela não substitui o julgamento clínico. É o médico quem decide quando e como usar cada recurso”, resume.
Pesquisa e inovação: quando o olhar clínico encontra a curiosidade científica
Além da prática assistencial, Simões conduz dois projetos de pesquisa que refletem sua inquietação diante do que ainda falta compreender. O primeiro investiga a relação entre o diafragma e a escoliose, hipótese que surgiu durante sua especialização no Canadá. A teoria sugere que um desequilíbrio na movimentação do diafragma, que está conectado ao coração pelo pericárdio e próximo à aorta torácica, poderia exercer forças assimétricas sobre a coluna em crescimento. “Se um lado do diafragma tem menor mobilidade — por exemplo, o direito, limitado pelo fígado —, a tração do coração e dos vasos pode interferir no eixo da coluna durante o estirão do crescimento”, explica.
Ele acredita que entender essa correlação pode abrir portas para novas formas de prevenção e reabilitação, unindo fisioterapia respiratória e ortopedia. “É um campo ainda em estudo, mas que pode mudar nossa compreensão sobre as causas da escoliose idiopática”, diz.
O segundo projeto tem como foco a hipertensão intracraniana idiopática, condição em que o sangue entra normalmente no cérebro, mas encontra resistência para sair, elevando a pressão interna. Simões identificou casos em que essa obstrução ocorre na saída da veia jugular, comprimida entre ossos, o que dificulta a drenagem. “Tivemos pacientes que ficaram meses internados com dor e perda de visão. Com um procedimento de descompressão e, em alguns casos, o uso de stent venoso, conseguimos normalizar o fluxo e devolver qualidade de vida”, relata.
Ele ressalta que a condição ainda é pouco reconhecida e que muitos pacientes sofrem por falta de diagnóstico. “São pessoas rotuladas como ansiosas ou dependentes de analgésicos, quando na verdade têm uma alteração anatômica que precisa ser tratada”, afirma. A pesquisa busca validar novos parâmetros para diagnóstico e ampliar o acesso a terapias que já se mostraram eficazes em outros países.
Essas investigações revelam o olhar investigativo do médico, que se recusa a aceitar respostas prontas. “A medicina precisa valorizar a queixa e o contexto, não apenas o exame. Às vezes o normal de um é o limite do outro”, diz.
Onde atende e como conduz o cuidado
O neurocirurgião realiza atendimentos em consultório particular no Américas, ao lado do Hospital Vitória, e também nos hospitais Rios D’Or, Oeste D’Or e Dicamp, todos na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Em cada ambiente, mantém o mesmo princípio: escutar, examinar, explicar e agir com clareza. “Cada doença precisa de um remédio certo, e o paciente precisa saber qual é o seu”, resume.
“Se a gente continua fazendo as mesmas coisas, terá o mesmo resultado. Clareza é parte do tratamento, e adesão também. O objetivo é devolver função com segurança e expectativa real.”
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