Beatriz Noelma Antunes fala sobre prevenção, maternidade e os desafios da mulher moderna
Ginecologista de São José do Rio Preto alia experiência, linguagem franca e uma visão humana sobre corpo, envelhecimento e autocuidado feminino

Aos 63 anos, Beatriz Noelma Antunes fala com a leveza de quem coleciona histórias e não tem medo de dizer o que pensa. Dona de um humor que quebra formalidades e de um olhar clínico apurado, a ginecologista e obstetra mantém a naturalidade de quem já viveu várias fases da medicina — das décadas de centros cirúrgicos cheios de bisturis às consultas que hoje mesclam tecnologia, escuta e sensatez. “Eu começo a atender 7h30 e sigo no batidão. Trabalho muito, mas não é pesaroso. Lido com vida”, diz.
Filha de descendentes portugueses, Beatriz recebeu o nome da avó, Beatriz, uma mulher simples e afetuosa que sempre sonhou em ter mais filhos. Foi ela quem inspirou o primeiro desejo da neta: ser médica. “Eu me lembro de falar pra minha avó que ia ser médica. Ela respondeu: ‘filha, é a profissão mais bonita do mundo’.” A lembrança ainda emociona.
Determinada desde cedo, Beatriz entrou na faculdade aos 17 anos, na antiga Faculdade de Medicina de Catanduva (FAMECA) — hoje UNIFIPA — e se formou aos 23. Ia e voltava todos os dias de São José do Rio Preto (SP) para estudar, numa rotina que exigia disciplina e coragem em tempos em que poucas mulheres seguiam Medicina. “Na minha turma, eram dois meninos para cada mulher. Hoje é o contrário.”
A residência em ginecologia e obstetrícia consolidou a escolha. O primeiro contato com o centro cirúrgico foi um marco. “O médico que faz cirurgia ou ama ou detesta. Eu amei. Aquela dinâmica, o cheiro, a roupa, a adrenalina… era onde eu queria estar”, conta.
Casou-se com o mastologista que foi seu chefe de residência e aprendeu com ele as bases da cirurgia oncológica. Acompanhou de perto os desafios da década de 1980, quando os tratamentos eram agressivos e pouco havia em termos de reabilitação. “Naquela época, tirava-se tudo. Hoje a medicina é outra — e ver essa evolução foi um privilégio.”
Consultório raiz e uma prática sem atalhos
Beatriz nunca perdeu o gosto pelo atendimento clínico. Entre cesáreas, histerectomias, biópsias e ultrassonografias, construiu uma rotina marcada por presença e ética. “Aqui não se vende protocolo. A gente examina, explica e decide junto”, garante.
No consultório, ela ainda realiza colposcopia associada ao papanicolau, prática que muitos abandonaram, mas que considera fundamental. “Aprendi que não se faz preventivo sem olhar o colo. Esse é o básico que salva vidas.”
A médica também acumula anos de serviço público e conhece bem a realidade das mulheres que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS). “É difícil faltar no trabalho pra ir num posto, pedir cesta básica pra conseguir exame… E, mesmo assim, elas vão. Eu aprendi muito com essas pacientes”, afirma.

O corpo, o tempo e os novos comportamentos femininos
Beatriz reflete sobre o papel da mulher contemporânea. “Hoje a mulher tem que trabalhar, sustentar casa, estudar, cuidar do corpo e ainda ser mãe. Não sobra tempo pra ser mulher.”
Ela observa uma geração que adia a maternidade, muitas vezes por necessidade. “As mulheres estão chegando aos 40 e se arrependendo. Porque quando o relógio biológico fecha, não dá pra negociar com a natureza”, diz.
Para essas pacientes, a médica defende informação e planejamento. “A mulher pode escolher não ter filhos, mas precisa saber que a fertilidade tem prazo. O congelamento de óvulos é uma opção, mas não é garantia. De cada dez óvulos maduros, nem todos viram bebê.”
Beatriz também fala com ironia afetuosa sobre as pressões estéticas. “Antigamente, a marquinha do biquíni e o monte de vênus eram símbolo de sensualidade. Hoje todo mundo vem depilado, e as meninas acham que o corpo precisa ser perfeito”, analisa.
Ela lembra de casos de mães que levaram filhas adolescentes ao consultório preocupadas com o tamanho dos lábios vaginais. “Tem mãe que acha que precisa corrigir uma menina que nem começou a vida sexual. É um absurdo”, afirma. Para ela, a cultura da comparação vem adoecendo as mulheres. “Temos que ensinar as meninas a se aceitarem. O corpo precisa de respeito, não de moldes.”
Hormônios, modismos e a medicina com critérios
Entre os assuntos mais procurados no consultório estão a menopausa e a reposição hormonal. Beatriz é didática: sempre explica o conceito de janela de oportunidade.
Trata-se do período entre 45 e 55 anos em que o uso de estrogênio pode trazer benefícios cardiovasculares e aliviar sintomas, desde que haja indicação e segurança. “Medicina é ciência de verdades temporárias. O que ontem era contraindicado, hoje pode ser seguro, se bem indicado.”
Ela se mostra crítica aos modismos e às terapias hormonais vendidas como milagre. “É confortável ouvir que um hormônio vai trocar gordura por músculo. Mas segurança e verdade vêm antes. A gente gasta saliva explicando, e vale a pena.”
Sobre o uso de testosterona em mulheres, é enfática: “A única indicação é na disfunção sexual em menopausa. Fora isso, é moda e risco desnecessário”, frisa. A mesma prudência vale para implantes e “chips” sem aprovação científica. “O problema não é a novidade, é vender promessa. Medicina não é mercado.”
Em contrapartida, valoriza as inovações que realmente ampliam conforto e qualidade de vida. No consultório, utiliza laser para sintomas geniturinários do climatério e incontinência urinária leve, sempre com clareza sobre custos e limites. Também prepara, ao lado da filha hematologista e oncologista, uma pequena sala cirúrgica ambulatorial equipada para histeroscopia, retirada de pólipos, biópsias e colocação de DIU sob analgesia. “Não é hospital, ninguém interna. É o necessário pra fazer direito e sem sofrimento”, reforça.
Humanidade, experiência e amor-próprio
Entre partos, cirurgias e consultas, Beatriz mantém uma rotina de estudos. Fez pós-graduação em nutrologia da mulher, cursos de endocrinologia e segue atualizada em imagem. “Atualizar é responsabilidade. O consultório muda quando a gente entende melhor risco e benefício.”
Apesar da técnica, é a empatia que marca sua fala. “A gente se coloca no lugar. Tem calado, tem lágrima. Acolher é parte do ato médico”, afirma.
Na obstetrícia, vê o perfil da brasileira mudar. “A mulher não gosta de sentir dor. Quer cesárea, anestesia, conforto — e está tudo bem, desde que seja uma escolha consciente.” Ainda assim, segue realizando partos normais e defende o direito à escolha. “Cada parto é uma história. O importante é a segurança da mãe e do bebê.”
Com humor, Beatriz costuma dizer que envelhecer na medicina é uma vantagem. “Eu já vi de tudo. E o que mais me surpreende é que as mulheres continuam esquecendo delas mesmas.”
Neste contexto, a médica fala de autocuidado com a mesma seriedade que fala de prevenção: “Se você não se cuida, nada funciona: nem casamento, nem trabalho, nem saúde.”
Hoje, ela divide o consultório com a filha e sonha em seguir ativa até os 70 anos. “Se eu continuar levantando à noite pra atender parto e cirurgias necessárias, já fico feliz. Fiz bastante coisa. Agora é lapidar.”
Com ampla experiência médica, Beatriz reforça que o amor próprio é o fator mais importante para viver bem. “Se você está bem com você, você cuida melhor dos seus, do trabalho e da saúde. Reserve tempo pra si, todos os dias, nem que sejam 30 minutos. Você merece e seu corpo agradece”, destaca.
CRM: 53393/SP | RQE Nº: 53313
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