Camila Miguez explica os novos caminhos da neurocirurgia infantil
De tumores cerebrais à mielomeningocele, a médica revela como a tecnologia, o cuidado integral e o olhar humano podem mudar a história de jovens pacientes
Estudo intenso, escolhas éticas e uma prática que devolve o tempo ao paciente e à família: esse é o profissionalismo de Camila Miguez de Oliveira Ahmed. O ponto de partida para ser médica não foi um plano meticuloso, mas um encontro: “A medicina me escolheu”, conta. Durante a graduação, o fascínio pelo sistema nervoso cresceu, e a convivência com equipes competentes e humanas, especialmente diante da doença de sua mãe, consolidou o norte da carreira. “Eu queria ser neurocirurgiã, mas uma boa neurocirurgiã. Eu queria fazer a diferença.”
Em um ambiente predominantemente masculino, antes de entrar na residência, Camila enfrentou comentários preconceituosos, mostrando as barreiras de gênero que ela iria lidar. Felizmente, encontrou mestres que a incentivaram a permanecer e seguir para a residência no Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemeyer (IECPN).
A opção pela neurocirurgia pediátrica se firmou no fellow que viria a seguir, onde uniu rigor técnico e sensibilidade com a orientação do médico Gabriel Mufarrej. Antes disso, viveu uma imersão de 45 dias no Great Ormond Street Hospital (GOSH), em Londres, um dos maiores centros de referência mundial na especialidade. “Eles não têm problema com o tempo da consulta, não contam quantas cirurgias fazem por dia. O objetivo é fazer bem o que precisa ser feito”, diz.
De lá, trouxe uma prática que incorporou ao dia a dia: enviar cartas pós-consulta para familiares, relatando de forma acessível tudo o que foi explicado no consultório. Quando parte da família não pôde comparecer, “o conteúdo chega por escrito, o que reduz ruídos e ansiedade.”
No Brasil, Camila aplica a mesma escuta que aprendeu observando o cuidado humanizado inglês. “Eu brinco com as crianças e legitimo os medos dos pais. Peço que me recontem com as próprias palavras o que entenderam, para eu checar se ficou claro”, afirma.
A disponibilidade também faz parte do tratamento: mantém telefone profissional acessível tanto para pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) quanto do consultório particular. “Eu acho absurdo tratar diferente. Posso demorar por estar em cirurgia, mas eu retorno”, reforça. E repete uma lição que carrega de um de seus mentores: “Você não precisa fazer a cirurgia mais minimamente invasiva, precisa fazer a melhor cirurgia para o seu paciente.”
Neurocirurgia pediátrica na prática: sinais, escolhas e segurança
Os tumores cerebrais infantis exigem olhar atento e compreensão de que os sinais variam conforme a idade. Em bebês, a atenção deve recair sobre moleira tensa ou mais ampla, irritabilidade persistente, recusa alimentar. Além disso, sinais de aumento da pressão intracraniana, como olhar para baixo persistente ou veias salientes no couro cabeludo.
Em crianças maiores, é preciso observar cefaleia, vômitos, estrabismo de início recente, dificuldades de fala e movimentação, e alterações do nível de consciência. No diagnóstico, Camila destaca o avanço da metilação tumoral, que aprofunda a classificação. “Não é só dar nome e sobrenome ao tumor, é também entender de onde ele veio e qual tratamento personalizado podemos estudar para ele com ajuda da equipe da patologia e oncologia”, diz.
No centro cirúrgico, ela cita os recursos que ampliam a segurança: neuronavegação para mapear trajetórias, aspirador ultrassônico para lidar com tumores mais firmes, monitorização neurofisiológica para preservar áreas eloquentes e o microscópio como aliado indispensável. “Aprendi com meu orientador e levo para minha vida: O objetivo é que o paciente saia igual ou melhor da cirurgia, nunca pior.”
A epilepsia cirúrgica é outra frente importante e, segundo Camila, ainda pouco difundida no Rio de Janeiro. Ela explica duas abordagens principais: a estimulação do nervo vago (VNS), indicada quando não há lesão claramente ressecável, e as cirurgias paliativas e desconectivas, como calosotomia e hemisferotomia, hoje com preferência pela técnica vertical, que reduz tempo cirúrgico e internação. “Indicação precisa e equipe treinada são essenciais, mas é o importante que os pacientes saibam que há caminho para quem não responde ao tratamento clínico”, frisa.
Em termos práticos, a decisão por cirurgia em epilepsia passa pela refratariedade clínica, quando, após tentativas adequadas com medicamentos, as crises seguem interferindo na cognição, aprendizado e vida social. “Nem sempre é ficar 100% livre de crise, às vezes o ganho que muda a vida é não cair mais, não se machucar, conseguir dormir e aprender melhor. A indicação precisa e o acompanhamento próximo fazem a diferença”, explica.
Na hidrocefalia, Camila expressa entusiasmo com a neuroendoscopia, técnica que permite resolver o acúmulo de líquor sem necessidade de implante permanente. A especialista explica que há dois caminhos principais: a derivação ventrículo-peritoneal (DVP), que redireciona o líquor até o abdome, e a endoscopia, que cria um novo trajeto interno, dispensando a válvula. “A pergunta é sempre a mesma: há opção endoscópica segura? Quando não há, a válvula é o caminho correto.”
Na escolha entre endoscopia e derivação, pesam anatomia ventricular, idade da criança, etiologia da obstrução e experiência da equipe. “Quando a anatomia permite e a obstrução é adequada, a endoscopia tende a ser minha primeira pergunta. Mas há cenários, como infecções prévias, alterações do fluxo e condições associadas, em que a válvula é mais segura. O melhor procedimento é o que respeita a indicação, a técnica e o momento da criança”, reforça.
Outro tema que Camila considera essencial é a mielomeningocele, malformação congênita do tubo neural em que a medula espinhal, geralmente na região lombossacra, nasce exposta. “Normalmente está associada à deficiência do ácido fólico da mãe.”
O objetivo inicial da neurocirurgia é fechar a pele e proteger a medula, evitando infecção e complicações neurológicas. “Essas crianças podem ter déficits motores, dificuldades para andar e disfunções urinárias. O neurocirurgião precisa estar presente desde o pré-natal, explicando o que esperar e como será o cuidado após o nascimento”, diz.
Camila estruturou um protocolo no Hospital Federal de Bonsucesso, adaptando consultas pré-natais com mães que recebem o diagnóstico antes do parto. “Oriento sobre as expectativas em relação ao bebê após o nascimento. Explico que há cirurgia intrauterina e a pós-natal, que é a mais comum no SUS. Converso sobre o tempo de internação, antibióticos e reabilitação.”
O resultado é perceptível: menos ansiedade e mais preparo emocional. “Elas chegam sabendo o que vai acontecer. Sabem que o neurocirurgião precisa operar em até 48 horas e que o acompanhamento será por toda a vida, mesmo na idade adulta”, conta.
Ela reforça ainda a importância da equipe multidisciplinar. “Essas crianças precisarão de fisioterapia, terapia ocupacional, às vezes fonoaudiologia. A mãe precisa entender que é um tratamento contínuo, mas possível.”
A médica também aborda a cranioestenose, condição em que o fechamento prematuro das suturas cranianas provoca deformidades no formato da cabeça. O aprendizado veio dos cursos de endoscopia e da vivência em Londres, onde observou o tratamento minimamente invasivo com endoscópio. “A cirurgia é feita em bebês menores de três meses. Criamos novamente o espaço da sutura, para que o crânio volte a crescer de forma uniforme.” Segundo ela, essa técnica reduz sangramentos, tempo de internação e complicações. “É uma cirurgia muito segura, desde que o diagnóstico seja precoce. Por isso, é fundamental que pediatras encaminhem rapidamente ao neurocirurgião”, afirma.

Tecnologia: cooperação remota, 3D e realidade aumentada
Camila evita o futurismo fácil e fala da tecnologia que já está presente nas salas cirúrgicas. O endoscópio flexível, por exemplo, amplia o alcance dentro do sistema Ventricular no tratamento das hidrocefalias e permite suporte remoto em tempo real de equipes de outras regiões. “A outra equipe orienta passo a passo durante o procedimento.”
Outro avanço é o uso de simulações 3D criadas a partir das imagens do próprio paciente. Com modelos impressos e digitais, a equipe define a melhor via de acesso e evita áreas nobres. “Eu mesma recorro à simulação computadorizada para planejar casos complexos. O ganho é prático: traçado mais seguro, menos surpresa e mais previsibilidade para a família.”
Para ela, tecnologia é ferramenta, não espetáculo. O rigor técnico convive com o cuidado de validar se o paciente e a família realmente compreenderam o plano de tratamento. Essa filosofia se manifesta no gesto de escrever cartas, responder mensagens e manter um canal de diálogo aberto, mesmo fora do consultório.
Cuidado até o fim e o mesmo olhar no SUS e no privado
Camila mantém o mesmo padrão de ética e acolhimento no SUS e no consultório particular. “O número é o mesmo, posso demorar, mas respondo. O cuidado não muda.”
Além disso, os planos seguem simples e consistentes: continuar estudando, aprofundar técnicas em epilepsia e seguir participando de cursos e congressos. “Quanto mais eu estudo, mais sou capaz de oferecer alternativas seguras, no público e no privado”, reforça.
No fim, o que se impõe é um método: escuta, explicação e presença. E uma orientação prática para quem cuida de crianças com diagnóstico neurológico: buscar confiança, perguntar sobre critérios de urgência, anotar e, sempre que possível, pedir o registro por escrito.
“Primeiro de tudo, sinta confiança no médico que está te atendendo. Isso é o começo para as coisas darem certo. Pergunte, entenda critérios de urgência e acredite que hoje temos instrumentos que podem possibilitar um resultado muito satisfatório. A clareza e a calma fazem parte do tratamento”, conclui Camila.
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